Aprendizados que começaram em casa


texto João Marcondes
fotos Lívia Aquino

Guilherme, Sérgio, Ticiana e Pedro iniciaram cedo seu contato com os princípios da TEO

Um adolescente de 15 anos faz uma viagem de férias para fora do Brasil. Ele visita seu pai, que reside na Cidade do México. Da capital, viajam duas horas de avião até Los Moches. Depois pegam um carro e enfrentam três horas de estrada rumo a uma região de altitude e semiárida. Uma pequena vila aproxima-se. Tudo modesto: um supermercado, barzinhos e casinhas. Os dois atravessam os tapumes, e um novo mundo revela-se: tudo é superlativo naquela obra. O maquinário, o número de trabalhadores, as escavações.

Guilherme Paschoal não sabia que ali já estava dando os primeiros passos de imersão na cultura Odebrecht e na própria Organização, a qual estimula a integração das famílias com o ambiente de trabalho. O pai, o engenheiro Carlos Armando Guedes Paschoal, integrante da Organização desde 1988, levara-o para conhecer a obra da Barragem de Los Huites, no Rio Fuerte, Estado de Sinaloa, até hoje lembrada pelos recordes em lançamento de concreto. Em Los Huites, chegaram a ser lançados 248 mil m3 de concreto em um único mês.

“Meu pai já praticava a TEO (Tecnologia Empresarial Odebrecht) em casa. Passava valores como confiança, delegação com responsabilidade e respeito. Mas, sobretudo, ele transmitia a ideia de que é preciso ter mérito para conquistar alguma coisa”, recorda-se Guilherme, que, hoje com 36 anos, é Diretor Operacional da Foz do Brasil no Projeto Aquapolo, em São Paulo.

Parceria entre a Foz do Brasil e a Sabesp, o Aquapolo destaca-se pela inovação. Utiliza água tratada dos esgotos do ABC paulista para reúso industrial. De modo a liderar um projeto como esse, Guilherme passou por várias etapas dentro da empresa e teve vários líderes, a começar pelo pai, em casa.

Seu primeiro líder na empresa marcou-o pela experiência de vida e pelas realizações. Guilherme, que ingressara na Organização em 1998, conheceu-o quando tinha 23 anos e morava no interior da Bahia, próximo a Eunápolis, onde participava da construção da Hidrelétrica de Itapebi. Durante a implantação do canteiro principal, Guilherme morou em um posto de gasolina, que servia como restaurante e dormitório, junto com outros jovens profissionais. “Aprendi muito nesse tempo. Especialmente a esquecer o passado, viver o presente, aprendendo o máximo possível, e pensar no futuro”, ele conta.

O líder foi Clóvis Danúbio, um técnico especializado de longa trajetória na Organização. Gaúcho, de formação militar, transmitiu a Guilherme suas passagens na universidade da vida, como os seis meses que passou na selva colombiana.

“Ele foi um líder natural, apesar de eu ser o engenheiro e ele o técnico”, diz Guilherme. “Trabalhávamos com explosões subterrâneas, túneis, e ele tinha grande habilidade em logística e administração, sabia o que era uma obra e eu ainda não.”

Guilherme levou de Clóvis ensinamentos para toda a vida dentro da Organização. Os aprendizados e as experiências compartilhadas em Itapebi acompanharam-no na vida pessoal (na contínua formação de seus valores) e na vida profissional (que incluíram quatro anos no exterior durante seus 13 anos na Odebrecht). “A vida em movimento, com desafios constantes, foi algo que sempre desejei.”

Saber ouvir e admitir erros

Assim como Guilherme, Sérgio Trentini, 39 anos, também teve desde cedo, em casa, uma importante fator de incentivo para o encaminhamento da vida profissional. Ainda na infância, passou a entender a necessidade de respeitar o meio ambiente e o ser humano. Seu pai é biólogo, e a mãe, psicóloga.

Paulistano do bairro da Aclimação, Trentini vive desde 2002 em Salvador, como Diretor Operacional da Cetrel Lumina, empresa ligada à Foz do Brasil. Simpático, de estilo conciliador e muito bom ouvinte, Sérgio demonstra que a liderança, em seu caso, surge como algo muito natural.

Ele está à frente de um time de 130 pessoas, com enormes desafios ambientais, como tratamento de resíduos da Petrobras e fiscalização da qualidade do solo. “A liderança tem de ser uma ascendência natural, nunca imposta”, opina. “É preciso saber ouvir as pessoas e admitir erros.”

O espírito para o desafio e para o empresariamento são características de Trentini. Como estudante universitário ou já como geólogo, sua diversão era escalar montanhas ou explorar cavernas. “Tem que ter pedra no meio”, brinca. Formar uma relação simbiótica, orgânica com o meio ambiente, não foi difícil. “Preciso estar perto da natureza, sempre.”

Para dirigir a Cetrel Lumina, sua escola foi a própria Odebrecht. Na experiência de um ano em Mossoró, no Rio Grande do Norte (em um projeto de tratamento de resíduos para a Petrobras), Guilherme contou com a liderança e ensinamentos de Maurício Prado, um líder marcante em sua trajetória.

“É um cliente (Petrobras) muito rigoroso, em um contrato complexo e cheio de minúcias. Você tem de saber negociar, ser flexível, lidar com pessoas. E meu líder foi essencial nesse processo”, diz.

Da mesma forma que Guilherme, Sérgio Trentini participou do PDE (Programa de Desenvolvimento de Empresários), em que mergulhou na cultura da Odebrecht e tomou consciência do porte da Organização.

“Estabelecemos relações com gente que trabalha em todas as partes do mundo. Dos Estados Unidos a Angola, de Djibuti ao Peru. Sem contar o contato com os líderes históricos da Organização”, destaca.

A abertura para o novo

Você sente falta de ir ao cinema. Abre o jornal, procura uma sessão. Mas há algo errado. Não há nenhum filme em cartaz. Pior, não há cinema onde você mora. O que fazer? Para muitos, a solução poderia ser simplesmente ligar a televisão. No caso do soteropolitano Pedro Sá, essa solução não o atendia plenamente.

Pedro é Diretor de Controladoria da Foz do Brasil. Tem 19 anos de Organização, nove dos quais passados em Angola. Ele entrou na Odebrecht em 1992, também por influência caseira. O pai, chamado Pedro como ele, há muitos anos trabalhava na empresa. A família Sá, aliás, é tradicional nas frentes de atuação da Odebrecht. Pedro tem tio, primos e um irmão como colegas de Odebrecht.

Em 1997, aos 25 anos, o administrador Pedro foi lançado no maior desafio de sua vida: mudar-se para Angola e atuar no projeto de infraestrutura do bairro Luanda Sul, a primeira PPP (parceria público-privada) em Angola, liderada pela Odebrecht, que tinha como sócia a empresa Prado Valladares.

“Fiquei com certo receio diante dessa proposta de mudança”, admite. Sentindo-se apoiado, Pedro encheu-se de brio e partiu para a nova missão. “Tudo o que é novo é bom”, teoriza. Acolhido na família Odebrecht em Angola, sentiu-se bem, motivado e desenvolveu sua liderança.

Pedro Sá ficou três anos no projeto. Voltou ao Brasil e, em seguida, já casado, foi morar no Peru. Mais uma experiência de expatriação e absorção de uma nova cultura. Angola, entretanto, voltaria à sua vida. Em novembro de 2004, retornou ao país, dessa vez como diretor, para morar no bairro que ajudara a construir.

Seus dois filhos, Julia e Pedro, passaram os primeiros anos de vida em Luanda. “O país estava muito melhor, já desenvolvido, com várias opções. Para as crianças foi muito bom já no início da vida sentir a realidade da África.”

Ainda faltava o cinema, e Pedro viu a construção de um shopping (O Belas Shopping, o primeiro de Angola) com salas de exibição, fruto do seu trabalho e do de seus companheiros brasileiros e angolanos.

Servir em vez de ser servido

Tal pai tal filho? No caso de Ticiana Marianetti, 40 anos, é tal pai, tal filha. Desde criança, a menina interessava-se por números e pelo trabalho do pai, o engenheiro civil Piero Marianetti, integrante da Odebrecht “da época do Dr. Norberto”.

Ticiana não titubeou e partiu para a faculdade de Engenharia Civil, tal qual o pai. Neta de italianos da Lombardia e da Toscana, ela tinha sede de entrar na grande família Odebrecht. E não demorou muito. Em 1993, já era estagiária.

Em seus primeiros anos na Organização, ainda na sua Bahia natal, trabalhou em projetos sociais apoiando as obras de Irmã Dulce, da Fundação José Silveira e no Mosteiro de São Bento, sob a supervisão do fundador Norberto Odebrecht. “Ali aprendi o espírito de servir, de olhar para o outro”, salienta Ticiana.

Em 1998, ela partiu para fazer uma especialização (MBA) na Universidade Berkeley, na Califórnia, nos Estados Unidos. Especializou-se em Project Finance (projetos voltados para o equacionamento financeiro de empreendimentos como concessões e parcerias público-privadas). Queria trazer sua capacitação para a Odebrecht.

Depois de algumas experiências profissionais nos Estados Unidos e na Europa, Ticiana finalmente retornou à casa em 2006, pela Bento Pedroso Construções (BPC), em Portugal.

Em 2008, começou a participar dos trabalhos para a criação do que viria a ser a Foz do Brasil. Era a chance de trabalhar em uma área de grande visibilidade (meio ambiente) e de aplicar o objeto de seus estudos na Califórnia. Motivação de sobra.

Hoje, como Diretora Financeira da Foz do Brasil, Ticiana exerce papel de liderança na empresa. Ela enfatiza a importância dos aprendizados da época das obras sociais, pelas quais iniciou sua trajetória na Odebrecht. “Ter participado da reforma do Mosteiro foi inesquecível”, diz. “Aquilo me ensinou que tanto os cidadãos quanto as empresas têm um papel na sociedade. E que o líder tem que servir, e não ser servido.”