Conhecimento que faz a diferença

  • Luiz Roberto: “É importante distinguir inovação de invenção”

    Luiz Roberto: “É importante distinguir inovação de invenção”


texto Renata Meyer
fotos Artur Ikishima

Quando surge algum grande desafio de engenharia em um dos contratos da Odebrecht espalhados pelo mundo, Luiz Roberto Batista Chagas sabe que é hora de arrumar as malas. Há 43 anos na Organização, o engenheiro civil formado pela Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (UFBA) apoia projetos de alta complexidade em diversas obras no Brasil e no exterior. A sólida experiência acumulada ao longo dos anos resultou na publicação de seu primeiro livro, Engenharia da Construção – obras de grande porte, em 2008. Dois anos mais tarde, Luiz Roberto recebeu do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo o prêmio de Personalidade da Tecnologia, na categoria Internacionalização da Engenharia Brasileira. Nesta entrevista, ele conta como ideias inovadoras podem fazer a diferença para o sucesso de uma obra e para a conquista de um novo negócio.

 

OI – Como você se prepara para apoiar projetos de grande complexidade?

Luiz Roberto – Para mim, a Engenharia é uma paixão. Sempre gostei de estudar e acho importante o profissional se manter atualizado. Mesmo fora do trabalho, quando tenho tempo livre, leio sobre diversos temas relacionados à área. Ao longo dos anos, esse hábito foi muito significativo, pois me deu base para atuar em diferentes campos da Engenharia. Hoje os desafios com os quais tenho de lidar são os mais variados. Antes de contribuir para as soluções de engenharia de uma determinada obra, procuro obter o máximo de informações sobre o projeto e sobre o desafio em foco. Em seguida, faço pesquisas e avalio a necessidade de envolver outros profissionais, da Organização ou de fora. As soluções encontradas e as tomadas de decisão decorrem sempre das discussões com as equipes envolvidas. Nunca é um trabalho individual.

 

OI – Que tipo de desafios você está acostumado a enfrentar?

Luiz Roberto – Cada obra tem suas particularidades, e os desafios podem envolver diversos campos da Engenharia. Normalmente, estão relacionados a projetos de escavações, fundações, estruturas e acabamentos das obras, diante de aspectos naturais, logísticos, econômicos e culturais específicos dos locais onde serão executadas. Pode-se citar como exemplo a construção da planta de etileno da Braskem, no México (Projeto Etileno XXI, no Estado de Veracruz). O terreno sobre o qual o empreendimento será erguido é composto de um tipo de solo expansivo, denominado lutita, e será preciso encontrar uma maneira de restringir suas deformações a níveis aceitáveis, a fim de evitar futuros problemas nas fundações da obra. Existem diversas tecnologias disponíveis para isso. O desafio é encontrar a melhor solução técnica e econômica para o caso.

 

“O desejável é que as equipes tenham a capacidade de se antecipar aos problemas, buscando, desde o início, otimizar processos e encontrar soluções práticas e adequadas para cada situação”

 

OI – Em sua visão, o que significa inovar?

Luiz Roberto – Inovar é renovar para fazer com menos recursos e, assim, obter ganhos de eficiência, seja em processos produtivos, administrativos e financeiros, seja na prestação de serviços. A inovação é o motor da competitividade e do crescimento de uma organização. É o resultado da busca constante pela excelência. É o compromisso que a pessoa assume de ficar sempre alerta às oportunidades de promover melhorias em seus processos de trabalho. Entretanto, é importante distinguir inovação de invenção. Eu considero inovação tudo aquilo que a empresa executa pela primeira vez, com a finalidade de obter maior eficiência e eficácia em seus projetos. Não importa se é uma ferramenta, um sistema ou um processo que já exista no mercado. É diferente de inventar algo totalmente novo.  Uma invenção, para se tornar aplicável, precisa passar por vários graus de maturação, em um processo lento que envolve uma série de pesquisas, testes, certificações e patentes.

 

OI – Como a Odebrecht aborda a temática da inovação?

Luiz Roberto – A inovação faz parte da essência da nossa cultura empresarial. Nas concepções filosóficas da Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO), há uma provocação muito forte para a busca constante da excelência e da conquista dos clientes, o que só se consegue por meio da inovação e da permanente insatisfação com os resultados obtidos. Por esse motivo, a empresa está sempre estimulando os integrantes a buscarem melhorias em seus processos de trabalho, não apenas na Engenharia, mas também nas funções administrativas, financeiras e apoios em geral. Uma importante iniciativa nesse sentido foi a criação do Prêmio Destaque, que representa um forte incentivo à promoção de ideias inovadoras nos diversos ambientes da Organização.

 

OI – Qual o papel da inovação na Engenharia?

Luiz Roberto – A inovação é a base para o progresso da Engenharia. Na execução de uma obra, o planejamento é o exercício que induz à busca da inovação. Por isso, deve ser dinâmico, a fim de permitir eventuais correções de rumo.  Às vezes, as equipes deparam com situações de difícil solução e precisam se superar na busca de alternativas viáveis para transpor os desafios. Daí a importância de as pessoas estarem sempre atentas às possibilidades de inovar. O desejável é que as equipes tenham a capacidade de se antecipar aos problemas, buscando, desde o início, encontrar soluções práticas e adequadas para cada situação.

 

OI – De que forma a inovação tem impacto na competitividade da Organização?

Luiz Roberto – Com a implementação de ideias inovadoras, é possível aumentar a eficiência e a eficácia de processos, reduzir custos operacionais, resolver desafios técnicos e, assim, obter ganhos de competitividade. Mas é importante ter em mente que a inovação só tem sentido quando ela traz algum resultado prático. Por mais que se deseje inovar, não dá para encarar cada obra como se fosse um laboratório. Temos compromissos a honrar com os nossos clientes e, em nenhuma hipótese, podemos abrir mão da segurança e da qualidade dos nossos serviços.

 

“A inovação só tem sentido quando ela traz algum resultado prático. Por mais que se deseje inovar, não dá para encarar cada obra como se fosse um laboratório”

 

OI – Como as ideias inovadoras são compartilhadas entre os diversos âmbitos da Organização?

Luiz Roberto – Apesar do caráter descentralizado da Organização, a transferência de conhecimentos entre os diferentes ambientes tem sido bastante estimulada. Com esse propósito, a empresa criou as Comunidades do Conhecimento, que reúnem integrantes com interesses comuns e dispostos a compartilhar seus aprendizados e inovações. Hoje existem comunidades que abrangem segmentos como Rodovias, Barragens e Usinas, Metrôs, Empreendimentos Imobiliários, Portos e Equipamentos, entre outros. Na liderança desses grupos, estão profissionais com vasta experiência nessas respectivas áreas. Com frequência, os participantes das Comunidades são convidados a compartilhar suas experiências com as equipes dos diversos contratos da Organização. Isso pode ser feito antes do início de cada obra, por meio de reuniões dos módulos de Engenharia do PA (Programa de Ação) ou até mesmo durante a construção. A iniciativa, liderança e decisão acerca dessas
reuniões serão sempre do diretor de contrato da obra interessada.

OI – Como o líder contribui para a formação de profissionais inovadores?

Luiz Roberto – O líder precisa estar sempre incentivando seus liderados a buscarem o melhor. Às vezes, a solução para um determinado desafio está ali, e as pessoas não percebem por estarem muito envolvidas com as suas rotinas. Se houver essa provocação, as inovações tendem a surgir naturalmente. Mas, para isso, o líder precisa estar engajado na filosofia da empresa, dedicando tempo, presença, experiência e exemplo e dando todo o suporte para que a pessoa se desenvolva.

 

OI – Qual é o grande desafio para se inovar hoje?

Luiz Roberto – O grande desafio está na formação do profissional, na sua capacidade de acompanhar o rápido avanço das tecnologias. A universidade de hoje precisa ensinar o aluno a se autodesenvolver. O engenheiro precisa antes de tudo ser um empresário capaz de responder positivamente aos desafios do mercado.  A grade curricular universitária é o instrumento de referência para essa formação. Na minha visão, a formação do engenheiro deve estar sustentada por três pilares: o conhecimento básico, que engloba as disciplinas fundamentais, como Matemática, Física e Química; o conhecimento profissional, que enfoca os aspectos mais específicos da formação acadêmica do engenheiro, como a execução de pontes, estradas, portos e estruturas; e o conhecimento empresarial, que envolve as disciplinas de Liderança, Gestão Empresarial e Administração Contratual, entre outras. Esses conhecimentos, caso estejam presentes em uma equipe interativa e motivada a superar seus resultados, são ingredientes fundamentais para a inovação na Engenharia.