Na roda viva do samba
Em Maragojipe, na Bahia, onde está o canteiro de obras de São Roque do Paraguaçu, festas tradicionais cultuam a história e celebram a vida
Agosto é mês de festa no Recôncavo Baiano. Festa para os santos padroeiros de São Roque do Paraguaçu e Maragojipe, festa para Nossa Senhora da Boa Morte, em Cachoeira, festas nas igrejas e nas ruas das cidades. Procissões e cânticos de fiéis católicos mesclam-se ao samba de roda, sobre o qual há referências desde o século 17, relacionadas ao universo dos negros trazidos da África como escravos.
O samba de roda é poesia, ritmo, canto, dança e percussão, marcado pela batida seca das palmas e pelo som do pandeiro, do atabaque, do timbau e da viola. “É uma alegria contagiante”, define Nalva Santos, técnica do núcleo baiano do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em 2004, o Iphan registrou o samba de roda do Recôncavo como “bem imaterial e patrimônio cultural do Brasil”. No ano seguinte, foi reconhecido pela Unesco como obra-prima do patrimônio oral e imaterial da humanidade.
Estimulados pela valorização conquistada, grupos de sambadores estruturaram-se em diversos municípios da região. Em 2007, foi inaugurada a primeira Casa do Samba de Roda do Recôncavo Baiano (Associação dos Sambadores), em Santo Amaro da Purificação, como sede de um movimento de preservação cultural que se multiplicou.
Outras 15 associações já foram criadas em municípios vizinhos, com o apoio de prefeituras locais, do Governo da Bahia e do Iphan. São centros culturais que organizam oficinas de música, palestras e encontros festivos, com o objetivo de manter vivas as tradições da cultura afro-brasileira.
“As instituições que nos apoiam doam instrumentos musicais e fornecem infraestrutura para o funcionamento das unidades”, informa Marli de Santana Santos, sambadeira de 23 anos e articuladora cultural da Casa do Samba de Maragojipe, um dos importantes centros urbanos do Recôncavo.
Em Maragojipe, outra tradição é o desfile de foliões mascarados durante o carnaval. “O dia mal começa e os blocos já estão nas ruas”, descreve Luiz Antonio Santos e Silva, ex-integrante da Braskem no Polo Petroquímico de Camaçari (BA), aposentado desde 2005 e que hoje vive em um sítio em Maragojipe. Ele diz que as máscaras preferidas são as de animais com chifres e caricaturas de políticos. Há registros sobre o carnaval de Maragojipe desde 1897.
Às margens do Paraguaçu
Ó meu Paraguaçu,
Ó meu gigante rio,
Teu nome é parte
Da história do Brasil
(da letra de Rio Paraguaçu, samba de roda de autoria do compositor Mário dos Santos)
O Rio Paraguaçu foi um importante elo entre povoados e vilas dispersos ao longo da Baía de Todos os Santos. A unidade regional não é resultado apenas das características geográficas. Ela baseia-se em aspectos históricos, econômicos e culturais.
“Os engenhos de cana-de-açúcar, até o século 19, e a indústria do tabaco, já no século 20, movimentaram a economia do Recôncavo e tiveram seu período de declínio”, explica Alan Prazeres, historiador e diretor do Centro Estadual de Educação Profissional do Vale do Paraguaçu. Em meados da década de 1950, a extração de petróleo, recém-descoberto na região, plantou esperanças de um renascer.
Hoje, diferentes realidades convivem no Recôncavo. A base da sobrevivência ainda é a agricultura familiar, a pesca nos rios e a mariscagem nos mangues. Mas novas oportunidades de trabalho foram criadas no município de Maragojipe, a partir do distrito de São Roque do Paraguaçu, onde a Odebrecht Engenharia Industrial, participando do Consórcio Rio Paraguaçu, constrói plataformas de petróleo para a Petrobras.
Laços que se estreitam
A algumas dezenas de quilômetros do canteiro de obras da Petrobras está localizada a vila de Maragojipinho. Em ruas estreitas de terra batida, à beira do mangue, enfileiram-se pequenas olarias. Ali, ceramistas transformam o barro em peças utilitárias e objetos decorativos.
Na olaria de Antônio Nazaré são produzidos, semanalmente, dezenas de cofres de barro no tradicional formato de porcos coloridos. “Quase toda a produção é vendida para comerciantes do Rio de Janeiro”, informa. Com 72 anos, Antônio passa o dia entre o torno manual e o forno onde as peças são queimadas. A madeira utilizada para alimentar o fogo é doada pelo Consórcio Rio Paraguaçu à Associação de Ceramistas de Maragojipinho, que reúne 480 artesãos.
A madeira doada é proveniente, entre outras fontes, do material utilizado na montagem de andaimes e na construção de dormentes no canteiro de obras do consórcio. Além de alimentar os fornos das olarias, a madeira é utilizada para a construção de barcos para os pescadores de Maragojipinho, o que estreita os laços do consórcio com a comunidade, em uma ação que tem também motivação ambiental.
Entre os reconhecidos pela originalidade das peças produzidas está o santeiro Rosalvo Santana, que só trabalha sob encomenda e tem santos expostos em museu de Salvador. “Sou formado em contabilidade, mas há 28 anos vivo da produção de santos e presépios. Descobri minha vocação muito cedo e vivo dela”, afirma.
Além de Maragojipinho, uma outra comunidade está inscrita no roteiro da cerâmica do Recôncavo Baiano. É Coqueiros, terra de Dona Cadu, Ricardina Pereira da Silva, 91 anos, que vive e trabalha à beira do Rio Paraguaçu. “Comecei ainda menina e já fiz muita coisa na vida: ajudei meus pais na roça, quebrei brita para construção de casas e fui marisqueira”, conta a artesã, com sorriso aberto.
A cerâmica de Dona Cadu, que depende do sol e do vento para secar e é queimada à maneira indígena, em fornos rústicos, é conhecida fora da Bahia. Ela já expôs e participou de oficinas artísticas em São Paulo e no Paraná.
O poeta de São Roque
Em São Roque do Paraguaçu vive o poeta Salatiel Caldas. Em 5 de agosto, ele completou 100 anos e foi homenageado na sede da Cobepa – Comunidade Beneficente de São Roque do Paraguaçu, instituição que ajudou a criar, há mais de 30 anos, voltada para a educação de crianças e jovens.
Hoje cego por causa da catarata, Salatiel demonstra a vivacidade na voz e na memória, cantando e recitando trovas de sua autoria. “Tenho 2.500 versos e trovas escritos”, conta. “São todos líricos e românticos. É o meu estilo.”
Formado até o antigo curso primário, o poeta tem texto claro e rico na escolha das palavras. Ele começou a escrever aos 12 anos e guarda boa parte de seus trabalhos em cadernos bem conservados. Uma mostra do que produziu está reunida no livro A poesia romântica de Salatiel Caldas (Edições Kouraça, 2007).
A Irmandade da Boa Morte
Em meio a tantas tradições e manifestações culturais, a religiosidade ocupa espaço de destaque no Recôncavo Baiano. Entre as festas religiosas, a da Irmandade da Boa Morte fez história e atrai milhares de turistas para a cidade histórica de Cachoeira.
Nascida nas senzalas dos engenhos de cana-de-açúcar, há 150 anos, a Irmandade é formada por mulheres negras, a mais velha delas com 107 anos, devotas de Nossa Senhora e também dos orixás. Sua festa máxima, em agosto, começa na igreja e segue pelas ruas da cidade, com feijoada, caruru e cozido, além, é claro, do samba de roda.





