A grande festa da tradição

  • Cláudia Santos no centro cultural: mantendo vivo o sonho do pai

    Cláudia Santos no centro cultural: mantendo vivo o sonho do pai


texto Luiz Carlos Ramos
fotos Guilherme Afonso

No caminho da Ferrovia Carajás, uma visita a comunidades em que as manifestações culturais sobrevivem e encantam

A Estrada de Ferro Carajás, pela qual trafega o maior trem do mundo – de três locomotivas, 330 vagões para transporte de minério de ferro e 3 km de comprimento –, iniciou novo ciclo: o da expansão. Unindo o sudeste do Pará ao litoral do Maranhão em sua extensão total de 892 km, a linha férrea de Carajás exerce papel expressivo na economia brasileira desde sua inauguração, há 26 anos. Além da carga extraída da Serra dos Carajás, em parte exportada, passa por ali um trem menor, de 20 vagões, para passageiros, três dias por semana, em cada sentido.

O cenário transforma-se a cada hora no percurso, o que permite o vislumbre de palmeiras, florestas, rios, vilas, cidades e gente. Sim: gente. O trem valoriza a natureza, a história e a vida. A Odebrecht Infraestrutura está lá, em aliança com a Vale, operadora da ferrovia e das minas, com a missão de executar as obras de expansão, que em três anos duplicarão alguns trechos, ampliando a capacidade de transporte para responder ao aumento da produção de minério e ao crescimento da demanda mundial de ferro.

Odebrecht Informa esteve nas áreas onde ocorrem as obras. Viu muito trabalho sendo executado em um ambiente no qual as manifestações artísticas e culturais da população são uma marca registrada e admirável.

O roteiro começou onde chega o minério de Carajás: a região metropolitana de São Luís, de 1,4 milhão de habitantes. A cada duas ou três horas, um novo trem leva a carga para processamento industrial na usina de pelotização da Vale, próximo aos portos de Itaqui e Ponta da Madeira, onde navios esperam a vez.

São Luís, a única cidade do Brasil fundada por franceses, nasceu em 1612. Os portugueses tentavam consolidar o domínio de todo o Nordeste, mas, ali, foram surpreendidos pela invasão francesa comandada por Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière, que, em nome do rei Luís XIII, estabeleceu a vila de São Luís. Os franceses foram expulsos pelos portugueses em 1615.

José de Ribamar Coelho, o Saci, cantor e bailarino, artista do Teatro de Bonecos, em um casarão do Beco dos Catraieiros, proclama: “São Luís é única”. E explica: “Conheci muitas cidades. Temos ações culturais, como bumba-meu-boi e teatros”.

O coordenador do Teatro de Bonecos, o músico e escritor José Maria Medeiros, no projeto há 21 anos, conta: “Às quintas-feiras, temos aqui diante do casarão os espetáculos de música e teatro típicos do Maranhão. As pessoas vão chegando”.

Carlos Henrique Lopes Lobo, maranhense, 36 anos, técnico de segurança do trabalho da Odebrecht em São Luís, passeia pelo centro velho, conhecido como Praia Grande, e destaca os mais de mil edifícios centenários, muitos com azulejos. “Esta é a Ilha do Amor, Patrimônio Cultural da Humanidade.” Um deles é o Palácio dos Leões, de mais de 300 anos, sede do Governo do Maranhão. A Prefeitura funciona no Palácio de La Ravardière.

 

“Temos arte e força espiritual”

O bumba-meu-boi avança pelas ruas nas festas de São João, em junho e julho. Essa manifestação popular de origem afro-indígena tem a participação de milhares de pessoas fantasiadas. No bairro da Liberdade, de 30 mil habitantes – a maioria, descendente de escravos –, Cláudia Regina Avelar Santos mantém vivo o sonho de seu pai, Mestre
Leonardo, falecido em 2004: um centro cultural de Boi de Zabumba e de Tambor de Crioula, de raízes maranhenses. “Desde 1956, produzimos e guardamos as fantasias, fitas coloridas e miçangas usadas nas festas”, conta Cláudia Regina.

São Luís é também reduto do ritmo jamaicano reggae e de blocos de Carnaval, como o Libertos da Noite, de Álvaro José, o Neto de Nanã, e da atriz Elizandra Rocha. Até crianças aderem ao ritmo, tocando tambor. “Temos arte e força espiritual”, diz Elizandra.

O trem da Vale segue de São Luís rumo ao sul. Uma das paradas é em Bom Jesus das Selvas, de 25 mil habitantes, área de um dos canteiros da Odebrecht para expandir a ferrovia. Alexandre Andrade, Gerente Administrativo, descreve o desafio de promover a integração entre os trabalhadores vindos de várias regiões para a obra recém-iniciada. “Implantamos aqui o Programa Acreditar [Programa de Qualificação Profissional Continuada – Acreditar]. Nossa maior satisfação é o sorriso de quem se forma.”

Um dos donos desses sorrisos é Eudes Dutra da Silva, 19 anos, de Bom Jesus. Ele fez o curso de armador de ferragem no Acreditar e já está trabalhando. “Essa obra chegou para melhorar a região”, comenta Eudes, também titular do time de futebol do canteiro.

 

Chegando à Amazônia

O líder comunitário Antonio Carlos Ribeiro, o Pelé, maranhense de Caxias, mantém, com seus cinco filhos, um pequeno armazém. “Esta cidade já melhorou e vai melhorar mais”, garante. Maria Alice Araújo concorda e diz que cresceu o movimento de sua sorveteria, ao lado de uma escola pública: “Além das crianças, estão vindo adultos, e isso é resultado
da obra.”

A secretária municipal de Assistência Social de Bom Jesus, Irene de Oliveira Almeida, afirma: “As obras proporcionam oportunidades de trabalho e garantem à cidade mais qualidade de vida.”

Depois de passar por Açailândia, o trem entra na Amazônia, no Pará. E a chegada a Marabá, de 240 mil habitantes, é empolgante – com a ponte rodoferroviária sobre o Rio Tocantins, um dos maiores do Brasil. O vocábulo indígena Marabá, de um poema de Gonçalves Dias, indica as raízes da região. Avenidas e modernos prédios convivem com migrantes de vários estados e com índios. Nos restaurantes, índios batem papo em sua língua, comem peixada e pagam a conta com cartão de crédito.

De madrugada, os pescadores Edson Cardoso e Lúcio Machado saem da canoa Diamante Negro alegres com a produção do dia. “Não vejo nada melhor do que Marabá e o Tocantins”, diz Edson.

Parauapebas é a estação final do trem de passageiros. Já o de carga prolonga a viagem até Carajás, área das enormes jazidas de ferro. Em 2014, ano da Copa do Mundo, o longo trem terá ampliado ainda mais o seu poder, em um dos rincões brasileiros campeões em arte e cultura.