Acreditar é preciso

  • Participantes do Acreditar Angola: protagonistas de uma nova era no país

    Participantes do Acreditar Angola: protagonistas de uma nova era no país


texto Zaccaria Júnior
fotos Holanda Cavalcanti

Trabalhadores angolanos têm no Programa Acreditar uma oportunidade de se desenvolver e contribuir para o avanço de seu país

“Cada ser humano possui forças que ele próprio pode desenvolver, desde que tenha caráter, talento, vocação e motivação, encontre um clima organizacional adequado e seja orientado por um líder realmente comprometido em apoiar sua educação. Atendidos tais requisitos, então não haverá mais limites para o desenvolvimento desse ser humano: ele tenderá a ser o melhor no campo de trabalho que escolher”.

A frase de Norberto Odebrecht sintetiza o cuidado da Organização com o desenvolvimento das pessoas e o entendimento de que isso é intrínseco aos negócios – assim como o oxigênio para a existência da humanidade. Essa frase prefacia o material de apresentação da mais recente iniciativa de formação da Odebrecht em terras angolanas, o Programa de Qualificação Profissional Continuada – Acreditar Angola, que começou a ser desenvolvido no país em 2009, com base na experiência bem-sucedida do Acreditar Brasil.

Lê-se “mais recente iniciativa” pelo fato de, em seus 27 anos de atuação no país, a Odebrecht ter concretizado diversas atividades de formação, com estratégias diferenciadas e assertivas. Nesta reportagem, será possível conhecer algumas dessas ações – entre elas, o Acreditar, o Jovem Construtor e o início da operação da Biocom – e saber como as pessoas que participam delas estão se desenvolvendo, convivendo e aprendendo a fazer parte da nova era de Angola. É um recorte modesto dentro de uma atuação iniciada em 1984 e que já promoveu oportunidades de formação e trabalho para mais de 40 mil pessoas, 70% das quais encontraram na Odebrecht Angola seu primeiro emprego.

Adaptação à realidade local

“Com a boa experiência no Brasil, a partir de 2008, sabíamos que deveríamos implementar rapidamente o Programa Acreditar por aqui, apesar de, na época, não termos ainda as estratégias definidas”, relembra Diana Ortiz, Responsável por Pessoas & Organização em Angola. “Então, em 2009, começamos o processo de estruturação, de pensar como seria feito, e vimos que não daria simplesmente para pegar o Acreditar Brasil e adotá-lo, pois havia a necessidade de adaptá-lo à realidade local”, ela acrescenta, desenhando com os dedos no ar, como se traçasse uma linha cronológica do desafio que testemunhou inicialmente.

O primeiro passo dado foi produzir um diagnóstico da realidade angolana, por meio de entrevistas, testes e visitas aos projetos da Odebrecht no país. “Aproveitamos tudo isso para montar o Acreditar e, finalmente, conseguimos implantar o programa em setembro de 2010. Percorremos um caminho difícil, mas temos certeza de que valeu a pena. Queremos contribuir para o desenvolvimento da comunidade, de Angola. Muitos que estão aqui precisavam de uma oportunidade”, salienta Diana.

Yasser da Conceição Salukila, 28 anos, aluno do curso de operador de escavadeira, conta que ficou sabendo do Acreditar por meio de sua prima e de seu pai. “Eles disseram que havia um programa novo, com muitas possibilidades de formação. Fui até a Odebrecht, fui bem recebido, fiz os testes, as provas e o exame médico. Hoje estou aqui com a turma, aprendendo coisas boas e que eu não pensava que poderia encontrar”, relata um Yasser que se diz surpreso com o tipo de aprendizado que encontrou, referindo-se aos fundamentos básicos vistos na sala de aula, que eram desconhecidos até então. “Deparei-me com pessoas que me fazem entender as coisas”, comenta.

Enquanto Yasser relatava suas experiências à Odebrecht Informa, ao seu lado estava o jovem Mateus Dumbo Kalei, 20 anos, que balançava a cabeça de forma afirmativa, concordando com os comentários de seu colega. Matriculado no curso de mecânica, Mateus conta que cresceu somente com a mãe e que por causa da situação financeira restrita causada pela ausência paterna, começou a trabalhar cedo em uma pequena oficina para poder sustentar suas próprias necessidades.

Mateus inscreveu-se no Acreditar, realizou os testes, recebeu as avaliações e ficou surpreso com o que passou a acontecer dali em diante. Ele esperava apenas por ensinamentos relacionados à mecânica. “Primeiro recebemos noções de saúde e meio ambiente, o que me chamou a atenção. Achei isso tudo muito especial. Eu não conheço amor de pai, e, pelas dificuldades que já passei, essa oportunidade que eu encontrei no Acreditar é inesquecível. É algo, creio eu, permanente”.

Dançarino de hip-hop e ator de teatro nas horas que ainda encontra vagas, Mateus vê o Acreditar como uma oportunidade para a juventude. “Isso vai nos ajudar a descobrir mais conhecimentos. Se hoje eu encontrei essa oportunidade, só tenho a agradecer, pois, além de me desenvolver, posso dar amanhã uma contribuição maior ao meu país. Temos que aproveitar as oportunidades que, infelizmente, nossos pais não tiveram.”

Essa ideia de oportunidade aos jovens também é compartilhada por Antonio Moisés Segunda, 21 anos. Apaixonado por mecânica e futebol, Antonio conta que procurou bastante por um curso para que pudesse se especializar em mecânica e que, depois de ter feito sua inscrição no Acreditar, a ansiedade tomou conta de sua vida até ser chamado.

“Quando penso em mecânica, não tenho fome. Esqueço tudo. E quando recebi a ligação do pessoal do Acreditar chamando para a avaliação médica, pensei comigo ‘Meu Deus, como esperei este momento!’”. Antonio acrescenta: “Eu desejaria que o Programa Acreditar não parasse por aqui. É o momento de começarmos a consertar nossos erros, de realizar os nossos sonhos. Estou realizando o meu sonho, que é o de conseguir me formar, de poder trabalhar”.

O Acreditar é composto de um módulo básico, com 60 horas de duração, voltado para todos que ingressam no programa, no qual são abordados diversos assuntos, como saúde, segurança no trabalho, meio ambiente, qualidade e psicologia do trabalho, e um módulo específico, que varia de 160 a 260 horas, dependendo do curso almejado. Para os participantes que são contratados pela Odebrecht, é elaborado um segundo módulo básico, que inclui 20 horas com informações sobre a Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO), Relações Trabalhistas e Produtividade.

Os inscritos no Acreditar Angola, ministrado na cidade de Benguela desde setembro de 2010, já somam mais de 2.200. O programa formou até agora 456 pessoas no módulo básico e 228 no módulo específico, para as profissões de motorista de veículo pesado, operador de escavadeira, mecânico de equipamento pesado, operador de motoniveladora. Em breve, serão adicionados os cursos de Armador, Canalizador, Pedreiro, Carpinteiro e Operador de Carregadeira, entre outros.

Mente aberta, visão ampla

Com um belo sorriso e com prosa no ritmo da música Morena de Angola, de Chico Buarque – foi, inclusive, em Benguela, local deste trecho da reportagem, que o compositor brasileiro se inspirou para criar a letra da música -, Selma Ottiliana Marcos da Silva, 31 anos, é formada em Serviço Social e atualmente lidera a equipe de Pessoas e Responsabilidade Social no Projeto Águas de Benguela. Ela foi uma das participantes do Programa Jovem Construtor – que tem como objetivo acelerar a formação de jovens parceiros e lhes proporcionar uma ampla visão do negócio Engenharia e Construção, desde a conquista até a desmobilização de um contrato.

Nascida angolana, Selma conta que passou mais da metade de sua vida em Portugal, com a família, que em 1993 decidiu fugir do conflito armado em seu país. Ao passar férias em Angola, em 2007, Selma ficou interessada no que viu. Enviou seu currículo à Odebrecht, em 2008, e foi convidada a ingressar na empresa. “O Jovem Construtor nos faz abrir a mente, pois obtemos uma visão muito ampla das áreas. Todas as dúvidas que eu tinha foram esclarecidas. Foi abordada a questão da Logística, passando pela Engenharia e pela Responsabilidade Social, entre outras. Uma grande experiência para o meu desenvolvimento.” No trabalho em campo, Selma destaca que cada dia reserva uma surpresa e que cada caso é sempre encarado como um aprendizado. “Ser assistente social é ajudar o próximo. Aqui não há espaço para a dita síndrome do conformismo”, diz, sorrindo.

Em Luanda, outro Jovem Construtor relata suas experiências desde que ingressou na Odebrecht. Ibrahim Oliveira Bravo da Costa, 26 anos, devorador de livros de Sidney Sheldon, é formado em Engenharia Civil e atua como engenheiro de produção no Projeto Vias Expressas. Ele ingressou em 2007 como estagiário – na época em que estava no penúltimo ano da universidade – e foi direcionado mais tarde ao Jovem Construtor.

“Foi muito boa a atitude de meu líder, pois todo mundo, acredito eu, tem a vontade de crescer a cada dia que passa. E se nos oferecem a oportunidade de fazer um curso no qual possamos ter maior foco sobre o que na verdade vai ser a nossa vida dentro da empresa, temos que aproveitá-la da melhor forma”, diz Ibrahim. Ele avalia que sua evolução tem sido intensa não apenas em sua vida profissional, mas também em sua relação com familiares, amigos e namorada. “Em todo curso, formação ou atividade de que participo na empresa, busco levar alguns dos conceitos para o meu convívio pessoal. Este período todo tem sido muito bom. Consegui crescer e amadurecer muito. Tenho um ponto de vista diferente. Mudei em termos de adaptabilidade, de convivência.”

Integração de culturas

A 450 km de Luanda, na Província de Malanje, está sediada a Biocom – Companhia de Bioenergia de Angola Ltda. –, empresa angolana produtora de açúcar cuja implantação foi iniciada em 2009. A usina, em fase de construção, deverá iniciar sua operação e consequente produção de açúcar em 2012. A Biocom tem entre seus acionistas a Odebrecht, a Sonangol – Sociedade Nacional de Petróleos de Angola – e o grupo Damer. Em agosto de 2010, 62 integrantes da Biocom foram ao Brasil para participar de um programa de capacitação de 1.200 horas de aulas teóricas e práticas nas áreas agrícola, industrial e administrativa, ministrado na Unidade Eldorado da ETH Bioenergia, em Rio Brilhante (MS).

Entre esses técnicos angolanos, estava Helder Fragoso da Silva Cardoso, chefe de Setor de Produção de Açúcar, que atualmente acompanha e supervisiona os trabalhos de Montagem da usina. “É um grande desafio essa usina, visto que Angola já foi um país produtor de açúcar. No entanto, por causa dos conflitos armados, essas grandes usinas deixaram de existir e, hoje, 100% do açúcar consumido no país é importado.” Com determinação, Helder destaca que a maior riqueza está sendo o compartilhamento de experiências, baseado na transmissão de conhecimentos e intercâmbio de culturas, e prevê que Angola retomará o papel de grande produtor de açúcar, o que contribuirá para a melhoria das condições de vida das comunidades.