Energia contagiante
Aqui estão os exemplos de Roger e Rafael, jovens motivados a colocar em prática o entusiasmo, o conhecimento e a capacidade de liderança
É uma quinta-feira de manhã na sede da Braskem, na zona oeste de São Paulo. Uma animada equipe sai de uma das salas de reunião. Perto da máquina de café, um pequeno grupo discute o lançamento de um novo produto. A idade dos profissionais varia. Alguns exibem cabelos grisalhos, outros ainda têm espinhas no rosto. O entusiasmo é geral. E contagiante.
Entre eles, estão os engenheiros químicos Roger Marchioni e Rafael Christo, ambos na casa dos 30 anos. Os dois vêm protagonizando histórias de acelerado crescimento profissional. São líderes da nova geração na Braskem.
“A gestão na Braskem estrutura-se na confiança e na delegação planejada”, diz Marchioni, gaúcho de 36 anos, Gerente de Marketing Estratégico e Inteligência de Mercado da Unidade de Polímeros. Ele também responde pela gerência comercial regional e de contas na Unidade de Polipropileno. “A empresa tem perfil de dinamismo e foco no resultado que me agrada”, completa Rafael, paulistano de 31 anos, Responsável por Estratégia, Marketing e Gestão de Desempenho na Unidade de Polímeros da Braskem.
Formar líderes é um imperativo estratégico da Braskem, criada em 2002 a partir da integração de seis empresas do setor petroquímico. A formação e gestão de pessoas é um processo contínuo, da admissão ao pós-carreira. Como diz Rafael: “Uma semana depois de entrar aqui como estagiário, em 2001, Patrícia Maia, da equipe de P&O (Pessoas e Organização) na época, chamou-me para saber o que eu estava achando da empresa e do programa. Descobri, naquele momento, que essa era a empresa na qual eu queria trabalhar”.
Formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Roger ingressou como estagiário, em 1996, na OPP Petroquímica (uma das empresas que viriam a formar a Braskem). Passou um ano, entre 1997 e 1998, nos Estados Unidos, por conta própria. “Em San Diego, na Califórnia, fiz ‘pós-graduação’ em lavagem de pratos”, diz ele, com orgulho. Já Rafael, estudante da Escola Politécnica da USP, saía das aulas e ia para o estágio na Braskem a pé, cruzando a movimentada Marginal Pinheiros.
PDE e MBA
Roger Marchioni participou do Programa de Desenvolvimento de Empresários (PDE) da Braskem, especialmente desenhado para a gestão de negócios e liderança. Realizado na Bahia, o programa contou com a participação do fundador Norberto Odebrecht, de Emílio Odebrecht, Presidente do Conselho de Administração, e de Marcelo Odebrecht, Diretor-Presidente, além de Renato Baiardi, membro do Conselho de Administração, todos da Odebrecht S.A. “É inspirador vê-los, depois de tantos anos nos negócios, ainda com um brilho nos olhos”, diz Roger.
Rafael Christo, por sua vez, trilhou o caminho do MBA Braskem. Cauteloso, tinha receio que um mestrado realizado in company fosse restringir a formação de novos contatos profissionais – o networking. O temor mostrou-se infundado. Ministrado, entre outros, por professores da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e da Harvard Business School, o curso serviu de eficiente interface entre o saber acadêmico e a realidade de mercado. De quebra, tornou-se valiosa ferramenta de networking. “A empresa tem porte muito grande”, diz ele. Rafael conheceu uma rica variedade de profissionais de várias áreas da Braskem, muitos dos quais ainda hoje são bons amigos e estão espalhados pela Organização Odebrecht.
Ajuda para o autodesenvolvimento
O coach ou mentor – o líder mais velho e experiente que aconselha o jovem profissional – também teve papel de destaque na formação da dupla de jovens gestores. “Existe aqui a possibilidade de termos muitos líderes, que nos ajudam no autodesenvolvimento”, afirma Roger, que acredita que a relação líder-liderado é para sempre. “Até hoje os considero meus líderes”, diz ele sobre os mestres. A tônica da relação é a de transparência, ambos garantem. “Se eu errasse, pedia para que me corrigissem na hora”, relata Rafael.
Roger Marchioni tornou-se Gerente de Conta em meados de 2006 e passou a liderar uma equipe com seis profissionais em 2008. Contar com o ensinamento dos líderes foi fundamental. Rafael Christo, em início de carreira, trocou a rotina de escritório, no setor de planejamento, pelo trabalho em fábrica, na Unidade de PVC. Fez a mudança com apoio do seu então líder da unidade, Roberto Simões (hoje Responsável pela Odebrecht Defesa e Tecnologia). Ficou lá um ano. “Foi excelente. Na fábrica, aprendi, de fato, a ser engenheiro e a entender a empresa na sua essência”, diz ele.
A delegação planejada, que imbui os profissionais com o senso de responsabilidade e estimula a confiança, também tem inegável valor pedagógico no processo de formação, argumentam Roger e Rafael. “Quando você se sente à vontade para contribuir, todo o aprendizado se torna mais fácil”, diz Roger. “Brinco que, no dia em que eu tiver um líder que fique no meu cangote, eu vou ficar desesperado. Aqui, as coisas acontecem sem o líder precisar ficar cobrando”, completa Rafael.
Segundo Roger, a Braskem, apesar do grande porte, cultiva o espírito de pequena empresa. Em um ambiente ágil, de unidades autônomas, torna-se mais fácil e eficaz o planejamento da delegação e do fomento à responsabilidade individual. “Tanto líder quanto liderado conseguem desenvolver-se ao máximo nesse ambiente”, observa Roger.
Equipe coesa
Roger e Rafael lideram equipes que têm, respectivamente, 16 e 50 profissionais. “É motivador ser líder”, diz Roger. Na equipe de Rafael, a faixa etária vai dos 22 aos 45 anos. Na equipe de Roger, os sotaques são variados. “A diversidade impera”, ele salienta. ”Tem gaúcho, baiano, carioca, paulista… Tem até colorado”, brinca, em uma alusão ao Internacional, arquirrival do seu time de futebol de coração, o Grêmio.
Roger garante que uma das principais coisas que aprendeu com os líderes é manter a coesão da equipe. “O líder transmite os objetivos e um plano para alcançá-los, e, com isso, a equipe fica com um norte claro”, diz. Ele ressalta também a importância de desenvolver a confiança no liderado. Na arte de delegar, é fundamental saber avaliar corretamente em que “ponto da curva” cada um dos liderados está. “Para uns, você pode delegar responsabilidades com maior grau de complexidade; para outros, com grau menor. É preciso ter a sensibilidade para medir isso.”
Na Braskem, uma ferramenta importante para a formação profissional é o SDC (Sistema de Desenvolvimento de Competências). Seu papel é mapear as competências de cada integrante e também identificar oportunidades de desenvolvimento. “Os gaps (lacunas, em inglês) podem estar na pessoa. Ela tem de saber investir nela mesma”, enfatiza Roger.
Aprender a ser líder é aprender a vencer desafios. E isso só se aprende no dia a dia. Os cursos, os programas e o coaching podem dar as tintas, mas quem pinta o quadro é o jovem gestor, como mostra a dupla. Para a equipe de Marketing liderada por Roger Marchioni, o grande desafio é entender a fundo a necessidade do cliente e, assim, direcionar a estratégia da Unidade de Polímeros. “O poder emana de lá (do cliente)”, diz Roger. “Devemos ajudá-lo na tradução de sua necessidade real. Muitas vezes, o que ele pede não é exatamente o que precisa”, completa.
Já o grande desafio de Rafael Christo tem sido o de levar e implementar as práticas e a cultura Braskem às empresas que se fundiram. É uma balança: saber preservar as melhores práticas preexistentes, sem diluir, contudo, a cultura de meritocracia e transparência da Braskem. Recentemente, Rafael levou a cultura da matriz brasileira à filial norte-americana, Braskem America, nascida em 2010 com a compra dos ativos de polipropileno da Sunoco Chemicals. Rafael viajou à Filadélfia. Apreensivo, não sabia como seria o clima na chegada. Lá, a “cultura de escritório” era radicalmente diferente da qual estava acostumado. Ao contrário do ambiente horizontal e moderno do escritório brasileiro, reinava ali a baia alta. Não se via gente nos corredores. A recepção ao brasileiro, no entanto, foi ótima. A equipe norte-americana foi muito receptiva. Aliás, já no aeroporto o clima tinha se desanuviado. Ao pegar o táxi, o motorista, porto-riquenho, apresentou-se como Jesus. “Prazer, sou Christo”, respondeu Rafael, brincalhão.
Formando sucessores
Na Braskem, o lema é que “se deve formar sucessores melhores que nós mesmos.” Apesar de jovens, Rafael e Roger já estão empenhados na formação de novos líderes. Tanto Roger quanto Rafael consideram-se da “geração passada”, diante dos profissionais de 20 e poucos anos. Os dois gestores concordam que, mais importante que transmitir conhecimentos técnicos, a função do líder é fomentar o senso ético nos mais novos. Buscar neles tanto as competências pessoais quanto técnicas. Nessa tarefa – que está longe de ser uma ciência exata –, Roger foi buscar inspiração em casa. “Em termos de comportamento ético, minha maior inspiração foram meus pais”, diz ele. Os resultados são gratificantes. “Hoje, eu tenho pessoas na minha equipe que poderiam ser meus líderes”, garante Rafael. “Minha alegria é ver as pessoas da minha equipe crescendo; é me realizar com a realização dos liderados”, diz Roger.


