Uma senhora plataforma

  • A plataforma em operação hoje no Campo de Marlim, na Bacia de Campos: protagonista de um recorde histórico de produção

    A plataforma em operação hoje no Campo de Marlim, na Bacia de Campos: protagonista de um recorde histórico de produção


texto Cláudio Lovato Filho

P-18, construída no começo dos anos 90 em Cingapura e no Brasil, gerou aprendizados que as empresas participantes do projeto utilizam até hoje.

Sua nobreza, como sempre ocorre, está expressa nos títulos: a maior plataforma semissubmersível do mundo, na época de sua construção; a primeira do seu tipo a produzir petróleo no Brasil; a primeira a operar no país em águas com mil metros de profundidade; a então recordista brasileira na produção de petróleo: 100 mil barris por dia; objeto da primeira grande licitação internacional promovida pela Petrobras; a primeira plataforma da empresa brasileira a ser construída no exterior a partir do zero, ou seja, uma obra totalmente nova e não uma conversão. Mas, para além desses muitos rótulos que lhe asseguram lugar cativo na história da indústria brasileira do petróleo, a P-18 representou um divisor de águas na trajetória da Petrobras, na atuação da Odebrecht no setor offshore e nas relações entre Brasil e Cingapura, país no qual parte da plataforma foi construída. A P-18 veio ao mundo sob o signo do pioneirismo, para cumprir um destino revolucionário, no front do Campo de Marlim, Bacia de Campos, no litoral do Rio de Janeiro.

“Muito do que a Petrobras faz hoje em águas profundas, incluindo o trabalho no pré-sal, deve-se à P-18”, afirma Arnaldo Arcadier, Gerente Executivo do Promef (Programa de Modernização e Expansão da Frota), da Petrobras. “Foi um obra emblemática pelo seu pioneirismo e por sua inovação; um projeto que gerou confiança para o avanço da produção de petróleo.” Arnaldo foi o Gerente de Projeto da P-18. Morou em Cingapura entre junho de 1991 e abril de 1993. Sua chegada ao país, junto com mais 11 companheiros da Petrobras e suas famílias, deu-se no mês seguinte à assinatura do contrato entre a Petrobras, a Odebrecht (representada pela Tenenge) e a Fels – Far East Levingston Shipbuilding, subsidiária da Keppel Corporation, de Cingapura, e um das principais construtoras mundiais de plataformas offshore para a indústria petrolífera.

Estão se completando, portanto, exatos 20 anos da assinatura do contrato para a construção da P-18, resultado de uma licitação internacional da qual participaram, além do consórcio Tenenge-Fels, uma outra empresa de engenharia e construção do Brasil e uma finlandesa. Em 3 de junho último, Arnaldo reuniu em sua casa, no Leblon, no Rio de Janeiro, os companheiros com os quais compartilhou a experiência de viver e trabalhar em Cingapura no princípio dos anos 1990. Relembraram fatos, assistiram a vídeos de momentos de lazer das famílias, falaram do passar do tempo, do seu trabalho ontem e hoje, dos avanços da tecnologia, divertiram-se ao lembrar que, quando estavam indo para casa, descansar, o pessoal no Brasil estava chegando para trabalhar.

 

Projeto inovador em âmbito mundial

“Para construir a P-18, a Petrobras pesquisou o que de melhor havia em termos de projeto de plataformas semissubmersíveis no mundo. Já havia experiência com o uso dessas plataformas para perfuração, mas não para produção. O projeto da P-18 foi, dessa forma, inovador, em âmbito mundial, e, além disso, teria de ser executado pelo sistema EPC (Engineering, Procurement and Construction – Engenharia, Suprimento e Construção), uma novidade e, por decorrência, um desafio que gerou uma escola para a empresa”, salienta Arnaldo. No EPC, o construtor é responsável por todas as etapas da obra, com praticamente todas as atividades concentradas no canteiro.

A execução da plataforma em Cingapura proporcionou à Petrobras o primeiro compartilhamento de uma execução de projeto com um construtor estrangeiro, a Fels. Para a empresa de Cingapura, a novidade não era menor. Contribuição importante para o êxito desse relacionamento, principalmente no início, foi o conhecimento prévio que a Odebrecht tinha da Fels e vice-versa. No fim dos anos 1980, as duas empresas haviam trabalhado juntas na Índia: a Odebrecht contratara a Fels para obra de extensão das pernas da plataforma fixa Norbe V. Foi a origem da relação entre elas e o que as levou a unirem-se em um consórcio para disputar a licitação da P-18. Vencida a concorrência, era hora de passar a compartilhar o cotidiano do estaleiro da Fels em Cingapura – o que duraria quase dois anos, até a partida da plataforma para Paranaguá (PR), onde o projeto seria concluído.

“Colocamos todas as nossas preocupações na mesa”, relembra o advogado Jeff Chow, Gerente Geral para Assuntos Legais da Keppel Offshore & Marine, que teve intensa participação na formação do consórcio entre Odebrecht e Fels. “Conversamos abertamente, definindo claramente as responsabilidades de cada uma no projeto. O que se seguiu foi o surgimento de relação de confiança de altíssima qualidade. Com brasileiros da Petrobras e da Odebrecht, fiz amizades que mantenho até hoje. Nós, da Fels, da Petrobras e da Odebrecht, formamos laços, tornamo-nos uma família, e isso foi fundamental para que nossos objetivos comuns fossem alcançados da maneira como foram”, acrescenta.

As afirmações de Jeff Chow são essenciais para que se tenha uma boa ideia do que aconteceu em Cingapura e no Brasil durante a realização do projeto da P-18. Eram três empresas vivendo desafios até então inéditos para elas (e, em alguns casos, para o mundo), trabalhando em um projeto que se tornaria referência para a indústria de petróleo. União, coesão e sinergia refletiam o foco comum.

“A relação pessoal é a primeira e principal chave para abrir as portas”, afirma Wai Seng Yeong, da Fels, Gerente de Engenharia no projeto da P-18 e atualmente Vice-Presidente de Projetos Especiais da Keppel Offshore & Marine USA. Wai Seng vive há dois anos no Rio de Janeiro. “Tudo era novo para nós”, ele relembra. “Tínhamos um excelente projeto da Petrobras, era realmente sofisticado. Havia um recorde a ser batido, de 100 mil barris por dia. Tínhamos de nos entender muito bem. A construção do casco e a instalação dos equipamentos navais, em Cingapura, e a construção dos topsides e o hook-up, em Paranaguá, foram desafios superados, mais que tudo pelo bom clima de trabalho e pelo sentimento de que éramos, todos, um só time.” O hook-up é a finalização da plataforma, incluindo a instalação dos módulos de processamento (topsides) e da tubulação; a instalação elétrica; a montagem dos instrumentos, do sistema de segurança e dos alojamentos.

“A P-18 foi um marco para nós”, afirma Choo Chiau Beng, CEO (Diretor-Presidente) da Keppel Corporation e Chairman (Presidente do Conselho de Administração) da Keppel Offshore & Marine. “Foi o nosso primeiro trabalho para a Petrobras. Tivemos uma grande experiência de aprendizado. Colocamos no projeto nosso melhor time. Como construtora de plataformas semissubmersíveis de perfuração e acomodação, a Keppel Fels pôde contribuir com sua expertise para a construção de uma plataforma como a P-18, com qualidade e no prazo. A integração das equipes da Odebrecht, da Keppel Fels e da Petrobras, atuando com coesão, sinergia e amizade, levou ao sucesso do projeto.” Ele acrescenta: “A P-18 sem dúvida fez Brasil e Cingapura ficarem muito mais próximos”.

 

A maior planta de produção de petróleo em meio flutuante

A equipe da Odebrecht em Cingapura era liderada pelo Gerente de Contrato Fernando Barbosa, hoje Diretor-Superintendente da Odebrecht Engenharia Industrial. Fernando tinha 35 anos quando assumiu a liderança da obra. Um jovem profissional com um  desafio de 36 mil toneladas nas mãos – cuja superação representaria um passo decisivo do Brasil para a tão almejada autossuficiência em petróleo. Fernando, que ingressara na Organização em 1985 e que antes disso já havia participado de projetos offshore na Bahia, atuando por uma outra empresa e depois pela Odebrecht, fez sua primeira visita a Cingapura em fevereiro de 1990. Morou dois anos e meio em Cingapura e um ano em Paranaguá. Sobre o período de trabalho na cidade-estado do Sudeste Asiático, ele recorda: “Havia a diferença de 11 horas no fuso horário, e nada de internet, só fax! Foi uma experiência extraordinária. Montar uma equipe e uma cultura de procedimentos, para executar um projeto inovador, morando no Oriente, foi marcante e motivador”. Além de Fernando, nove integrantes da Odebrecht e suas famílias foram para Cingapura.

A Fels, assinala Fernando, havia construído diversas plataformas de perfuração. A construção de uma plataforma de produção é bem mais complexa. Trata-se de uma unidade industrial para operar em alto-mar. A P-18 chegou a ser a maior planta de produção de petróleo do mundo em meio flutuante. A experiência das equipes da Odebrecht e da Petrobras com esse tipo de estrutura foi um fator importante. “A P-18 foi uma grande fonte de aprendizado para todos”, salienta Fernando. Ele acrescenta: “Já naquela época, havia a preocupação da Odebrecht com o ‘conteúdo nacional’; daí a decisão de realizar parte da obra em Cingapura e concluí-la no Brasil, no canteiro de Paranaguá”.

Depois da experiência da P-18, Fernando voltou a Cingapura. Morou lá por mais um ano e meio, atuando como um então DPA (Diretor de País) da Odebrecht. “Em Cingapura, amadureci muito, profissionalmente. Foi uma satisfação ter passado quatro anos lá.”

É um sentimento bastante similar ao de Arnaldo Arcadier. “Desenvolvemos em Cingapura alguns procedimentos que foram consolidados e são utilizados até hoje pela Petrobras, sobretudo no que se refere a gerenciamento de projetos.” Em sua sala no prédio da Transpetro na Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro, ele diz, em tom reflexivo: “A P-18 significou uma guinada nos projetos de produção de petróleo para a Petrobras. Quando ingressei na empresa, em 1978, a produção diária era de 160 mil barris. A P-18, sozinha, a partir de 1994 teria capacidade para produzir 100 mil barris por dia”.

As obras realizadas em Cingapura estenderam-se de junho de 1991 a abril de 1993, quando ocorreu a saída para Paranaguá. A viagem foi feita por meio de um sofisticado sistema de transporte conhecido com dry-tow: o navio Transhelf, de bandeira russa, pertencente à empresa Wjsmuller, submergiu parcialmente para que, em seguida, a plataforma fosse colocada, flutuando, sobre seu convés. A viagem durou 34 dias.

Na Bacia de Paranaguá, foi realizada a operação inversa, e, então, a P-18 foi puxada até o cais por rebocadores. Em março de 1994, a P-18 partiu para a Bacia de Campos. No dia 15 de junho, produziu o “primeiro óleo”. Em janeiro de 1997, ela atingiu a marca dos 100 mil barris/dia. Hoje, produz 30 mil barris por dia. Arnaldo Arcadier explica, sem conseguir ocultar a emoção em suas palavras: “A vida útil de uma plataforma como a P-18 é de 25 anos. Depois de 17 anos de produção de petróleo no mar, em ambiente agressivo, podemos dizer que ela já é uma senhora”.