Missão Andina
Trabalhar na Odebrecht era uma possibilidade que o paranaense Delcy Machado sequer aventava, pois não tinha nenhuma relação com a empresa. Mas isso acabou por acontecer em 1995, quando ele ingressou na CBPO. Começou nas obras da Hidrelétrica de Itá, na divisa de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul, onde encontrou líderes como Sergio Zorzi e Antonio Cardilli. “Foi uma escola incomparável”, diz Delcy. Administrador por formação, ele tinha o sonho de crescer e, quem sabe, um dia morar fora do Brasil. Depois de algumas obras e de um período fora da empresa, desembarcou no Peru no início de 2005. Escalado para integrar a equipe de Daniel Villar, que tentaria conquistar as rodovias Interoceânicas Norte e Sul, ele ficou impressionado com a diversidade cultural do país, com as possibilidades que se mostravam e com a velocidade que os processos ganhavam. Trouxe rapidamente a família e se instalou neste país que lhe reservava oportunidades que ele não imaginava. Os anos de 2005 e 2006 passaram rapidamente e foram marcados pela mobilização e o início da construção da Interoceânica Sul. No fim de 2006, seu líder na época, Sergio Panicali, deu-lhe a notícia de que a empresa queria montar uma estratégia de contribuição social mais estruturada no país e, daquele momento em diante, o assunto “comunidades” nunca mais deixou de ser agenda prioritária para Delcy. O momento, ele considera, é único e motivador no Peru. “Aqui, percebe-se, cada vez mais, a necessidade de que o crescimento da inclusão social ocorra no mesmo ritmo do crescimento econômico”, afirma.
Odebrecht Informa – Quando você começou a atuar com foco no tema sustentabilidade na Odebrecht?
Delcy Machado – Acredito que todos estão envolvidos no assunto de alguma maneira. Assim como toda a Organização já internalizou as práticas de segurança e saúde, a agenda de sustentabilidade vem para ficar e envolve a todos. Falando da minha experiência, vim para o Peru em 2005 trabalhar na proposta e, depois, na construção da Rodovia Interoceânica Sul, como Gerente Administrativo. O assunto de relações comunitárias se apresentou como uma das grandes concentrações desse projeto. Liderado por Daniel Villar, tive a missão de, juntamente com Richard Díaz, fazer a primeira viagem depois de assinado o contrato da concessão e, parando em cada um dos povoados ao longo da via, contar a todos como faríamos as coisas nessa megaobra. A Interoceânica foi uma grande oportunidade, pois ali se juntaram dois fatores importantíssimos para a ação: o desafio de construir 700 km de rodovia em quatro anos e a decisão de fazer isso com os atores locais. De lá para cá, estamos aprendendo cada vez mais e tratando de ampliar a aplicação dos conceitos de maximização de benefícios dos projetos.
OI – O Peru foi um dos primeiros países da Organização a estruturar uma área específica de Responsabilidade Social, em 2007. Como foi isso?
Delcy – No final de 2006, o Diretor-Superintendente Jorge Barata convocou-me para trabalhar no desenvolvimento de um projeto que possibilitasse dar uma contribuição mais estruturada às comunidades dos projetos da Odebrecht no Peru. Convocamos o Felipe Cruz, então Responsável por Programas Sociais na Área de Sustentabilidade da Odebrecht [hoje Responsável por Investimentos na Implantação do Polo Agroindustrial de Capanda, em Angola], e começamos a pensar em como avançar nessa agenda. Com base na Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO) e com a inspiração nos projetos da Fundação Odebrecht no Baixo Sul, construímos a Iniciativa iSur (www.isur.org.pe), que veio completar o trabalho feito na Interoceanica, dando uma visão de desenvolvimento sustentável às comunidades locais. A isso, na época, chamamos de Área de Responsabilidade Social. Em 2008, criamos a Associação Odebrecht Peru, para executar projetos sociais e ser agente recebedor de cooperação técnica internacional, como as do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e da CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina). Em 2011, fomos uma das 13 empresas no país a receber o distintivo de Empresa Socialmente Responsável, atribuído pela Associação Peru2021 de Responsabilidade Social, que avalia o desempenho não apenas com as comunidades, mas com todos os seus atores de interesse.
“Nas regiões andinas, está nas mãos da comunidade a decisão de permitir a permanência ou não, entre eles, de um determinado ator externo”
OI – Quais os princípios do relacionamento construtivo com as comunidades peruanas?
Delcy – No Peru, as comunidades da área de influência de um projeto poderão, ou não, ser um aliado poderoso. Nas regiões andinas, está nas mãos da comunidade a decisão de permitir a permanência ou não, entre eles, de um determinado ator externo. Isso é muito forte e os casos de projetos parados por falta de um “acordo social” são muitos, sobretudo projetos mineiros. Desde a etapa de planejamento, engenharia e orçamento, a equipe do projeto deve pensar em como fazer esse acordo e isso, invariavelmente, passa por disciplina, respeito e confiança. Mais do que nunca, é necessário estabelecer uma relação, por meio do cumprimento estrito dos compromissos assumidos e de uma comunicação transparente e honesta. Assim conduzimos vários projetos e evitamos qualquer tipo de conflito em nosso trabalho no país.
OI – E quais são as linhas de execução dos projetos sociais da Odebrecht no Peru??
Delcy – A presença de um grande projeto em uma determinada região causa enorme expectativa. O Peru ainda é um país com muitas demandas sociais insatisfeitas e com grande potencial de recursos humanos e naturais. Nesse contexto, o empresário-parceiro deve diagnosticar seu âmbito de atuação, mapear os atores e definir qual o alcance da contribuição que seu projeto poderá dar à população. As boas práticas que motivamos no Peru vão desde a contratação e o treinamento de pessoas locais para o trabalho, utilizando a versão castelhana do Programa Acreditar (o Creer), até o desenvolvimento de cadeias produtivas locais, com assistência técnica para a formação de associações de produtores e empresas. Existem também os empresários que se inclinam a trabalhar com assuntos relacionados à saúde e educação e, nesses casos, buscamos que as ações sejam perpetuadas através do Estado, que deve estar envolvido sempre.
“A correlação entre boa gestão pública e populações com bons índices de desenvolvimento humano é alta”
OI – Qual é, exatamente, o papel do Estado nessa relação?
Delcy – O Estado, nos seus diferentes níveis, é o ente regulador das atividades no território. Ele deve criar as condições para que o desenvolvimento ocorra de maneira adequada. A correlação entre boa gestão pública e populações com bons índices de desenvolvimento humano é alta. Quanto melhor a gestão pública, maior a possibilidade de que os atores locais se desenvolvam. No Peru, vem sendo fundamental envolver o Estado, sobretudo no nível estadual e municipal, nos processos que envolvem as comunidades, pois é dele a obrigação de fornecer serviços básicos dignos. Na Interoceânica Norte, estamos fazendo um trabalho voltado para a educação com a Associação Empresários pela Educação e estamos tendo muita interação com os governos locais para garantir a sustentabilidade das ações no futuro.
OI – O que você destaca da sua experiência direta com comunidades?
Delcy – No Peru, a diversidade cultural é tão grande que a gente se perde entre costumes e tradições e tem que aprender a respeitar isso e estar atento, pois as oportunidades no país são muitas para a nossa empresa, mas devem ser oportunidades inclusivas. Na Interoceânica Sul, aprendi que as comunidades andinas têm seus líderes definidos e, ainda assim, tomam as decisões importantes em assembleias gerais, que envolvem a todos. Uma vez, fiz um acordo com o presidente de uma comunidade para usar determinado espaço para um desvio de serviço necessário ao andamento da obra. Mesmo fazendo tudo conforme mandava a cartilha da época, aprendi que esse tipo de decisão tem que ser tomada em conjunto. Tive que renegociar, dessa vez na presença de mais de 40 comuneros, e explicar tudo com um tradutor de quéchua ao lado. Foi muito gratificante, porque era apenas o começo da minha missão andina e, portanto, a hora certa de aprender como funcionam as coisas na prática.
