Maratona de Nova Orleans
A cidade norte-americana trabalha para afastar o risco de catástrofes como a ocasionada pela passagem do furacão Katrina.
Costumo comparar a situação vivida após o Katrina aos diferentes tipos de competição de corrida. Logo depois da tragédia, como em uma prova de 100 m rasos, tivemos – governos local, estadual e federal – que dar uma resposta rápida, de emergência, para socorrer as vítimas do furacão. Com as questões emergenciais resolvidas, partimos para a reconstrução do sistema de proteção que tínhamos antes do tornado: uma corrida de 10 km. Hoje, estamos correndo uma maratona, que significa concluir o sistema, que estava inacabado, e torná-lo mais eficiente, para reduzir o risco de catástrofes como a que ocorreu em 2005. Ainda não chegamos ao fim do percurso, mas estamos perto.”
Com essa analogia, Jeff Bedey, Coronel aposentado do U.S. Army Corps of Engineers (Corps) que liderou a criação de uma organização responsável pela reconstrução do sistema de diques (levees), sua elevação e reparos nas estações de bombeamento, resume os estágios pelos quais o Estado da Lousiana e, principalmente, a cidade de Nova Orleans passaram desde que o furacão com nome de mulher devastou tudo. “O Katrina me trouxe para cá. Eu não conhecia Nova Orleans”, reflete o ex-militar, do Estado de Montana, com certa pausa na fala.
A Odebrecht, que já participou da prova de 10 km, corre a maratona à frente de dois dos 53 contratos que integram o sistema de proteção contra furacões e cheias do Rio Mississippi, o mais importante dos Estados Unidos (que, somado ao seu principal afluente, o Missouri, maior rio norte-americano, tem 6.270 km), e do Lago Pontchartrain, o segundo maior de água salgada do país. A Odebrecht é contratada pelo Corps, que tem como cliente o Levee
District.
O sistema de proteção
Nova Orleans, localizada à margem sul do lago, e as paróquias (municípios) vizinhas, que formam a Grande Nova Orleans, estão sendo totalmente cercadas por muros e diques. “O sistema de proteção é inovador, pois conta com diferentes estruturas: muros de arrimo sobre estacas metálicas (perfis em “T” e “L”), reforço frontal das estações de bombeamento e diversos tipos de portões que operam para o trânsito de veículos, trens e embarcações, garantindo os fluxos rodoviário, ferroviário e hidroviário. O objetivo é proteger a cidade e seus habitantes, mantendo aberto o seu acesso, vital para economia local”, explica Gustavo Silveira, Gerente de Projeto de um dos contratos da Odebrecht, o chamado LPV-9.2.
O desafio inicial do Corps foi conceber um sistema integrado de estruturas que promovesse a proteção da cidade e que pudesse ser construído no prazo estabelecido, dentro do orçamento aprovado pelo Congresso norte-americano – US$ 14 bilhões. O estudo utilizou informações de eventos já ocorridos na região e, por meio de simulações, definiram-se os parâmetros necessários: um sistema que protegerá a Grande Nova Orleans contra furacões e cheias com uma possível ocorrência a cada 100 anos. O Katrina teve a intensidade de um evento que acontece a cada 496 anos.
No caso das estações de bombeamento, o Corps também desenvolveu e construiu uma estrutura inédita, os Centros Elevados de Operação (Safe Houses), localizados ao lado de cada estação e que, remotamente, operam e monitoram as bombas em casos extremos de ventos e chuvas. Essas estruturas foram concebidas para suportar ventos de até 400 km/h e abrigar os operadores em local seguro (10 m acima do nível do solo), garantindo a contínua operação durante alguma emergência.
O Corps construiu ainda um Centro de Comando integrado que gere o sistema como um todo e que abriga 58 pessoas, com autonomia de gás natural e energia elétrica por duas semanas, caso um furacão de Categoria 5, uma situação extrema, atinja a região. O prédio é todo reforçado para aguentar ventos fortes e conta com cozinha, lavanderia, seis televisões conectadas a câmeras de monitoramento, canais de notícias e previsão do tempo, e uma pequena fábrica para a produção de sacos de areia, que ajudam na contenção da água em casos emergenciais de pequenas falhas do sistema. O Centro de Comando também monitora o fluxo diário das embarcações que trafegam no Mississippi.
De lá, Giuseppe Miserandino, Diretor do West Jefferson Levee District, acompanha em tempo real cada embarcação que navega pelo rio, em um projetor em frente à sua mesa de trabalho, com visualização dos pontos críticos, como proximidade das margens, em locais onde os diques são rentes, podendo haver choque. Quando a equipe de reportagem de Odebrecht Informa esteve lá, Giuseppe estava há quatro semanas dormindo no Centro de Comando, no quarto no interior de seu escritório, por causa do aumento recorde do nível do rio, uma de suas maiores cheias nos últimos 100 anos. Nesse período, sua família ia frequentemente visitá-lo. “O assunto é delicado e de extrema importância. Eles sabem que, no caso da chegada de um furacão, têm que deixar a cidade imediatamente.”
Giuseppe, “nascido e criado em Nova Orleans”, afirma: “O Katrina trouxe-nos a possibilidade de melhorar o sistema de proteção que tínhamos e que estava incompleto. Depois dele, evoluímos para ter um centro elevado de operação em cada estação de bombeamento, garantindo a manutenção do serviço, fundamental durante uma inundação”. Jeff Bedey defende que nenhum desastre natural, com impactos na comunidade, é positivo. Reconhece, no entanto, que “no meio da tragédia, o aprendizado que fica é muito importante. Avançamos e tentamos tomar decisões e executar o que for necessário para reduzir as chances de algo semelhante acontecer novamente”.
Obras com as estações ativadas
O contrato LPV-9.2 que a Odebrecht executa às margens do lago Pontchartrain prevê a construção de muros que servirão para reforçar e proteger quatro estações de bombeamento de água, atingidas pelo Katrina. Os muros, que são projetados com elevação final de 5,80 m acima do nível do lago, dão continuidade aos diques adjacentes às estações. Quando o furacão passou pela cidade, o sistema, desprotegido, conseguiu bombear apenas 45% de sua capacidade.
O principal desafio do contrato é o requerimento de que as estações não podem ser desativadas durante a execução das obras. A qualquer momento, se necessário, a área onde os operários executam os trabalhos pode ser inundada, para que as bombas iniciem o movimento da água dos canais para o lago.
As estações de bombeamento exercem um papel fundamental para a cidade, que tem grande parte de seu território localizada abaixo do nível da água. Por fazerem parte da rede de canais de drenagem de Nova Orleans, essas estações são frequentemente utilizadas, às vezes sem a ocorrência de chuvas. Cada vez que isso acontece, os trabalhadores da Odebrecht são avisados com 15 minutos de antecedência. Esse é o tempo que eles têm para retirar todos os equipamentos e evacuar o terreno. “Nos últimos quatro meses, fomos inundados 14 vezes”, comenta Gustavo Silveira.
Frente aos desafios e respeitando determinações técnicas e contratuais, a Odebrecht desenvolveu um sistema inédito de cortina temporária de contenção (cofferdam ou ensecadeira), que conta com válvulas e minivertedouros. A estrutura permite secar a área de trabalho, criando um obstáculo para a estação de bombeamento que não ultrapassa a elevação de 0,25 m acima do nível do lago. As válvulas são automatizadas e controladas remotamente pelos operadores da estação, quando é necessário inundar o sistema.
“Comum na construção de barragens, a ideia torna-se inédita quando utilizada dessa forma. Em uma barragem, utilizamos a ensecadeira para secar a área de operação. Entretanto, raramente há a necessidade de inundação desse terreno durante a execução dos trabalhos, diferentemente daqui”, explica Gustavo. “A solução trouxe uma economia significativa para o projeto”, diz Rudy Armenta, Diretor dos Contratos da Odebrecht na Louisiana.
O contrato LPV-9.2, no valor de US$ 175 milhões, é realizado muito próximo a residências. Para preservar a vizinhança da poluição sonora, foram implantadas três soluções que, juntas, atenuam os ruídos da obra. A primeira delas foi a instalação de duas cortinas, com controle de levantamento e rebaixamento de mantas. A segunda, sem custo algum, foi o redirecionamento da rota dos caminhões de concreto. A terceira foi a adoção da Giken Pile Press. Em vez da utilização de martelos convencionais para a cravação de estacas-prancha no solo, a máquina pressiona as estacas no chão sem nenhum ruído e com melhor qualidade, pois corrige o alinhamento e o prumo.
O outro contrato, o LPV-3.2, no valor de US$ 85 milhões, consiste na execução de um muro de arrimo, também construído sobre estacas metálicas em área alagada, com 4.800 m de extensão, que substituirá a estrutura antiga, construída na década de 1980. A nova proteção é erguida na margem de um canal do Lago Pontchartrain e, por isso, sofre com o seu nível. “Se está muito alto, dificulta a realização dos trabalhos. Se está baixo, interfere na entrega de materiais, que é toda feita pelo canal. Aqui, nossa luta contra o nível da água, a exemplo do que vivencia a cidade, é constante”, explica Rami Nassar, Gerente de Projeto do contrato.
Como as balsas que entregam materiais não entravam no canal onde o muro está sendo construído, seria necessário escavar a encosta às margens. O limite para escavação é de 2,75 m, mas a extensão a ser escavada seria muito grande. Escavou-se apenas 1,5 m, a movimentação de terra foi menor, e toda a entrega de materiais é feita por pequenas embarcações, que retiram os produtos da balsa estacionada na entrada do canal. A solução adotada reduziu a operação de dragagem em 45% (cerca de 240 mil m), sendo removido somente o material necessário para garantir o acesso de embarcações menores. “A economia obtida com essa solução logística ajudou na conquista do contrato”, diz Rudy Armenta.
Outra inovação foi substituir a solda nos 3.500 conectores ligados às estacas em I, que servem para reforçar a aderência da base do muro. Em vez de soldados, os conectores foram parafusados. A alteração reduziu, além do custo, o tempo de realização do trabalho, sem adulterar a qualidade e o design original.
“Estamos trabalhando em benefício de toda a cidade, que vem acompanhando o projeto como um todo, de perto, pois se trata de um tema muito sensível, sobretudo em um momento em que o nível do Rio Mississipi está altíssimo”, avalia Rudy Armenta, que agora integra essa comunidade afetada pela questão. “Abracei esse projeto. Comprei uma casa aqui e, com minha família, me mudei de Miami para cá. Não apenas acompanho o cuidado da população com a ocorrência de tempestades e inundações como compartilho e enfrento a mesma situação. E isso motiva o meu trabalho e a nossa busca por inovações, com o foco em produção e qualidade.”




