14 segundos que entraram para a história

  • A plataforma posicionada sobre a balsa BGL-2: inovação brasileira

    A plataforma posicionada sobre a balsa BGL-2: inovação brasileira


texto Emanuella Sombra
fotos Artur Ikishima

P-59 é a primeira plataforma autoelevatória do mundo a ser lançada a partir de outra estrutura flutuante.

De cima da torre de controle da plataforma P-59, ouve-se o primeiro apito de uma sucessão de três alarmes sonoros que acionarão o lançamento da gigante de 7.700 t, cuidadosamente acomodada sobre a balsa BGL-2 da Petrobras. Quatro rebocadores aguardam o início da operação, prevista para ocorrer ao meio-dia de uma sexta-feira chuvosa e cinzenta. A expectativa de quem aguarda o momento em que a P-59 cairá nas águas salobras do Rio Paraguaçu, próximo de sua foz, cresce a cada minuto a menos na contagem regressiva.

Mário Moura e Jacques Raigorodsky – respectivamente, Responsável por Engenharia de Campo e Gerente de Engenharia Corporativo – aguardam sobre a BGL-2, onde uma equipe de cerca de 50 pessoas começa a se deslocar rapidamente até a popa da embarcação, local considerado mais seguro no momento exato do empuxo. São previstos dois minutos a menos até que, providencialmente, a chuva cessa. São 11h45 quando é ouvido o terceiro apito.

Nesse momento, Moura e Raigorodsky dão a autorização para o lançamento: o acionamento do sistema de hold-down (algo parecido com um estilingue de mil toneladas) desprende a P-59 da balsa, esta levemente inclinada para baixo em cerca de cinco graus. A gravidade começa a fazer sua parte e a plataforma desliza sobre a BGL-2 com uma força de atrito próximo de zero. Quem assiste à operação de longe, calculada para acontecer sobre as correntes calmas e abrigadas do Paraguaçu, tem a impressão de ver um brinquedo enorme escorregando o casco sobre a água, formando ondas gigantes até navegar calmo e estabilizar-se com a ajuda dos rebocadores.

 

Dois anos e meio de trabalho

O lançamento dura menos de um minuto. Mais precisamente, 14 segundos, resultantes de dois anos e meio de trabalho dos cerca de 2 mil trabalhadores do Consórcio Rio Paraguaçu (Odebrecht Engenharia Industrial, Construtora Queiroz Galvão S/A e UTC Engenharia) e que representam um feito inédito na engenharia offshore. Pela primeira vez no mundo, uma plataforma autoelevatória de petróleo é lançada a partir de outro corpo flutuante, nesse caso a balsa BGL-2 da Petrobras.

O momento crítico da operação ocorreu em junho e foi consequência de um árduo trabalho realizado em São Roque do Paraguaçu, distrito de Maragogipe localizado a 133 km de Salvador. Tudo começou em 2007, quando a licitação para a construção das plataformas P-59 e P-60 previa a realização das obras em um local que não era adaptado para o lançamento de plataformas na água. Uma das condicionantes da Petrobras era que elas fossem construídas no canteiro de São Roque, onde não havia um estaleiro próprio para o lançamento.

“A escolha de São Roque foi uma forma de dar continuidade a um processo que já existia naquela região, tradicional na construção de jaquetas de plataformas na década de 1980”, explica José Luís Coutinho, Diretor de Contrato da Odebrecht. “Sem falar que o canteiro de São Roque tinha sido recentemente mobilizado para a construção dos topsides [módulos de processo e utilidades] da plataforma da PRA-1”. A partir da exigência do cliente, o Consórcio avaliou cada uma das alternativas até então conhecidas na indústria offshore. O problema é que nenhuma delas era viável dos pontos de vista econômico e logístico.

“O desafio era descobrir que métodos mais inovadores poderíamos propor para nos tornarmos mais competitivos e, assim, ganharmos a concorrência”, lembra Jacques Raigorodsky, engenheiro encarregado de pensar uma solução. Uma das opções seria a criação de um dique seco, onde a P-59 e a P-60 seriam construídas. Mas ela sequer chegou a ser cogitada por uma razão simples: o alto custo de sua implantação.

Outra alternativa seria a construção de uma carreira de lançamento semelhante à de um estaleiro, mas essa solução foi igualmente descartada, porque também teria impacto substancial nos preços a serem ofertados na licitação, além de exigir a modificação da planta original do canteiro. “Teríamos que, depois do procedimento, desmanchar tudo e deixar o local como estava antes”. A terceira e última tecnologia conhecida – o uso de uma balsa submersível que, depois de receber cada plataforma, é induzida a afundar, como os submarinos – custaria em torno de US$ 5 milhões por procedimento. Essa solução requereria balsas importadas e traria o risco da falta de disponibilidade.

 

Recurso brasileiro

A lâmpada da criatividade acendeu-se. Na cabeça de Jacques Raigorodsky, uma quarta alternativa parecia totalmente possível: recorrer a uma balsa de lançamento de jaquetas (torres de aço usadas na extração de petróleo e gás) para lançar uma estrutura com casco. “Era uma forma de utilizar um recurso que é brasileiro, é da Petrobras, e estava sendo disponibilizado pela empresa na licitação. “Mas eu tive que convencer o pessoal de que isso era viável. No princípio, todo mundo dizia que não era”, relembra o consultor.

Ganhar a confiança do cliente e dos próprios colegas foi apenas a primeira batalha vencida. Ultrapassada essa etapa, o consórcio apresentou sua proposta na licitação, que se tornou vencedora graças, em grande parte, à competitividade gerada pelo método inovador para lançamento de plataformas. Após a assinatura do contrato, o grande desafio da equipe foi comprovar, na prática, que o lançamento daria certo. Como fazer? Utilizando um modelo reduzido, em escala de 1:50, e elaborando um software específico para a operação. Ou seja, uma maquete e um programa de computador que fizesse todos os cálculos da simulação.

Para isso, foram usados os tanques de prova do Lab Oceano, no Rio de Janeiro, onde cada possibilidade diferente de lançamento foi exaustivamente testada. A maquete serviu para identificar como a plataforma e a balsa se comportariam na hora do lançamento, auxiliando na determinação de um ângulo de lançamento capaz de vencer o atrito da inércia sem fazer a plataforma pivotar sobre o convés.  O efeito de pivotamento seria como se a plataforma “empinasse”, fazendo com que o casco se apoiasse em um único ponto do convés da balsa, o que danificaria uma das estruturas ou ambas. Nessa fase de tentativa e erro, 23 configurações de lançamento e 92 simulações foram necessárias para que se descobrisse o ângulo mais seguro da inclinação: 5,46 graus. A partir daí, o próximo passo seria encontrar um material que possibilitasse o mínimo possível de atrito entre a superfície da balsa e o casco da P-59 e da P-60.

A combinação mais apropriada não tinha nada de inovadora e já havia sido testada pelos próprios engenheiros da Odebrecht durante décadas. “Existe uma técnica quase centenária: a aplicação de sebo de carneiro nos patins de embarque, que, em nosso caso, são de aço no topo e de madeira na parte inferior”, esclarece Mário Moura. “E, para completar o processo, revestimos a carreira [sapatas contínuas de concreto e aço] com teflon, de forma que essas superfícies, quando em contato, produzissem um atrito baixíssimo, de cerca de 2%”. Desde a fase inicial de testes, ele atuou em parceria com Raigorodsky no desenvolvimento do método, assumindo desde a coordenação das equipes até o monitoramento para que cada novo passo ocorresse sem tropeços.

 

Nivelamento da balsa com o cais

Moura acompanhou o lançamento da P-59 no Rio Paraguaçu, do local onde melhor podia-se sentir o impacto do deslocamento: a própria balsa. Três dias antes, também foi o responsável por cada detalhe do load-out, percurso de transferência da plataforma em terra firme para a BGL-2, por meio de um sistema de macacos hidráulicos e de carreiras construídas no canteiro. “O load-out não é uma operação inédita. O corpo técnico da Odebrecht já a realizou várias vezes. Mas esse tipo de operação é extremamente delicado e exige os maiores cuidados possíveis, pois precisamos garantir o nivelamento da balsa com o cais durante todo o tempo de embarque. E isso é muito difícil”.

Nesse caso, delicado pode significar lento. Enquanto o lançamento da P-59 durou 14 segundos, o load-out demorou cerca de 15 horas, a ponto de o deslocamento da plataforma nem ser percebido a olho nu. “São três anos de dedicação a um evento que acontecerá em menos de um dia, e depois, em menos de um minuto. Mas uma coisa eu aprendi bem com o Jacques e com o Coutinho: para ter sucesso em uma operação, é preciso planejamento e um procedimento muito bem detalhado. Executar bem os preparativos da operação é essencial. O resto é consequência”, diz Moura, antes de dar a próxima instrução pelo rádio. Rente à margem do rio, ele continua orquestrando a legião de operários que trabalha para dar continuidade ao sucesso obtido no último mês.

Passado o principal desafio da equipe, que revolucionou a engenharia offshore ao tornar possível uma nova tecnologia de lançamento de autoelevatórias, São Roque do Paraguaçu prepara-se para repetir a mesma operação com a P-60. O que parece simples, não é. Isso porque a Odebrecht e as demais empresas do consórcio dividem esforços com a finalização da P-59, que depois do lançamento foi rebocada de volta para as margens do canteiro, onde passou pelo procedimento de jacking de pernas (movimento em que as bases de sustentação são estabilizadas no fundo do rio).

Cerca de seis meses serão necessários para que ela termine de ser construída, receba o convés de perfuração por meio de outro procedimento de load-out e parta para as primeiras perfurações no mar. Tanto a P-59 como a P-60 são projetadas para operar em áreas próximas à costa, com até 110 m de lâmina d’água. A capacidade de perfuração é que tem proporções abissais: quando as plataformas já estiverem no mar, será possível descer até 10 mil m de profundidade, o que permitirá alcançar a camada de pré-sal.

“Conseguimos estabelecer um marco histórico na indústria offshore, e isso gerou um aprendizado fantástico para todos os profissionais envolvidos, tanto na parte de simulações estruturais quanto na de estudos de modelos reduzidos e operações navais”, afirma Fernando Barbosa, Diretor-Superintendente da Odebrecht Engenharia Industrial, que acompanhou de perto os instantes finais dessa primeira etapa. “O principal legado disso é o que fica de experiência e conhecimento para a Organização em seus projetos futuros, aumentando nossa competitividade.”

Se depender dos resultados obtidos na tentativa inaugural, a utilização da nova tecnologia de lançamento promete novos horizontes à indústria petrolífera nacional. “Como esse tipo de balsa está facilmente disponível, isso viabiliza a construção de estruturas flutuantes também em outros locais. Nós agora temos uma nova modalidade de lançamento”, avalia Nilo Victor de Oliveira, Gerente Setorial de Construção de Plataformas Autoelevatórias da Petrobras. Em São Roque do Paraguaçu, as obras continuam fazendo sua parte. Que venha a P-60!