Em busca de sabedoria e conhecimento
Nesta edição, Odebrecht Informa começa a apresentar o projeto Saberes – Gente que Aprendeu no Trabalho e na Vida, com relatos, histórias e memórias de integrantes da Organização Odebrecht.
Depoimento de Antonio Cardilli a Valber Carvalho – Edição de texto para Odebrecht Informa: Alice Galeffi
O primeiro integrante a dar o seu depoimento é Antonio Cardilli, que está na Organização desde 1979. Cardilli é o criador do Programa de Qualificação Profissional Continuada Acreditar, iniciado no Brasil na Usina Hidrelétrica Santo Antônio, em Rondônia, e levado para obras da Odebrecht em outros estados brasileiros e outros países.
No depoimento dado em vídeo ao repórter Valber Carvalho, ele conta, entre outras coisas, como foi o início do Programa Acreditar, sua relação com os povos indígenas e a emoção de ver um trabalhador devolver o cartão do Bolsa Família. Cardilli define-se como um homem que gosta de gente e trabalha para o bem delas, um “gentólogo”.
Veja a seguir trechos selecionados do depoimento de Cardilli, cuja edição completa em vídeo (16 minutos) pode ser vista no site de Odebrecht Informa (www.odebrechtonline.com.br).
Chegando à Amazônia
Comecei no Projeto Madeira em 2005 e logo passei a participar das reuniões com as comunidades que seriam atingidas pelas obras da Hidrelétrica Santo Antônio.
Atuei em 64 reuniões participativas, de Calama, quase no Amazonas, até Abunã, na divisa com a Bolívia. Conheci comunidades que nunca imaginei existir. Tinha uma chamada Ramal dos Arrependidos, composto de seis a sete famílias que viviam no meio da floresta.
Os verdadeiros brasileiros são esses que estão ali na Amazônia, fincados na terra e que dão a ela seu devido valor. Nós é que estávamos chegando, e para quê? Para tirá-los daquele local. Teríamos de remanejá-los, o progresso estava chegando. Como fazer isso? Começamos a fazer reuniões com eles para que pudessem participar das decisões. Antigamente, em um tempo não muito distante, dois ou três técnicos sobrevoavam a área de avião, olhavam uma comunidade e falavam: “Para aquela ali nós vamos dar uma escola, para aquela outra, vamos dar um hospital, e naquela vamos fazer uma estrada”, mas nem sempre era daquilo que eles precisavam. Nós, diferentemente, queríamos que eles construíssem de acordo com as necessidades deles, o que foi um sucesso, e, hoje, a gente não tem problema nenhum com os reassentados.
Aprendizado com os indígenas
E eu aprendi muito com os índios. O índio não tem horário; o horário dele é a hora que ele tem vontade. Tem um fato curioso. Uma vez marcamos uma reunião em uma comunidade indígena para as 9 horas da manhã. O primeiro indígena apareceu às 5 horas da tarde. O relógio deles é biológico, não é o relógio do tempo como o nosso, e a gente tem que entender isso para trabalhar em harmonia.
A qualificação que faltava
Se você remontar a história de Rondônia, percebe que essa região sempre viveu do extrativismo: no século 18 houve o ciclo da borracha, depois veio o ciclo da construção da Ferrovia Madeira-Mamoré, no fim do século 19 e início do século 20. O último foi o ciclo do garimpo, que é o mais predatório de todos e durou anos. E aquilo ficou martelando na minha cabeça: “O que é que nós podemos fazer para mudar essa situação?”
Foi quando fizemos uma pesquisa na região, na qual detectamos que, entre os 30 mil desempregados em Porto Velho, se fôssemos começar o empreendimento naquele dia, só poderíamos contar, no máximo, com 30% de pessoas locais, dada à falta de qualificação. O restante teria que vir de fora. Ou seja, teríamos que importar umas 8 mil pessoas ou mais e, com isso, agravar ainda mais os problemas sociais já existentes na região, como falta de saneamento, déficit em educação, saúde, segurança pública etc.
A inspiração para o Acreditar
Foi naquele momento que me deu um clique: ‘Nós temos que mudar essa história, nós não podemos fazer esse empreendimento da forma que a gente sempre fez’.
Só existia uma maneira de fazer isso, que é tentar qualificar essas pessoas locais. Fomos procurar uma entidade governamental ou privada que já tivesse feito algo parecido e nessa magnitude. Na época a gente pensava em qualificar 10 mil pessoas. Varremos o Brasil e não achamos. Só achávamos coisas retalhadas e que não iriam atender às nossas necessidades. Foi quando tomei a decisão de fazê-lo, e coloquei o nome “Acreditar”.
Tenho que acreditar que a sociedade vai aderir ao programa, que haja alunos para qualificar e para formar e tenho que acreditar que vamos conseguir qualificá-los com qualidade e que vamos poder aproveitá-los na obra.
O começo do Acreditar
No dia 14 de janeiro de 2008, cheguei aqui em Porto Velho com parte da equipe para começar a implantar o Acreditar.
Saímos pelos bairros divulgando o programa: íamos à igreja, associação de bairro, campo de futebol, boteco. Onde houvesse mais que quatro pessoas dentro de um bar a gente parava, abria a Kombi e explicava o programa. Foi um sucesso; em uma semana eu tinha 5 mil inscritos.
Começamos a qualificar as pessoas seis meses antes do empreendimento começar. Nós os formávamos e eles iam para o mercado. Um dia alguém falou: “Você está parecendo padeiro”. Eu falei: ‘Padeiro?’ “Está amassando o pão para alguém comer.” Eu respondi que isso não me preocupava, que eu estava tendo a oportunidade de conhecer o operário e dele conhecer a minha empresa, a minha organização, e eu quero que lá na frente, quando ele tiver inúmeras propostas de trabalho, que nós sejamos a opção e a escolha dele. O resultado está aí: temos 85% de trabalhadores locais. E essa é a grande diferença.
Trabalhador devolve cartão do Bolsa Família
Dado o sucesso do Acreditar, recebemos a visita do então Presidente Lula, no ano passado, o que foi algo emocionante, não só para mim, mas para toda a equipe que estava ali.
Um trabalhador nosso devolveu o cartão do Programa Bolsa Família para o presidente dizendo a ele: “Eu não preciso mais disso, muito obrigado pela ajuda, mas agora eu caminho com minhas próprias pernas, eu sou cidadão, eu tenho cidadania, eu sou digno como qualquer outro”. Foi emocionante. Se me perguntar se eu chorei, não tenho vergonha de dizer: chorei mesmo.
Você é gentólogo?
Eu digo o seguinte: você gostar de pessoas não significa você ser amigo das pessoas. Eu não sou amigo dessas pessoas, eu não tenho relação de proximidade com essas pessoas, mas eu trabalho para o bem dessas pessoas. Todas as minhas decisões estão pautadas sempre em ajudá-las.
Eu uso o termo “gentólogo”. Quando alguém vem trabalhar comigo, a primeira coisa que eu pergunto a um menino recém-formado ou um trainee é: você gosta de gente? “Eu gosto”, ele responde. Você é gentólogo? “O que é isso?” Gentólogo é quem gosta de gente. Você tem nojo do cheiro de peão? Se tiver, vá embora. Se tiver nojo do cheiro de suor de um ser humano, vá embora, pois você está no lugar errado.
Lições do avô
Quem mais me ensinou a gostar de gente foi o meu avô. Ele cuidava tão bem das criações dele, dos cavalos e burros que trabalhavam para ele que, quando esses animais chegavam a certa idade, quando não tinham mais forças para trabalhar na lavoura, meu avô não os vendia como a maioria dos vizinhos dele, que vendiam para frigoríficos.
Ele não; meu avô aposentava os animais no pasto e deixava-os lá até morrer de velho. E dizia o seguinte: “Meu filho, esse animal trabalhou para mim, me ajudou, agora eu que vou cuidar dele”. Ele levava milho para os animais todo dia, e eu ia com ele. Aquilo marcou a minha infância e acho que marcou a minha personalidade também, de vir a gostar de pessoas, porque uma pessoa que trata o animal dessa forma, eu não preciso nem dizer como tratava as pessoas.




