Tecendo o futuro
Com seus artesãos, artistas, desportistas e trabalhadores da construção, a comunidade de Curundú transforma esperança e trabalho em uma vida melhor
Não se conhece exatamente a origem da palavra Curundú, mas o que fica evidente é que suas três sílabas, donas de grande sonoridade musical, remetem à violência e à pobreza que afligem esse bairro popular da capital panamenha. Curundú é uma das favelas mais problemáticas da Cidade do Panamá. Padece de condições de vida muito precárias, mas, ao mesmo tempo, é um dos espaços mais festivos da cidade. Em qualquer canto desse comovente lugar, composto de um apertado labirinto de vielas e de precárias casas de madeira, pode aflorar uma festa no momento menos esperado. Em Curundú a vida é celebrada, não importa o quão frágil ela possa ser.
Um exemplo disso foram as comemorações organizadas, há poucos meses, pela própria comunidade, para celebrar o dia da etnia emberá-wounaan, com um festival musical e esportivo, mostras de comidas típicas e de danças indígenas, bem como as festividades desenvolvidas pelos congos – a Temporada Congo –, que duram um mês e terminam na quarta-feira de cinzas.
Embora a violência esteja presente no dia a dia da comunidade, seus habitantes também sabem se organizar contra ela. Grupos civis e religiosos realizam esforços constantes e perseverantes para combatê-la. Recentemente foi organizada uma marcha de jovens contra a violência, que ao desfilar por todo o bairro, foi somando adeptos a cada passo. Foi uma marcha atípica para Curundú, pois não tinha música nem gente dançando nem ambiente festivo. Apoiada por muitas presenças silenciosas, a marcha foi uma maneira de protestar diante da instabilidade nascida com o bairro e, ao mesmo tempo, de reforçar o poderoso espírito comunitário que dá alento a Curundú.
Nesse contexto, um dos trabalhos mais importantes realizados em Curundú é o que visa a reintegrar delinquentes à sociedade, liderado por pastores evangélicos no próprio bairro e dentro das prisões – um trabalho com o qual eles ganharam a confiança e o respeito da comunidade. As conversas constantes, os retiros espirituais e as orientações em grupo contribuíram para manter a coesão social e a esperança de ver dias melhores no bairro. Essa tarefa também tem sido realizada pelas equipes da Odebrecht no projeto que executam para o Ministério da Habitação e do Ordenamento Territorial (Miviot) e que tem a participação de moradores de Curundú que passaram ou passam por esse processo de reintegração social.
Uma história de zinco e madeira
A origem da favela remonta a 1920. Ela nasceu da necessidade de moradia para os operários antilhanos que tinham trabalhado na construção do Canal. A partir de 1945 começou a multiplicação das frágeis habitações e, então, Curundú adquiriu sua identidade. Um remoto censo, feito em 1958, indicou que Curundú tinha 615 moradias e 2.472 habitantes.
Entre 1960 e 1970, o número de habitantes triplicou, atingindo uma das mais altas densidades populacionais no Panamá. Em 17 de novembro de 1971, foi criado o Acordo Municipal que deu origem à Corregedoria, atualmente habitada por cerca de 20 mil pessoas de etnias mais variadas e que compõem uma particular mistura de culturas. As pessoas chegam a Curundú de todos os cantos. Elas vieram e vêm de províncias tão diferentes como Coclé, Colón, Los Santos, Darién e da Comarca Kuna Yala.
Um grupo que se destaca pela sua força cultural são os congos, originários da costa atlântica panamenha. Há anos que em Curundú opera uma ativa e vivaz comunidade de congos urbanos que transmite seus ritos ancestrais, suas danças e canções de modo regular, no local que eles chamam de palenque (quilombo), um território habitado por negros coloniais libertos da escravidão.
No bairro, predomina o comércio informal. Nos intermináveis labirintos de ruelas vendem-se laranjas, broas de milho, peixe frito e os tradicionais bollos de Curundú (pamonhas salgadas), conhecidos e apreciados em toda a cidade. Existe um número crescente de pessoas formadas nas universidades que pertencem à nova geração e que representam em torno de 10% da população do bairro. Alguns foram contratados pela Odebrecht para colocar seus conhecimentos a serviço da própria comunidade.
O esporte é outro símbolo da cultura de Curundú. O ginásio de boxe leva o nome de Pedro “O Roqueiro” Alcázar, um ex-campeão mundial de boxe falecido em plena juventude que, como muitos moradores do bairro, nasceu em Darién, para logo virar curundenho. Além disso, no beisebol, os representantes de Curundú são habituais campeões em torneios metropolitanos nas suas diferentes categorias.
A inclusão da comunidade
O projeto de renovação urbana, realizado pela Odebrecht para o Miviot, abre um amplo leque de esperanças para muitos moradores de Curundú. Julio Lopes Ramos, Diretor de Contrato da Odebrecht, descreve: “O Projeto de Renovação Urbana Curundú é muito mais que uma obra de edificação; é um projeto de vida, no qual a intervenção social valoriza o talento e a capacidade empreendedora dos curundenhos”. Para eles, é o primeiro passo no caminho de uma transformação profunda do bairro. Os novos prédios substituirão os barracos construídos em palafitas sobre terras continuamente inundadas pelo Rio Curundú e beneficiarão mais de mil famílias, que pagarão apenas uma parcela mínima para tornarem-se proprietárias.
A chave desse projeto, entretanto, são os ajustes realizados para incluir socialmente o curundenho no processo de desenvolvimento do país e atender às necessidades da comunidade. Uma das estratégias aplicadas pela Odebrecht tem sido a contratação de trabalhadores locais, que, hoje, representam 80% do efetivo total. Ao se perceber que a maioria não tinha experiência na construção civil, foi necessária a implantação de programas de capacitação e a implantação de uma metodologia executiva para se adequar a essa realidade.
“O Projeto de Renovação Urbana Curundú é muito mais que uma obra de edificação; é um projeto de vida”
Julio Lopes Ramos
Por isso, foi implementado o uso de fôrmas de alumínio para a construção de paredes e lousas de concreto armado, em vez dos habituais blocos de cimento, pilares e vigas. Esse processo facilitou a participação dos curundenhos nas tarefas de construção de suas próprias casas. A ideia central, por trás dessa estratégia, foi dar oportunidades de trabalho aos habitantes de Curundú, sem exigência do atestado de antecedentes criminais aos aspirantes, como forma de romper o círculo vicioso de exclusão dos curundenhos no mercado de trabalho panamenho. Cada pessoa passará a ter um registro de trabalho na construção civil que lhe possibilitará acesso a oportunidades em outros projetos futuros e continuar inserido no mercado profissional. Da mesma forma, a Odebrecht coordenou, com outras empresas, a criação de um Banco de Empregos com dados dos trabalhadores curundenhos, de modo que eles possam aspirar a novas oportunidades de trabalho, não apenas na área da construção, mas também na de serviços.
A madre Mariela Calderón Macias, Diretora da Escola Marie Poussepin, em Curundú, afirma: “Estou muito confiante e tenho grandes expectativas em relação a esse projeto, pelas mudanças que ele está possibilitando. Existe agora a esperança de algo novo e de que tenhamos um Curundú melhor. Estamos a caminho de uma nova cultura cidadã. Mas tem de ser um trabalho de todos”.



