Ai vêm os libertadores

  • Crianças no bairro do Zango, em Luanda: comunidade em processo de formação

    Crianças no bairro do Zango, em Luanda: comunidade em processo de formação


texto Renata Meyer

Comunidades de Mártires do Kifangondo, Chicala e Zango começam a ser transformadas pelas novas gerações de angolanos

A diversidade é uma das marcas mais evidentes das comunidades angolanas nas quais a Odebrecht está presente, seja na língua, na culinária, nos costumes, nas crenças ou nas tradições. Em comum, elas possuem a história. Colônia portuguesa até 1975, Angola foi palco de guerras durante longo período. Os conflitos provocaram a migração massiva de populações de diversas províncias para a capital, Luanda, que saltou de 600 mil habitantes para aproximadamente 6 milhões em cerca de 30 anos. Os bairros existentes foram, aos poucos, invadidos, e cresceram de forma desordenada, o que levou à degradação da infraestrutura disponível.

Foi o que ocorreu no bairro da Chicala, na Ilha do Cabo, próximo ao local onde a Odebrecht executou obras do Projeto Vias de Luanda. O Mártires de Kifangondo também sentiu os efeitos do rápido crescimento. Nesse bairro, a empresa realiza obras de requalificação integral das redes de iluminação pública, drenagem, coleta e esgotamento sanitário, além da pavimentação e sinalização das vias.

Para além dos danos à infraestrutura básica, os tempos de guerra deixaram como herança os desafios da convivência entre povos de origens bastante distintas. Povos que trouxeram na bagagem o seu DNA cultural e que passaram a se influenciar reciprocamente, forjando uma nova identidade.

Com um tipo de formação diferente daquela que caracterizou as comunidades da Chicala e do Mártires do Kifangondo, o planejado bairro do Zango, no município de Viana, é um pequeno extrato de Luanda, no quesito diversidade. Na tentativa de garantir melhor qualidade de vida para a população, o Governo da Província de Luanda, deu início, em 2002, ao Programa de Realojamento das Populações. Desde então, passou a transferir para esse local famílias que viviam em áreas de risco, em diversos bairros da capital angolana.

Em meio a tantos desafios, as equipes da Odebrecht estão presentes nessas comunidades, mobilizando forças e ajudando a potencializar iniciativas de estímulo a práticas sustentáveis, contribuindo também para a preservação de seu patrimônio histórico, social e cultural.

 

Poder de mobilização

Na época colonial, o bairro Mártires de Kifangondo, então denominado Salazar, era habitado principalmente por militares e tradicionais famílias portuguesas. Próximo ao centro de Luanda, ganhou este nome em tributo àqueles que participaram da luta de libertação nacional, travada na localidade de Kifangondo, a 30 km da capital.

A guerra pela independência deflagrou a emigração das famílias portuguesas. Desde então, o Mártires de Kifangondo recebeu angolanos de diversas províncias e estrangeiros originários de países como Mali, Congo, Somália e Senegal.

Hoje, dos 18 mil habitantes do Mártires de Kifangondo, cerca de 3 mil são estrangeiros. Suas influências estão presentes em diversos aspectos da comunidade. Na religião, embora a maior parte da população local seja católica, o bairro abriga a mesquita central de Angola, fundada pelos imigrantes muçulmanos. O templo atrai milhares de pessoas vindas de diversas partes do país. Na culinária, o tradicional Cabrité, um churrasco de carne de cabrito, de origem muçulmana, feito na rua, foi incorporado aos hábitos alimentares dos angolanos.

É na economia, porém, que essa influência torna-se mais evidente. A presença dos estrangeiros e a proximidade com o aeroporto ajudaram a alavancar o comércio no bairro, hoje marcado pela grande diversificação. Apesar das influências externas, a comunidade do Mártires de Kifangondo é reconhecida por seu poder de mobilização social em torno de causas relevantes para seus habitantes.

“Para termos força representativa nas instâncias de governo e nas instituições, precisamos estar unidos e organizados. É nessa base de entendimento que criamos os nossos grupos”, afirma Antônio Cunha, Presidente da comissão de moradores. Existem hoje no bairro diversas organizações associativas com atuação em saúde, meio ambiente, esportes, teatro e artesanato, entre outras áreas.

Responsável pela criação do Movimento Coletivo de Artes Pedro Bélgio, o jovem Abel Noé Miguel Pedro já contribuiu para a conscientização de crianças e adolescentes da comunidade em relação a questões ambientais e à coleta de lixo, por meio de apresentações do grupo de teatro que ajudou a fundar. “Nem sempre temos abertura para realizar tudo aquilo que desejamos. Quando temos a oportunidade de expor o nosso grito, nós expomos. Se a oportunidade não aparecer, a gente cria”, diz.

Segundo Anaie Leite, assistente social da Odebrecht no projeto de Revitalização do Mártires de Kifangondo, a empresa busca potencializar sua atuação entre os diversos grupos. “Fazemos um trabalho de assessoria social, ao levantar os problemas da comunidade e discutir com os moradores as possíveis alternativas para a resolução dos mesmos, sempre com foco na sustentabilidade”, afirma.

 

A arte do recomeço

No município de Viana, próximo à Luanda, o bairro do Zango vive uma realidade diferente. Resultado do Programa de Realojamento das Populações, a comunidade encontra-se em processo de formação. São pessoas provenientes de diversos bairros de Luanda, que, em comum, possuem o desafio do recomeço.

Elder de Jesus Correia, integrante da Odebrecht Angola, foi um dos beneficiados pelo programa. Mora com a esposa e seis filhas na casa de três quartos que recebeu em 2004. Assim como os outros habitantes do Zango, Elder vivia em condições de risco. Apesar das ameaças terem ficado para trás, ele lembra dos tempos em que mal conseguia dormir com medo dos desabamentos provocados pelas chuvas no bairro da Boa Vista, onde morava. “Quando chovia, eu não ficava sossegado. Tinha medo de a minha casa desabar”, afirma o ferreiro de 43 anos. “Hoje me sinto mais tranquilo. Não há mais o que temer.”

Além da segurança, a infraestrutura das moradias, que inclui água encanada e luz elétrica, é considerada pela população local um dos principais atrativos do Zango. A maioria dos moradores, até então, vivia em casas sem esses benefícios.

Para Marcolina Antônia Cassinda, há muitos motivos para gostar do Zango. O único inconveniente é a escassez das oportunidades de geração de renda, um desafio que ela enfrenta com criatividade. Desde que se mudou, há cinco anos, passou a revender bebidas em sua própria casa, lucrando cerca de 320 kuanzas por grade comercializada. O comércio informal é comum entre os moradores do Zango, que encontram nessa atividade um meio alternativo de sobrevivência.

“De início, qualquer mudança causa transtornos, mas, com o tempo, as pessoas se adaptam à nova realidade e percebem o benefício de sair das zonas de risco”, afirma o líder comunitário André João Camungua. Morador do bairro há nove anos, ele está investindo na reforma da casa onde vive com a esposa Emanuele e os cinco filhos do casal.

Para pessoas como Elder, Marcolina e André, a mudança de moradia foi apenas o primeiro passo de uma nova vida, mais tranquila e sem sobressaltos. “Quando se vive em uma situação de risco, o foco das preocupações é a sobrevivência. No Zango, felizmente, nós podemos pensar no futuro”, diz André.

O Programa de Realojamento das Populações já transferiu para o Zango cerca de 160 mil pessoas, na maioria famílias de baixa renda com ganhos mensais de até US$ 300 por mês. A Odebrecht Angola participa desse projeto desde o início, como responsável pela construção de casas e da infraestrutura básica do bairro. A empresa prepara-se para iniciar na comunidade o Projeto de Qualificação Profissional Continuada – Acreditar, uma contribuição para que se ampliem as oportunidades de trabalho no Zango.

 

Tradição

No bairro da Chicala, na Ilha do Cabo, o pescador Manoel Francisco João, morador do local desde a década de 1940, lembra com saudosismo dos tempos em que a pesca artesanal tinha um espaço intocável na comunidade. Naquela época, a atividade, transmitida de pai para filho, mobilizava toda a família.

A crença na Kianda, a padroeira do mar, deu origem a rituais que evocam a prosperidade comunitária e fazem reverência a essa misteriosa divindade. Protagonizadas por um grupo de anciões e mulheres vestidas à bessangana – panos vermelhos e adereços feitos com miçangas – as cerimônias, realizadas à beira-mar, envolvem a oferenda de bebidas, alimentos, flores e dinheiro à Kianda que, uma vez embriagada, dormiria profundamente, permitindo a calmaria das águas e a aproximação dos peixes.

Chicala (“Chegamos”, no dialeto local Kimbundu), era uma comunidade tranquila, com uma população que não passava de 30 famílias. Foi batizada com esse nome pelos primeiros moradores, que, afugentados pela maré alta em regiões vizinhas como o Mussulo e o Cafalete, ali se instalaram para viver da comercialização dos pescados.

Com as guerras pela independência e a chegada de novos moradores, a atividade pesqueira sofreu impactos. Aos poucos, foram surgindo novas atividades econômicas, como o comércio e a prestação de serviços. O avanço da pesca industrial passou a concorrer com os métodos artesanais.

Apesar do novo contexto socieconômico, a tradição da pesca artesanal e o culto à Kianda mantêm-se vivos na comunidade da Chicala por meio de pessoas que, como Manoel, fazem questão de preservar as suas origens culturais. Seja na culinária, seja no comércio ou nos ritos tradicionais, a pesca está presente, influenciando a vida de todos os moradores.

 

Campeões do Carnaval

A riqueza cultural dessa comunidade vai além da sua essência pesqueira. O culto à Kianda é apenas uma entre as diversas cerimônias de raiz tradicional, praticadas pelos moradores da Chicala. Outras manifestações, como os rituais do Xinguilamento – comunicação com espíritos de ancestrais – e do óbito, são realizados principalmente pelos habitantes mais antigos.

Entre os festejos populares, o Carnaval é uma das principais celebrações. Por 12 anos consecutivos, a União Mundo da Ilha, agremiação carnavalesca que congrega os moradores da Ilha do Cabo, é a vencedora do carnaval de Luanda. O grupo, conhecido como “O grande papão”, chega a desfilar anualmente com
2,5 mil integrantes.

Com foco na valorização e na apropriação das intervenções realizadas no bairro por seus moradores, a Odebrecht realizou na comunidade um conjunto de ações sociais e de cidadania. Foram feitas campanhas socioeducativas sobre temas como meio ambiente, educação no trânsito e história local, além de ações de incentivo à preservação e valorização do patrimônio artístico e cultural, como o Projeto Pintando Talentos. A empresa também foi responsável pela construção de um parque infantil, ampliando as opções de lazer no bairro.