Um sonho vem à tona
Brasil dá início à realização de um antigo projeto: construir submarinos, entre eles um nuclear.
O sonho de mais de 30 anos começou a se tornar realidade. O país terá, em um futuro próximo, seu primeiro submarino de propulsão nuclear. Ele será construído em território nacional, por meio do Prosub-EBN – Programa de Desenvolvimento de Submarinos – Estaleiro e Base Naval, iniciativa da Marinha do Brasil. Por um lado, a obtenção de um submarino desse tipo potencializará as ações da Marinha em águas profundas e distantes da costa. Por outro, significará o ingresso do Brasil no grupo de países que detêm esse conhecimento tecnológico, formado hoje por Estados Unidos, França, Inglaterra, Rússia e China.
Para isso, o Brasil firmou acordos com a França, em 2008, para a transferência de tecnologia, o que possibilitou o início da construção de um estaleiro, de uma base naval e de quatro submarinos convencionais do modelo Scorpène e um de propulsão nuclear. A empresa estatal francesa DCNS (Direction des Constructions Navales et Services) é a responsável pela condução do processo de transferência de tecnologia para a Marinha e para a Odebrecht.
A escolha pela tecnologia francesa
Tradicionalmente, os países que possuem submarinos nucleares desenvolveram seus projetos a partir de sucessivas etapas evolutivas de modelos de submarinos convencionais. Muitos levaram anos para desenvolver a tecnologia. Hoje, apenas dois países produzem simultaneamente submarinos convencionais e nucleares: França e Rússia. A Marinha do Brasil visitou essas nações, estudou seus projetos, pesquisou sobre seus clientes no mundo e concluiu que a França era a parceira mais segura para o caso brasileiro.
Primeiramente, porque a França se dispôs a transferir a tecnologia tanto para o projeto do submarino de propulsão nuclear – no que tange ao casco, às suas estruturas internas e seus sistemas (exceto a parte do reator nuclear, desenvolvida pela própria Marinha) – quanto para os submarinos convencionais do modelo Scorpène.
Depois, porque o modelo convencional Scorpène, diferentemente dos outros convencionais, incorpora conceitos de segurança semelhantes aos submarinos nucleares. A fabricação, no Brasil, do primeiro dos quatro submarinos Scorpène começará a ser executada em 2011. Esse submarino deverá estar concluído em 2015.
Treinamentos na França e no Brasil
Neste momento, a Odebrecht Infraestrutura e a Odebrecht Engenharia Industrial estão erguendo, no canteiro de obras de Itaguaí (RJ), a Ufem – Unidades de Fabricação de Estruturas Metálicas (onde serão construídas as partes metálicas dos submarinos, ou seja, as seções do casco e suas estruturas internas), o Estaleiro e a Base Naval (EBN). A previsão é de que a Ufem seja inaugurada em 2012; e o EBN, em 2015. Em um segundo momento, serão construídos os submarinos, com previsão de conclusão, gradativamente, até 2025, quando o submarino de propulsão nuclear deverá entrar em operação. A Odebrecht participará da execução dos submarinos por meio da Itaguaí Construções Navais, uma joint venture formada com a DCNS. Como parte do acordo, integrantes da Marinha e da Odebrecht recebem treinamentos da equipe da DCNS, na França e no Brasil.
No caso do EBN, o conhecimento é transferido por meio do Pacote de Informações Técnicas, que sai da França, chega até a Marinha e, depois de analisado e aprovado, à Odebrecht. As informações são absorvidas e aplicadas no projeto básico e no projeto de detalhamento. “O aprendizado nesse projeto fará da Odebrecht a primeira empresa brasileira capacitada a projetar e construir estaleiros para submarinos convencionais e de propulsão nuclear”, diz Fabio Gandolfo, da Odebrecht Infraestrutura, Diretor responsável pelo Estaleiro e pela Base Naval.
A escolha da Odebrecht como parceira pela estatal francesa se deu por sua experiência em obras de grande porte, inclusive com tecnologia nuclear (usinas de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro), e sua atuação no mercado offshore, na qual se destacam a construção de diversas plataformas de petróleo, no Brasil e no exterior. “A DCNS viu na Odebrecht a empresa brasileira com as características necessárias para absorver a tecnologia francesa e realizar o Prosub”, diz Fernando Barbosa, Diretor-Superintendente da Odebrecht Engenharia Industrial, empresa responsável pela construção dos submarinos convencionais e do submarino de propulsão nuclear.
Para coordenar e integrar o planejamento e os diversos contratos do Prosub perante a Marinha do Brasil, a Odebrecht e a DCNS criaram o Consórcio Baía de Sepetiba, que tem como Presidente do Conselho Roberto Simões,
Diretor Executivo da Odebrecht Defesa e Tecnologia.
O reaquecimento da indústria naval
A relação do Brasil com os submarinos e sua tecnologia tem suas origens no início do século 20, quando o país adquiriu os primeiros desses equipamentos. No entanto, somente em 1993 foi lançado ao mar o primeiro submarino construído em solo brasileiro, no Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro: o S Tamoio (S-31), de tecnologia alemã. Iniciou-se, então, uma trajetória em busca de independência tecnológica. Em 1979, foi criado o Programa Nuclear da Marinha (PNM), visando ao desenvolvimento do submarino brasileiro de propulsão nuclear.
Apesar de importantes avanços nos estudos nucleares, o PNM sofreu estagnação, principalmente nos anos 1990. No início dos anos 2000, o Governo Federal decidiu investir na indústria naval e incentivar a participação da iniciativa privada, para aquecer o setor e gerar oportunidades de trabalho. O incentivo teve o reforço da descoberta de petróleo na camada do pré-sal. Cerca de 90% das exportações e importações do país passam por uma área de aproximadamente 560 km de costa. A proteção dessa área é de responsabilidade da Marinha. Nesse contexto, surgiu a necessidade de reinvestir na construção de submarinos, pois a frota atual da Marinha é de cinco unidades.
Para o Almirante Alan Arthou, que lidera o projeto do Estaleiro e da Base Naval pela Marinha, é motivo de orgulho fazer parte do grupo de países detentores da tecnologia de construção de submarinos nucleares: “O Prosub significará para o Brasil a conquista de independência tecnológica na construção de estaleiros e submarinos de propulsão nuclear. Será bom para a Marinha e para as empresas, pelo domínio do conhecimento tecnológico e também para a defesa de nossa soberania”.
Dragagem da Baía de Sepetiba
Com o objetivo de preparar a área e oferecer condições de suporte às estruturas que compõem o projeto EBN, está em andamento a dragagem do solo mole do fundo da Baía de Sepetiba. Depois da dragagem, serão construídos os enrocamentos de contenção, que permitirão o avanço dos aterros hidráulicos. Em seguida, a execução das estruturas do cais, dos píeres, das edificações industriais e administrativas e de outras unidades complementares.
O Estaleiro e a Base Naval ficarão um de frente para o outro, como se fossem dois braços adentrando ao mar, às margens da Baía de Sepetiba. Entre esses braços, ficarão a Dársena (área de atracação dos submarinos em ambos os lados e que servirá de acesso aos dois diques secos, previstos no projeto, para manutenção e troca de combustível dos submarinos), a bacia de evolução e o canal de acesso, áreas por onde os submarinos irão transitar e manobrar para terem acesso às instalações do EBN. O calado de todas essas áreas será de 12 m.
Entre o material a ser removido na dragagem, foram identificados, por estudos prévios, alguns bolsões com presença de sedimentos contaminados com metais pesados (cádmio, níquel, chumbo e zinco), resultantes da poluição ao longo dos anos gerada por indústrias ali instaladas no passado e já desativadas. Esses bolsões, somados, perfazem 300 mil m3. O material não contaminado é dragado e jogado no bota-fora marítimo, local autorizado pelo Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente), fora da baía de Sepetiba, a 56 km da obra. No caso do material contaminado químico, a solução encontrada foi o uso de sacos (bags) de geotubes, com 65 m de comprimento por 18 m de largura e 2,4 m de altura.
Os bags são colocados na UDCQ – Unidade de Decantação de Contaminados Químicos, em uma bacia construída, com 13 m de profundidade, 255 m de comprimento e 130 m de largura, totalmente protegida por uma manta de PEAD (polietileno de alta densidade) e uma camada de brita. O processo é o seguinte: a draga de sucção e recalque retira o material do fundo do mar e o bombeia para a terra, por meio de tubulação, passando-o por uma unidade de tratamento. Lá, para iniciar o processo de tratamento, é injetado um polímero, mediante ionização, com a finalidade de “flocular” o material dragado e permitir sua filtragem. Dali, o material seguirá pela tubulação e será lançado nos bags.
“Os bags retêm os metais pesados, permitindo o deságue do efluente tratado através do tecido dos bags, e sua volta para o mar, sem contaminação, pelos canais”, diz Sérgio Pinheiro, Diretor de Obras Marítimas da Odebrecht. No final, os bags serão cobertos por uma camada de solo, para proteção, impedindo qualquer tipo de contaminação do meio ambiente.
O projeto Prosub-EBN também proporcionará uma importante contribuição para a formação de trabalhadores locais. Atualmente, 3 mil pessoas trabalham nas obras. Mais de 2 mil serão capacitados por meio do Programa de Qualificação Profissional Continuada – Acreditar, até o fim da obra do Estaleiro e da Base Naval, em 2015.



