A casa da fiel

  • Ilustração mostra o estádio quando pronto. No canto inferir esquerdo uma montagem insere entre os torcedores o ex-Presidente Lula, corintiano de coração, e o Presidente do clube, Andrés Sanchez, que revela, nesta reportagem, seu desejo de ir para a arquibancada com a Fiel

    Ilustração mostra o estádio quando pronto. No canto inferir esquerdo uma montagem insere entre os torcedores o ex-Presidente Lula, corintiano de coração, e o Presidente do clube, Andrés Sanchez, que revela, nesta reportagem, seu desejo de ir para a arquibancada com a Fiel


texto Julio Cesar Soares / Karolina Gutiez

Após 101 anos de espera, estádio do Corinthians sai do papel e é o escolhido para abrir a Copa do Mundo

A lenda diz que, de maio a setembro de 1910, uma série de reuniões entre cinco operários na esquina das ruas Conêgo Martins e dos Imigrantes, no bairro paulistano do Bom Retiro, sob a luz de lampiões, fez nascer o Sport Club Corinthians Paulista. No dia 1º de setembro daquele mesmo ano, o nascimento foi oficializado com a ata de fundação do clube – “do Brasil, o mais brasileiro”, como entoam seus torcedores, chamados de fiéis, ao cantarem o hino. Daí em diante, são 101 anos de “tradições e glórias mil”: mais de 40 títulos entre campeonatos estaduais, interestaduais, nacionais e o Mundial de Clubes da FIFA, em 2000. Conquistas comemoradas por milhões de “loucos”, como se autodefinem seus seguidores, entre eles alguns dos personagens desta reportagem e a equipe de Odebrecht Informa que a produziu. Mas nunca em território próprio.

A nação alvinegra acalenta há um século o sonho de possuir seu próprio estádio. Hoje sede do clube, o Parque São Jorge acolheu partidas importantes até a década de 1960. Desde então, alguns projetos audaciosos de arenas foram encabeçados por diversos dirigentes do Corinthians, sem sucesso. Enquanto o estádio não saía do papel, o clube alugava (e alugará até o fim da Copa do Mundo de 2014) o Estádio Municipal do Pacaembu, de propriedade da Prefeitura de São Paulo.

O arquiteto Aníbal Coutinho, do escritório Coutinho, Diegues e Cordeiro Arquitetos, tinha um projeto de retrofit para o Pacaembu, ou seja, a sua renovação completa, para que se tornasse a casa definitiva do Timão. A Odebrecht tinha intenções semelhantes, com um projeto sofisticado para o Paulo Machado de Carvalho (nome oficial do estádio), mas o clube não obteve a concessão necessária por parte da Prefeitura. “Aí a relação entre Corinthians, Odebrecht e o escritório de arquitetura já tinha se estabelecido. Fomos atrás das melhores condições para concretizar esse desejo”, conta Luis Paulo Rosenberg, Diretor de Marketing do clube há quatro anos, torcedor do Corinthians desde que nasceu.

 

Bairro está na história do clube

As melhores condições estavam em Itaquera, na Zona Leste da capital paulista, onde se decidiu construir um novo estádio. O bairro faz parte da história do time: o ex-presidente corintiano Vicente Matheus conquistou a cessão da área em 1979, na gestão do então Prefeito Olavo Setúbal. Até pouco tempo, abrigava o centro de treinamento dos juvenis do Corinthians, além de ter sido um local cogitado nos estudos de alguns dos projetos anteriores. “Tentamos um acordo com a Prefeitura para unir os dois escopos do Pacaembu, mas vimos que Itaquera era a melhor opção”, relata Luiz Paulo Rosenberg.

O estádio será construído em uma área de 198 mil m². De formato retangular, terá cobertura de 7 mil t sem, contudo, parecer pesado. “A arena terá leveza, como se estivesse pairando, sustentada pelo ar. Terá monumentalidade”, salienta Rosenberg. A estrutura é vazada de norte a sul; a oeste será construído um prédio que abrigará camarotes, estacionamento e áreas de serviço, entre outras instalações. A leste, na mesma altura que o prédio oeste, ficará uma das arquibancadas. As outras, com altura menor, ficarão atrás dos gols. “São mais de 48 mil assentos ao todo, divididos entre arquibancadas, camarotes e áreas vip”, explica Frederico Barbosa, Gerente de Operações do contrato.

Parte do efetivo de trabalhadores, que contará com 2 mil integrantes no pico dos trabalhos, será do entorno do projeto. “Já iniciamos uma versão do Programa Acreditar e capacitamos 300 pessoas entre ajudantes, carpinteiros, pedreiros e armadores”, informa Frederico.

 

Copa do Mundo de 2014

Durante as negociações para a realização do projeto, o estádio passou a ser aventado para sediar a abertura da Copa do Mundo de 2014. A confirmação pela Fifa foi dada em outubro de 2011, o que exigirá algumas obras, como a elevação do número de assentos para 65 mil, a adaptação da sala de imprensa para receber 5 mil profissionais e a segurança do estádio, que será visitado durante o evento por mais de 30 delegações de chefes de estado. A obra estará concluída em dezembro de 2013.

Segundo estudo realizado pela consultoria Accenture, a abertura da Copa do Mundo 2014, em São Paulo, terá o impacto econômico de R$ 30 bilhões ao longo de 10 anos, em especial na Zona Leste, a mais populosa da cidade e carente de infraestrutura e investimentos. “A Arena será um dos indutores de um processo que irá elevar a qualidade de vida da população da região, pois vai estimular investimentos em obras de mobilidade, a instalação de instituições de ensino e empresas e a consequente geração de oportunidades de trabalho”, argumenta Benedicto Junior, Líder Empresarial da Odebrecht Infraestrutura. “Esse movimento já pode ser verificado com a valorização imobiliária da Zona Leste”, completa Benedicto, “torcedor apaixonado”.

Para Antonio Roberto Gavioli, Diretor de Contrato, o estádio contribuirá para fortalecer a imagem da Organização. “A exposição é enorme. Temos mais de 30 milhões de clientes”, brinca ele, referindo-se ao número de corintianos no país. “Além disso, vamos construir o estádio de abertura da Copa do Mundo de 2014.” Gavioli destaca o orgulho da equipe em participar de uma obra tão importante para a cidade, para o estado e para o país. “É a oportunidade de a Odebrecht atingir camadas da sociedade que antes pouco nos conheciam.”

A assinatura do contrato aconteceu no último dia 3 de setembro, durante as comemorações dos 101 anos do clube. Uma festa com a presença do ex-presidente da República e atual Presidente da República Popular do Corinthians, Luiz Inácio Lula da Silva, marcou o evento, que teve ainda 30 mil torcedores na entrada do canteiro, número digno de um dia de clássico.

Da torcida ao presidente do clube, todos aguardam com ansiedade o novo estádio. “Quero minha casa, quero que esse sonho se torne realidade”, diz Sidnei Beires, de 28 anos. Morador do bairro de Cangaíba, a cerca de 10 km da futura arena, Sidnei é um dos organizadores do encontro mensal realizado na porta da obra: o churrasco em que a entrada é gratuita e cada um leva o que for consumir.

“A ideia surgiu durante um encontro próximo ao Pacaembu, que realizamos há dois anos”, conta Silvio Oliveira, também organizador do evento. “Para vir, basta ser corintiano”, diz. E completa: “Não estamos aqui para apenas acompanhar o andamento da obra, mas para celebrar, para estar perto e fazer parte dessa história”. Tanto Sidnei quanto Silvio imaginam-se no futuro estádio, torcendo pelo Corinthians. Assim como Andrés Sanchez Navarro, Presidente do clube e sócio desde 1969. “Eu quero estar lá com os torcedores, na arquibancada”, vislumbra. E como Benedicto: “Com certeza estarei no estádio no primeiro jogo do Timão e, como outros milhares de loucos, vou olhar com orgulho a grande casa construída em Itaquera”.

 

Um divisor de águas

Ir a qualquer estádio brasileiro é, antes de tudo, uma prova de amor ao clube por parte dos torcedores. A infraestrutura deficiente, o difícil acesso e as poucas opções de lazer antes e depois dos jogos costumam afastar parte da torcida. Para Andrés, o estádio do Corinthians é um divisor de águas no esporte brasileiro. “Será algo impressionante no futebol do país, acima do nível europeu”, assegura o presidente. O ideal do projeto é tornar a ida ao estádio algo prazeroso na vitória ou na derrota. “Queremos ir além do ‘local para ver um jogo’. Dar conforto aos espectadores, acesso fácil e rápido às cadeiras e às dependências do estádio, oferecer outros serviços. Proporcionar ao torcedor uma experiência completa”, destaca Aníbal Coutinho.

Serão telões de alta definição e telas espalhados por todo o estádio, nas lanchonetes, nos sanitários (todas as áreas internas terão ar condicionado) e demais instalações, para garantir que, mesmo longe de sua cadeira, o espectador assista à disputa. “Diferentemente de um jogo de basquete ou beisebol, com longa duração, o futebol tem partidas curtas. Por isso, o torcedor não costuma sair do assento, para não perder nenhum lance. Com o sistema wireless cobrindo todo o estádio, será possível pedir lanches de sua cadeira, pagar com cartão de crédito e recebê-los ali mesmo, sem levantar”, antecipa Aníbal. O arquiteto tem visitado há 20 anos os maiores estádios dos Estados Unidos e da Europa para conhecer suas operações, o funcionamento nos dias de evento e os tipos de gramado.

Toda essa estrutura e essas facilidades vão custar ao clube R$ 820 milhões. Desse valor, R$ 400 milhões serão financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que por decisão do Governo Federal disponibiliza empréstimos de até esse montante para cada cidade que sediar jogos da Copa do Mundo, para uma Sociedade de Propósito Específica (SPE) constituída para desenvolver o projeto. A SPE utilizará o empréstimo do BNDES para custear parte dos investimentos necessários à construção do estádio e esse valor será integralmente pago ao banco com as receitas futuras geradas pela exploração do estádio.

A SPE também será a cotista sênior de um Fundo de Investimento Imobiliário (FII), titular do estádio, que também tem o direito de receber os Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento (CID), incentivos baseados em um mecanismo criado em 2004 pela Prefeitura de São Paulo para estimular investimentos na Zona Leste. Os certificados têm valor equivalente a 60% do investimento total. O investidor que tiver esses certificados poderá utilizá-los como forma de pagamento de ISS (Imposto sobre Serviços) e/ou IPTU (Imposto Predial Territorial Urbano) no município de São Paulo. No caso do estádio do Corinthians, o valor dos CIDs foi limitado a R$ 420 milhões, independentemente do montante final da construção. Os certificados terão validade de até 10 anos. “Outros empreendimentos receberão apoio por meio dos CIDs e, com o estádio, trarão desenvolvimento para a Zona Leste”, explica o Prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, após assinar a lei por meio da qual são concedidos os incentivos fiscais ao projeto, em ato realizado em julho no canteiro de obras. As receitas antecipadas do estádio, incluindo aquelas associadas a patrocínios, poderão ser utilizadas para custear parte dos investimentos, caso as outras fontes não sejam suficientes.

A Odebrecht deu as garantias necessárias para viabilizar o negócio: se faltarem recursos durante a construção, a empresa comprará cotas do FII, para aportar o investimento faltante. O clube também é cotista do fundo.

A criação de um FII é comum no mercado imobiliário, mas inédita no financiamento de arenas. “Buscamos essa solução, pois no Brasil existe a dificuldade de os bancos realizarem empréstimos diretamente a clubes”, explica Felipe Jens, Diretor-Presidente da Odebrecht Investimentos e Participações.

“Há 67 anos a Odebrecht desenvolve, além de grandes projetos de engenharia, soluções de engenharia financeira. E não é sempre que o cliente de um grande projeto de infraestrutura tem os recursos necessários à sua execução disponível no momento da contratação. Embaixo de um braço carregamos a solução de engenharia e, do outro, a da engenharia financeira. Uma não caminha sem a outra”, afirma Felipe, que completa: “Apostamos que o mercado futebolístico vai se desenvolver no Brasil. Começam a circular no mercado financeiro as discussões sobre a eventual abertura de capital dos clubes, e isso envolverá grandes quantias, uma vez que os investidores são também grandes torcedores”.

Nesse novo cenário, o sonho de 101 anos de uma nação com mais de 30 milhões de pessoas está caminhando para se tornar realidade.