O futuro nas águas do Huallaga


texto Júlio César Soares
fotos Guilherme Afonso

Hidrelétrica de Chaglla, reforço fundamental para a geração de energia no Peru, vai transformar a realidade de uma região com grande potencial de crescimento.

De quarta-feira a domingo, o Parque de Las Aguas, em Lima, exibe um show de luzes em diversas fontes de água. A alguns quilômetros dali, no Larcomar, peruanos e turistas passeiam pela orla iluminada. “O país tem 6.300 MW de potência instalada. Se continuar crescendo como ocorreu nos últimos anos, em 2020 essa capacidade terá de superar os 12 mil MW”, diz Erlon Arfelli, Presidente da Empresa Generadora Huallaga (EGH), controlada pela Odebrecht Energia.

A EGH é a responsável pela concessão da Hidrelétrica de Chaglla, em construção no Departamento de Huánuco, a 420 km de Lima. É a primeira participação da Odebrecht no setor de concessão de energia elétrica fora do Brasil. Assim como em 1979, quando a Organização conquistou sua primeira obra internacional, a Hidrelétrica de Charcani V, no Peru, o desafio é um marco. “Vamos mudar nosso perfil no país, executando a cadeia completa, e isso tem sido uma experiência gratificante”, salienta Erlon. “Cadeia completa”, porque a Odebrecht Peru também é responsável pela construção da usina, um projeto de US$ 1,2 bilhão e que agregará ao sistema nacional 406 MW de potência quando concluído, em 2015.

Chaglla será construída em uma área de selva densa, parte da Amazônia peruana. “Em 2011, trabalharemos na infraestrutura do projeto”, conta Sergio Panicali, Diretor de Contrato da obra. Serão construídos 40 km de estradas na margem esquerda do Rio Huallaga, além dos trabalhos de recuperação da estrada de terra que já existe na margem direita.

O projeto da usina é diferente do das hidrelétricas convencionais. A casa de máquinas, geralmente próxima à barragem, estará a 15 km de distância. “Para que a água chegue e a usina gere energia, construiremos um túnel, que aproveitará o desnível do rio entre a barragem e a casa de máquinas”, explica Sergio. Além disso, o vertedouro não estará incorporado à barragem, mas próximo a ela, na margem esquerda do rio. “Teremos três túneis de 1 km para dar vazão à área de alagamento”, informa.

Um quarto túnel será construído ao lado dos túneis do vertedouro, para alimentar a Pequena Central Hidrelétrica (PCH) – com capacidade de geração de 6 MW – que será construída. “Optamos pela PCH, para aproveitar a geração de energia da vazão ecológica que temos de dar à barragem”, assinala Sergio. “Vazão ecológica” é aquela que deve ser assegurada para que o rio não fique seco entre a barragem e a casa de máquinas.

 

Um futuro polo turístico

Antes mesmo do início das obras da usina, a população de Chaglla avista benefícios, segundo a Prefeita Michaela Tolentino. “As obras de estrada vão melhorar o acesso às comunidades próximas à Chaglla, que estão na margem direita do Huallaga e acabam isoladas das províncias vizinhas”, ela diz.

Além disso, o Programa de Sustentabilidade do projeto prevê que a região se torne polo turístico. “Temos projetos para transformar a área de alagamento da barragem em um local aprazível para que turistas possam vir descansar. Já a outra parte do rio, em direção à barragem, será destino para o turismo de aventura”, diz Paola Naccarato, Responsável por Sustentabilidade no projeto. Por estar em um cânion no meio da selva, o Huallaga conta com belas paisagens e formações rochosas. Paola explica que as ações não se limitarão apenas ao turismo. “Huánuco é produtora de um dos melhores cafés do Peru, além de cacau e batata. Pretendemos capacitar os produtores para gerir toda a produção”, destaca.

O trabalho de maior impacto realizado na comunidade, porém, é o Programa Creer, versão do Programa Acreditar, que nasceu nas obras da Hidrelétrica Santo Antônio, em Rondônia, no Brasil. “Chegamos aqui um ano antes da colocação da pedra fundamental do projeto, para capacitar trabalhadores”, relata Gonzalo Bussalleu, Responsável por Relações Institucionais do contrato. “Após a primeira convocatória, realizada em abril de 2010, 863 pessoas da região foram capacitadas e certificadas”, recorda. “Nesses dois primeiros meses de obra, 88 dos atuais integrantes passaram pelo Creer e estão trabalhando tanto nas frentes de serviço quanto em áreas administrativas.

Natural de Chaglla, Cleni Climer Claudio Cudeño, motorista formado pelo Creer, diz que o programa mudou sua vida. “Nós aprendemos sobre meio ambiente, sobre a responsabilidade de cada um. Creio que o programa auxiliará não só quem ficou na obra, mas todos que participaram”, diz.

O programa terá uma nova convocatória, a partir de julho, nas comunidades do entorno da obra. “Nossa meta é conseguir mais 800 formandos e ampliar cada vez mais o número de integrantes moradores da região capacitados pelo Creer. Para isso, trabalharemos com salas de aula itinerantes, buscando atingir o maior número de pessoas”, diz Gilda Cespedes, Responsável pelo Programa Creer. A previsão é de que 2.500 pessoas se inscrevam nessa segunda convocatória.

Chaglla é um sonho do povo huanuquenho que se torna realidade, segundo o Presidente do Governo Regional de Huánuco, Luis Raúl Picón. “Há mais de 50 anos, fala-se da construção de uma usina no Huallaga, e isso é um desejo da população da região. O sonho está se tornando realidade e trará diversos investimentos ao Departamento, além de gerar cerca de 2 mil oportunidades diretas de trabalho e 10 mil indiretas”.