Gente do canteiro


texto Marco Antônio Antunes
fotos Edu Simões

Apaixonados pela profissão, os encarregados gerais Gilson, Donizete e Daniel são a cara e o espírito da linha de frente da engenharia e construção

A dona de casa Regina, esposa de Gilson Gomes de Aguiar, 34 anos, encarregado geral de Escavação de Rocha nas obras da Hidrelétrica Santo Antônio, em Rondônia, levou um susto ao receber certo telefonema, em um dia ensolarado de junho do ano passado, na casa da família, em Porto Velho.

“Bom dia!”, disse a voz do outro lado da linha. “É aí que mora Gilson Aguiar?”

“Quem é? Do que se trata? Meu marido está no trabalho”, respondeu ela.

“Aqui é da Faculdade de Rondônia, e estamos ligando para dizer que o Gilson foi aprovado no vestibular de Engenharia. É para ele vir fazer a matrícula com urgência.”

Aliviada e surpresa ao mesmo tempo, ela agradeceu e ligou para contar a novidade ao marido, que também tinha lá suas dúvidas sobre se seria aprovado ou não. “Foi uma alegria para toda a família”, relembra ele, que tem com Regina duas filhas, uma de 11 e outra de 9 anos. “Logo eu, que só pude concluir o Ensino Médio depois de ‘velho’, estava, enfim, pronto para começar um curso superior.”

Seis anos atrás, Gilson só tinha o Ensino Fundamental e não pensava mais em voltar aos bancos escolares, ainda que nunca tenha deixado de aproveitar as oportunidades de crescimento oferecidas pela Odebrecht, como cursos, seminários e palestras sobre os mais variados temas ligados à sua profissão, como técnicas de gestão, segurança e meio ambiente. Depois de passar por várias outras obras, entre elas a Hidrelétrica de Lajeado (Luis Eduardo Magalhães), onde era um dos encarregados mais jovens, ele estava no projeto da Hidrelétrica de Capim Branco, na divisa de Uberlândia e Araguari, em Minas Gerais, quando foi influenciado por um de seus líderes na obra, o engenheiro Marcelo Piller, a voltar a estudar. Naquele momento, ficou claro para ele que se não aceitasse a sugestão, não subiria novos degraus nos contratos. “Foi duro, trabalhar e estudar ao mesmo tempo, mas, graças a ele e a meu líder direto, Divino Teodoro da Silva, tomei a decisão certa. Terminei o Ensino Fundamental, novas oportunidades surgiram e já estou no segundo semestre do primeiro ano da faculdade, preparando-me para outros desafios.”

Um salto e tanto para esse filho de pai lavrador e mãe empregada doméstica, que começou a trabalhar aos 9 anos, vendendo picolés. Trabalhou também em um viveiro de mudas de café e como empacotador em um supermercado, onde conheceu a futura esposa, Regina, filha de um barrageiro que trabalhava na construção da Hidrelétrica de Miranda, no Rio Araguari, em execução por outra construtora.

“Graças a ele, consegui um emprego na obra, onde comecei como plantador de grama em talude. Mas, 10 meses depois, por conta de outra indicação, já estava na Odebrecht, com o cargo de operador de bomba de concreto, ajudando a construir a Hidrelétrica de Igarapava (instalada no Rio Grande, na divisa de São Paulo e Minas Gerais).”

O início da vida profissional em uma fazenda

Como Gilson, Donizete Pereira Dias, o Mato Grosso, 55 anos, dos quais 34 na Odebrecht, encarregado geral de Terraplenagem em Santo Antônio, nunca perdeu as oportunidades que lhe foram apresentadas nas várias obras pelas quais passou. Nascido em Cassilândia (MS), filho de um barbeiro e de uma doméstica, começou a trabalhar aos 14 anos como servente de pedreiro em uma fazenda cujos proprietários executavam obras internas de infraestrutura e moradias.

Em 1977, ao deixar o quartel, foi contratado como motorista de caminhão pela CBPO (empresa que viria a ser integrada à Odebrecht três anos depois), nas obras da Hidrelétrica de Foz do Areia, no Rio Iguaçu, no Paraná. Com uma vontade contagiante de se lançar a novos desafios, Mato Grosso fez todos os cursos que pôde para avançar na profissão e, passo a passo, tornou-se motorista de caminhão fora de estrada, trator de esteira, motoscraper e motoniveladora.

“Uma das coisas de que ainda mais gosto é pilotar uma patrol (como também é conhecida a motoniveladora)”, diz ele. Após quatro anos como operador, tornou-se feitor, em 1982, nas obras da Hidrelétrica Nova Avanhandava, no Rio Tietê, em São Paulo. “Grande parte do que consegui em minha carreira profissional devo a um antigo mestre, Valdevino Junqueira, com quem trabalhei por 12 anos. Além de me ensinar tudo o que sabia, ainda me passou, antes de se aposentar, o cargo de encarregado quando estávamos em uma obra da antiga Fepasa (Ferrovia Paulista S.A., uma estatal privatizada no começo de 2000), em Mairinque (SP), em 1993.

Mato Grosso, que também voltou à escola e já está prestes a concluir o Ensino Fundamental, considera-se um autodidata em muitas matérias de sua profissão, porque, além dos diversos cursos que já frequentou, costuma ler de tudo sobre máquinas e técnicas de terraplenagem. “Descobri que estudar é bom demais, não sei quando vou parar”, diz ele, que atualmente também participa do Programa de Desenvolvimento de Supervisores (PDS), desenvolvido pela Odebrecht Energia e que abre aos participantes novas chances de crescimento profissional.

Tendo passado por outras obras, como o Metrô de São Paulo; a Linha Vermelha, no Rio de Janeiro; e as hidrelétricas de Itá, em Santa Catarina, Cana Brava, em Goiás, Irapé e Capim Branco, em Minas Gerais, além do Projeto Águas de Benguela, em Angola, ele costuma ensinar aos seus liderados, inclusive aos engenheiros trainees, que “na Odebrecht não tem trabalho que não se possa fazer”. “Aqui, em momentos de dificuldade, todos se ajudam, todos se apoiam, e é o mesmo que você deve fazer quando o outro é quem está com um problema a resolver. A humildade e o espírito de servir, como bem ensina o Dr. Norberto Odebrecht, devem prevalecer sempre”, diz o mestre, que já formou seus dois filhos no Ensino Superior. Fernando graduou-se em Engenharia Ambiental e fez pós-graduação em Segurança do Trabalho, e Fabiane formou-se em Psicologia. Os dois trabalham na Odebrecht.

Mato Grosso também tem como referência de vida e de trabalho  o exemplo de outro líder, com quem já trabalhou em várias obras: Mário Lúcio Pinheiro, Diretor do Consórcio Construtor Santo Antônio, responsável pelo gerenciamento global da construção da Hidrelétrica Santo Antônio. “Esse conhece de tudo”, elogia.

Cobrador de ônibus antes de se tornar soldado

A Educação pelo Trabalho também marcou a carreira de Daniel Coelho Coutinho, 59 anos, que em 1973 começou a trabalhar na Tenenge, empresa integrada à Odebrecht em 1986. Hoje, como encarregado geral de montagem na Usina Santo Antônio, ele é o responsável, entre outras ocupações, pela descida e montagem das peças de cada uma das 44 turbinas Bulbo, de alta tecnologia, que comporão o sistema de geração de energia dessa hidrelétrica do Rio Madeira.

No último dia 14 de abril, Daniel comandava uma equipe de 12 pessoas na operação de descida do distribuidor da primeira turbina a ser instalada. “O distribuidor, de 186 toneladas, é a parte da turbina que controla o fluxo de água na unidade geradora. Quanto mais aberto, mais água flui e, consequentemente, mais energia é gerada”, explica. A operação, realizada com destreza pela seleta equipe do mestre, durou seis horas.

Para chegar a encarregado geral de uma das mais importantes obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal, esse paulista de Presidente Venceslau também teve de superar grandes desafios desde muito cedo na vida, como Gilson Aguiar e Mato Grosso. Seu pai trabalhava em serrarias de madeira, e ele, aos 13 anos, já carpia e colhia em lavouras de algodão, antes de ser cobrador de ônibus e entrar para o Exército.

“Ao sair do quartel, fui para uma obra da (construtora) Camargo Corrêa, onde meu pai era carpinteiro. Depois, aos 22 anos, entrei para a Tenenge como montador, tendo como meu primeiro mestre o encarregado geral José Balo, com quem aprendi muito do que sei hoje”, conta Daniel.

De lá para cá, a participação em uma série de obras emblemáticas na história da engenharia brasileira, o aprendizado com outros mestres e muitas horas de cursos internos e externos deram a ele uma experiência que, em sua área, apenas alguns poucos conseguiram adquirir. Daniel passou pela construção das hidrelétricas de Ilha Solteira (SP), Três Irmãos (SP), Cachoeira Dourada (MG), São Simão (GO), Itapebi (BA) e Baguari (MG), sem contar diversas obras de montagem em indústrias de alumínio, fertilizantes e aço. Em uma obra da Alunorte, em Barcarena (PA), o bastão de encarregado geral lhe foi passado pelo assistente técnico Levi Simão, então Responsável por Produção e seu líder e “instrutor” de 1978 a 1986.

O maior desafio de sua vida, no entanto, está sendo a participação na equipe de montagem da Hidrelétrica de Santo Antônio, comandada pelo Diretor de Contrato Miguel Senna Figueiredo. “Muitos dos que estão aqui, como eu, nunca participaram de um projeto de tamanha complexidade e envergadura”, diz Daniel, que antes da função atual foi montador, mecânico montador, ajustador, contramestre e mestre de montagem.

Embora considere que, profissionalmente, esteja no patamar mais elevado de sua carreira, Daniel Coutinho continua a se aperfeiçoar com o auxílio de professores e livros. Ele também é aluno do Programa de Desenvolvimento de Supervisores (PDS) e já sabe que não vai parar por aí. “Já ajudei meus três filhos a se formarem, já recebi a medalha de 25 anos de trabalho, durante cerimônia na Bahia, em que tive a satisfação de conhecer nosso mestre maior, o Dr. Norberto”, diz Daniel, “mas nem por isso penso em parar. Esta é uma empresa que continua me dando oportunidades. Por que não aproveitar mais algumas?”