Fonte de inovação


texto Luiz Carlos Ramos
fotos Márcio Lima

Construção da Arena Fonte Nova, em Salvador, um dos palcos da Copa do Mundo de 2014, vem introduzindo soluções de engenharia pioneiras.

O futebol, uma das grandes paixões do Brasil, ficará mais alegre, seguro e confortável para o público da Bahia. A conclusão das obras da Arena Fonte Nova, dentro de um ano e meio, garantirá a Salvador condições para receber jogos da Copa das Confederações em 2013, ser sede de um grupo da Copa do Mundo de 2014, e muito mais. A Arena, fundamental para o futuro do esporte baiano, será mais que um estádio de futebol: com capacidade para 50 mil pessoas, poderá ser também palco de grandes espetáculos do Brasil e do exterior.

A futura Arena Fonte Nova não será resultado de simples reforma do antigo Estádio Octávio Mangabeira, inaugurado há 60 anos e fechado em 2007, mas sim uma completa e moderna construção, baseada em tecnologias inovadoras. Um ano depois de a velha estrutura de arquibancadas de concreto ter sido demolida por meio de implosão até então inédita em estádios brasileiros, a área situada próxima ao Dique do Tororó é transformada a cada dia por trabalhadores e máquinas.

O Consórcio Arena Salvador 2014, formado pela Odebrecht e a OAS, realiza as obras. As empresas administrarão a Arena Fonte Nova após a inauguração, prevista para o início de 2013. Dênio Cidreira, que preside a Fonte Nova Negócios e Participações, empresa criada para idealizar o melhor uso da arena, explica: “A grande novidade é que não faremos apenas um estádio, mas uma arena multiuso, que será importante para o futebol e para a cultura baiana, pois também receberá grandes shows, congressos e eventos de todos os portes. Será, com certeza, um novo destino de negócios e entretenimento, disponível todos os dias do ano para a população”.

Alexandre Chiavegatto, da Odebrecht Infraestrutura, Diretor de Contrato do consórcio construtor, destaca que a implosão do antigo estádio da Fonte Nova, em 29 de agosto, foi um ótimo início. “Aquela operação tornou-se importante contribuição para a tecnologia do setor de construção do país, pois, pela primeira vez, isso foi feito em um estádio – e um estádio do porte da Fonte Nova, em zona densamente povoada em uma grande capital”, diz Chiavegatto. Até então, no Brasil, as implosões eram feitas em prédios residenciais e edificações urbanas similares, como estabelecimentos comerciais e profissionais.

O desafio da luta contra o tempo vai sendo honrado, explica Benedicto Barbosa da Silva Júnior, Líder Empresarial da Odebrecht Infraestrutura – empresa que, ao lado da Odebrecht Participações e Investimentos (OPI), é responsável pela atuação da Organização no empreendimento: “As obras seguem conforme o cronograma. A Arena Fonte Nova deixará importante legado para os baianos, pois se insere como verdadeiro marco de criação de novos negócios e de remodelação urbana. Será um indutor de uma revalorização da região central da cidade”.

Felipe Jens, Líder de Investimentos da OPI, ressalta a parceria entre o Governo da Bahia e o setor privado para a realização da obra: “Na Arena Fonte Nova, os investimentos são realizados com base em contrato de parceria público-privada (PPP) e concessões”. A Odebrecht participa não apenas da construção de arenas, mas também de sua futura operação.

A Odebrecht, que trabalha nas obras de mais três estádios para a Copa do Mundo – a construção da Arena Pernambuco, na região metropolitana de Recife, a reforma do Maracanã, no Rio, e a terraplenagem e preparação do terreno para a execução da futura arena do Corinthians, em São Paulo –, traz na bagagem a reforma anterior do próprio Maracanã e a conclusão do Estádio Engenhão, ambos para os Jogos Pan-Americanos de 2007. Nos Estados Unidos, construiu a American Airlines Arena e o estádio de futebol americano da Florida International University.

Odebrecht Informa visitou as obras da Arena Fonte Nova em junho.

 

O show da implosão

“Por segurança, os moradores da região foram retirados. Na implosão, o material caiu todo dentro da área do estádio, sem danos às pessoas e ao seu patrimônio”, relembra Alexandre Chiavegatto. Setenta e sete mil t de concreto foram recicladas, tornando-se pedra britada para a futura arena e para outras obras, com a vantagem de evitar os transtornos de inúmeras viagens de caminhão: houve proteção ao meio ambiente, sem a massa de gás carbônico que seria expelida por veículos.

A implosão ocorreu em um domingo e foi mostrada pela televisão para todo o país. Foi a primeira ação concreta para os estádios da Copa de 2014. A engenheira baiana Diana Paes, 26 anos, há quatro na Odebrecht, ajudou a coordenar a implosão e retrata o sentimento geral: “Todos nós nos emocionamos no momento em que as arquibancadas caíram”. Diana participou do trabalho prévio de conscientização dos moradores do entorno quanto à segurança. Ela fez palestras, explicando detalhes do projeto, também divulgados por meio de um folheto que trazia na capa uma fotomontagem da maquete da Arena e da cidade em volta, com o apelo: “A construção deste sonho precisa da sua colaboração.” Um sistema de comunicação, com reportagens em TVs, rádios e jornais, contribuiu para eliminar dúvidas da comunidade local.

A demolição do anel inferior das arquibancadas da Fonte Nova, do ginásio de esportes Antônio Balbino e do conjunto de piscinas já havia sido feita pelo sistema mecanizado, no primeiro semestre de 2010. Faltava demolir a grande estrutura do estádio. Optou-se pela implosão, que se mostrava mais segura e econômica, segundo Chiavegatto. Uma empresa especializada em implosões, a Arcoenge, foi contratada para cuidar dos detalhes técnicos, colocar os explosivos na estrutura do estádio e detonar o processo após a evacuação da área.

“Não ocorreu nenhum incidente”, diz Alexandre Chiavegatto. Houve soluções inovadoras: a proteção dos pilares, a realização de teste de fogo e a britagem do concreto demolido.

 

A participação dos jovens

“Tudo terminou bem, e muitas pessoas choraram de emoção”, recorda Diana Paes, que entrou na Odebrecht como estagiária em 2007 e, agora efetivada, é referência entre os 786 trabalhadores que tocam a obra – 535 na produção e 251 na administração. “Fui mesmo a moça da implosão”, admite Diana, sorrindo. “Agora estou na construção.”

Para os 22 estagiários que trabalham na Fonte Nova, Diana também é exemplo de dedicação e sucesso, como explica Thiago Gomes Cunha, administrador, há sete anos na Odebrecht e desde março deste ano na Fonte Nova, como coordenador do Programa de Formação de Estagiários: “Os jovens devem sempre ambicionar evolução. Cada estagiário tem seu líder e passa por avaliações. O diálogo é fundamental”.

Um dos estagiários, Vinicius do Lago Maio, 26 anos, estudante do quarto ano de Administração na Universidade Jorge Amado, resume sua alegria: “Sempre foi um sonho vir para cá. No dia a dia, troco ideias com profissionais experientes”.

 

Desafio de tecnologia

A transformação da Fonte Nova já teve outras etapas, como o uso de andaime sobre carreta com prancha para as obras de reforço da estrutura do edifício que serve de canteiro administrativo e que será mantido. O coordenador Mário Sérgio Cardoso Marques conta que essa etapa foi vencida em quatro meses, de outubro do ano passado a janeiro deste ano, com criatividade: “A carreta se movimentava aos poucos, evitando a armação de novos andaimes. Economizamos tempo e dinheiro”.

No terreno, foi completada a terraplenagem, e as estacas já foram colocadas. O campo de futebol começa a ganhar forma. Logo subirão as arquibancadas, no estilo das modernas arenas erguidas nos últimos anos na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Depois, a cobertura, que protegerá todo o público.

De acordo com o projeto, a arena terá a forma de ferradura, cuja abertura preservará a vista para o Dique do Tororó. Para o cronograma ser cumprido rigidamente, garantindo a entrada de Salvador na lista das cidades que receberão jogos da Copa das Confederações em 2013, o Consórcio Arena Salvador elaborou seu plano de ataque da obra com duas frentes de trabalho, ambas partindo das pontas da ferradura.

Alexandre Chiavegatto explica: “Vamos usar seis gruas fixas a partir do lado externo e dois guindastes móveis no interior da arena para cobrir toda a extensão da área a ser construída. Essa solução possibilita economia de tempo, sem risco de acidentes ou de perdas financeiras”. O gramado terá perfeita drenagem, o que evitará o adiamento de jogos em dias de chuva. Rampas e corredores de acesso do público serão amplos e seguros.

 

Rivalidade e união

A futura Arena comportará também edifício-garagem, lojas, restaurante e um espaço cultural que, além de contar a história da música e de outras manifestações culturais da Boa Terra, destacará o futebol baiano e o clássico Bahia x Vitória (Ba-Vi), dois clubes com muita tradição. O Bahia, primeiro campeão nacional, conquistou a Taça Brasil de 1959 e ganhou o título brasileiro de 1988. O recorde oficial de público na Fonte Nova foi Bahia 2 x Fluminense do Rio 1, semifinal do Brasileiro de 1988, com 110.438 pagantes. O Vitória foi vice-campeão brasileiro de 1993 e vice da Copa do Brasil de 2010.

Nas obras da Arena Fonte Nova, o ambiente descontraído entre os trabalhadores não impede que se aflore a rivalidade entre as duas torcidas baianas. Entre os mais fanáticos adeptos do Bahia no canteiro está Paulo Henrique Souza dos Santos, 22 anos, técnico de segurança no trabalho, que desabotoa seu uniforme e mostra estar vestindo também a camisa do seu clube: “Estamos de novo na série A do Brasileiro”, diz, com orgulho. Ao seu lado, Fidelfino Machado dos Santos, 42 anos, carpinteiro, exibe a camisa do Vitória. “Nosso time está na série B, mas logo vai subir outra vez e jogar na nova Fonte Nova”, prevê.

Restaram pedaços de concreto da antiga Fonte Nova: nem todo o material resultante da implosão foi reciclado. Inúmeros pedaços, conservando o revestimento azul das arquibancadas, foram recolhidos por operários e guardados como relíquias. Dois mil outros pedaços foram colocados em caixas transparentes de acrílico e doados às Obras Sociais Irmã Dulce (OSID). Vendidos a R$ 35,00 cada, os R$ 70 mil arrecadados serão utilizados pela OSID em apoio à missão iniciada pela religiosa recentemente beatificada pelo Vaticano, esperança para pessoas carentes de Salvador.