Entrevista: Carla Barreto

  • “Quando olho para trás, agradeço por ter trabalhado com líderes que sempre me incentivaram e me tiraram da zona de conforto” Carla Barreto

    “Quando olho para trás, agradeço por ter trabalhado com líderes que sempre me incentivaram e me tiraram da zona de conforto” Carla Barreto


texto José Enrique Barreiro
fotos Lívia Aquino

Uma mulher movida a desafios. Essas poucas palavras podem resumir o espírito profissional de Carla Barreto, Responsável por Pessoas e Organização na Odebrecht S.A. Baiana de Salvador, Carla está na Odebrecht desde 1994, quando ingressou na área de controladoria da Construtora Norberto Odebrecht (CNO).

“Nossos valores nada valem se não forem praticados pelos líderes”

A maior parte de sua trajetória até agora foi dedicada a programas financeiros: na própria CNO, na área petroquímica (esteve na OPP, participou dos primeiros passos para a aquisição da Copene e assumiu a controladoria da Unidade Poliolefinas da Braskem) e na Odebrecht S.A. Dez anos depois de seu ingresso, retornou à CNO. “Não era mais a empresa que eu havia deixado. Quando voltei, 70% de seu faturamento estava no exterior e 30% no Brasil; antes, era o inverso”, lembra Carla. Após participar da reorganização societária da CNO (trabalho que reestruturou os ativos e investimentos entre mais de 100 pessoas jurídicas da empresa e que permtiu a constituição da OOG, OR e Foz do Brasil), Carla foi para a área de Planejamento da Odebrecht S.A. Há um ano, ela procurou seu líder, André Amaro, e solicitou: “Quero trabalhar com a agenda de Pessoas”. Para quem havia lidado sempre com Finanças, o pedido poderia ter soado estranho. André, no entanto, sabia que estava diante de alguém que busca desafios, e lhe ofereceu o programa de Pessoas e Organização da Odebrecht S.A. Para Carla, mãe de dois filhos, Rafael e Júlia, casada com Jayme Fonseca, Responsável por Finanças na CNO), uma mulher que gosta de ler e estudar, viajar com a família e praticar ioga, ela se encontra no lugar certo neste momento da Odebrecht: “Nosso maior desafio está relacionado aos temas que envolvem pessoas”.

Odebrecht Informa – Por que, depois de uma carreira sólida na área de Finanças, você decidiu ir para a agenda de Pessoas?

Carla Barreto – Foi o resultado do trabalho de apoio a Marcelo Odebrecht na consolidação da Visão 2020, do qual tive a oportunidade de participar. Esse trabalho, intenso e estratégico, permitiu-me dialogar com Marcelo e líderes da Organização e ter uma nova perspectiva dos desafios para a próxima década. Entendi, naquele período de muitos debates, que a Organização estava bem resolvida na área de Finanças e que o nosso maior desafio estaria na agenda de Pessoas. Foi esse desafio que me chamou a atenção, e me mobilizei nessa direção.

OI – Por que a agenda de Pessoas se tornou decisiva?

Carla – Há cinco anos éramos 40 mil integrantes; hoje, somos 120 mil, e com evidentes perspectivas de crescimento. É uma evolução avassaladora. Precisamos assegurar que o que nos trouxe até aqui, a nossa cultura empresarial, continue a nos levar adiante, independentemente de nosso porte, diversificação e complexidade. Precisamos garantir, em todos os âmbitos, a presença de líderes educadores integrados à nossa cultura e comprometidos com a formação de novas gerações de líderes. Para a Organização, essa agenda é estratégica.

OI – O que está sendo feito para garantir crescimento com integração cultural?

Carla – O importante é garantir aderência à nossa cultura. Sempre buscamos identificar o jovem na universidade e construir com ele um plano de vida e carreira. Essa dinâmica prossegue, mas estamos sendo desafiados pelo crescimento acelerado. O boom de infraestrutura no Brasil e em outros países nos surpreendeu. Intensificamos a busca de jovens, trouxemos de volta ex-integrantes que haviam se aposentado ou mesmo saído da Organização precocemente. Finalmente, estamos a-cessando o mercado e mobilizando líderes maduros. Precisamos assegurar que esses líderes se integrem rapidamente à nossa cultura. Reforçar o papel do líder educador é crucial, porque as iniciativas para acelerar a integração de pessoas não serão corporativas. Pelo contrário, dependerão sempre da relação líder-liderado. Há algumas iniciativas em andamento, mas acredito que ainda precisamos avançar muito.

OI – O que significa aderir à cultura Odebrecht?

Carla – Cultura é a prática de valores e princípios. Sem serem praticados, valores e princípios não formam cultura, são letra morta, palavras ao vento, significantes sem significado. Nosso desafio é fomentar a prática empresarial vinculada a nossos valores e princípios. Isso requer disciplina, pedagogia da presença, líderes educadores e processos. A cultura tem de permear tudo o que fazemos. Qualquer ação tem de refletir a nossa cultura. E os líderes são a base de tudo isso. Lembro sempre da mensagem de Dr. Norberto Odebrecht no encontro que fizemos para iniciar a construção da Visão 2020: “Esses princípios, conceitos e valores de nada valerão se não forem praticados, permanentemente, pelos líderes da Organização”.

“Ninguém substitui o líder educador. Ele é o eixo de formação e desenvolvimento das pessoas. Quando olho para trás, agradeço por ter trabalhado com líderes que sempre me incentivaram e, sobretudo, me tiraram da zona de conforto”

OI – Qual exatamente o papel dos líderes nesse proecesso?

Carla – O desenvolvimento de nossos integrantes depende de líderes educadores. Quando olho para trás, agradeço por ter trabalhado com líderes que sempre me incentivaram e, sobretudo, me tiraram da zona de conforto. Devo muito a eles. Gostaria de citar Hélio Guimarães, Ney Silva, Luiz Mendonça, Carlos Fadigas, Paulo Cesena e, mas recentemente, André Amaro, que me deram exemplo e me desafiaram. Não existe fórmula. A educação se dá pelo trabalho, no dia a dia. O que existe é  a visão e o comprometimento de um líder educador com a formação de sua equipe.

OI – E a educação para o trabalho?

Carla – Reforça, mas não substitui. Vou contar uma história. Durante aqueles debates para a formulação de nossa Visão 2020, foi solicitado a Marcelo Odebrecht a criação de uma Universidade Odebrecht, uma universidade corporativa nos moldes de tantas que existem por aí. Havia certa expectativa de que Marcelo encampasse a ideia. Eu não esqueço das palavras dele quando comentou o assunto diante de todos e recusou a proposta: “Vocês querem o quê? Que eu construa um prédio com salas de aula para formar pessoas? Nunca. A nossa universidade são os canteiros de obras, as unidades industriais, as usinas, as plataformas de petróleo. Aí fomos formados, aí formaremos as próximas gerações. Essa é a verdadeira Universidade Odebrecht, da qual nós somos os professores. Educação pelo Trabalho, esse é o nosso caminho, e não há outro”. Ou seja, estudar é muito importante, não há dúvida. Mas é no aprendizado do dia a dia que se formam os líderes.

OI – Qual o papel da holding Odebrecht S.A. nesse trabalho de formação de líderes?

Carla – Somos guardiões da prática de nossa cultura e procuramos dar unidade às ações. Fomentamos a visão de uma Organização comprometida com a transformação. Consolidamos políticas, mas olhamos para cada negócio como único e, ao mesmo tempo, integrado ao conjunto. Estimulamos a transversalidade, a mobilização de forças sinérgicas para a antecipação e o atendimento das demandas de nossos clientes. Mas fazemos tudo isso na linha [nas operações das empresas com os clientes] e para a linha. Nossa agenda de Pessoas e Organização só tem sentido se for oferecida, compartilhada e exercida pela linha.

“Há cinco anos éramos 40 mil integrantes; hoje somos 120 mil, com evidentes perspectivas de crescimento. É uma evolução avassaladora. Precisamos garantir que o que nos trouxe até aqui, a nossa cultura empresarial, continue a nos levar adiante”

OI – Quem é, para você, o Parceiro Odebrecht?

Carla – Uma pessoa de conhecimento, aderente à nossa cultura. É preciso que tenha capacidade de se comunicar e humildade, porque guardar para si o saber de nada serve; o saber precisa ser compartilhado. O Parceiro Odebrecht é também uma pessoa que faz as coisas acontecerem e que tem muita garra. Alguém que gosta de educar e formar pessoas, que tem a ambição de ser um verdadeiro líder educador.