A chegada de um dia há muito esperado

  • Dilma Marçal: em setembro, a felicidade de apertar o interruptor e ver a luz se acender

    Dilma Marçal: em setembro, a felicidade de apertar o interruptor e ver a luz se acender


texto Emanuela Sombra
fotos Carlos Júnior

Programa Luz para Todos leva energia a quem antes só podia contar com velas, lamparinas ou geradores movidos a diesel

Zona rural de Jequitaí, município a 400 km de Belo Horizonte: cercada por fazendas de eucaliptos, Dilma Marçal vive em uma pequena propriedade onde cria vacas e produz queijos para vender. As árvores plantadas simetricamente transformam sua casa em um ponto distante no meio de um imenso labirinto, onde a energia elétrica chegou faz pouco tempo. Não há comércio, asfalto ou barulho de trânsito. Não há vizinhos.

Há 33 anos, a agricultora vive em uma residência simples de três cômodos e conta com o básico para sobreviver: um fogão a lenha, uma cama, bancos de madeira, um moedor a manivela e livros na prateleira. Em setembro, teve a felicidade de apertar o interruptor da cozinha e ver a luz se acender onde antes pendurava um candeeiro a gás.  Aos 55 anos, cogita, pela primeira vez, comprar televisão, chuveiro elétrico, geladeira e aparelho de som. “Tudo usado, claro.”

Com a chegada da energia elétrica, a maior felicidade da agricultora não é poder ver a novela ou conservar os alimentos no freezer. Nada disso. “Meu maior prazer é carregar o celular. Não aguentava mais ter que ir até a cidade para fazer isso”, relata, sorrindo e apontando para o interruptor da sala.  O sinal de telefonia chegou antes da luz elétrica na casa da agricultora.

 

Luz para Minas

Realidades como essa vêm sendo transformadas nos rincões da zona rural mineira, pelo trabalho das equipes do programa Luz para Todos, que levam energia a quem antes só podia contar com velas, lamparinas ou geradores movidos a diesel. Em Minas Gerais, o programa do Governo Federal tem parceria com o Governo do Estado e percorrerá um total de 85,5 mil km de rede. Em volume de cabos aplicados, a distância é suficiente para dar cerca de duas voltas e meia em torno da Terra.

Convertida em número de famílias beneficiadas, a imponência da quilometragem ganha contornos sociais: após a conclusão da terceira etapa do programa, em fevereiro de 2012, mais de 285 mil novas ligações elétricas terão sido feitas em Minas Gerais. Na terceira etapa, o Consórcio Luz para Minas – liderado pela Odebrecht Infraestrutura – é um dos responsáveis pelo desafio de acabar com essa exclusão elétrica e levar mais qualidade de vida aos mineiros.

Desde a primeira etapa do programa, em 2005, a Odebrecht participa desse sonho. “Em vez de um único canteiro de obras, temos equipes espalhadas por um estado inteiro”, salienta José Eduardo de Sousa Quintella, Diretor de Contrato do Luz para Minas.

O desafio das equipes começa com a identificação dos futuros beneficiados: residências, igrejas, escolas, comércios ou centros comunitários localizados na zona rural. Após o cadastramento, um estudo logístico é feito nas localidades atendidas. Se o relevo é de montanhas e despenhadeiros, o transporte do material é feito por carro de boi e não de automóvel ou caminhão. Nessas situações, postes de madeira costumam substituir os de concreto, por causa das condições topográficas a região.

Em todas essas situações, os desafios são encarados com entusiasmo. “Nosso trabalho não é colocar um poste de energia próximo da pessoa. É colocar o poste, entrar na casa dela, instalar lâmpada, pontos de tomada”, enumera Quintella, que se emociona ao testemunhar o primeiro contato das famílias com um simples liquidificador ou um aparelho de som.

 

O prazer da companhia do rádio

Raimundo da Costa é uma dessas pessoas. O aposentado de 71 anos lembra-se que o rádio foi o primeiro aparelho que ligou na tomada, há quatro meses, quando uma das equipes do consórcio chegou à sua pequena propriedade rural, em Montes Claros. “Adoro ouvir o noticiário, programas de humor e música”, diz, enquanto põe um CD de moda caipira para tocar.

Pesquisa elaborada pelo Ministério de Minas e Energia mostra que o aparelho de som é o terceiro item eletrônico mais adquirido por moradores da zona rural que passam a ter energia elétrica em casa – 45,4% das famílias compram o item logo que são beneficiadas. O equipamento perde apenas para dois outros bens de consumo eletrônicos muito comuns na casa do brasileiro: a televisão (79,3%) e a geladeira (73,3%).

Superintendente de Planejamento, Estudos e Projeção da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), Ricardo Charbel vem acompanhando de perto as instalações e se comove ao ver a transformação na vida das pessoas. Lembra do aposentado que passou a receber a visita dos netos após comprar uma televisão, da dona de casa que passou a estudar à noite, das mulheres que criaram uma cooperativa de costura…  “Um senhor me relatou a dificuldade de fazer uma compra, pois não tinha o endereço de entrega. Com a conta de luz, ele pode apresentar o comprovante residencial”, lembra.

De acordo com o Ministério de Minas e Energia, a chegada da energia elétrica facilita a integração de programas sociais e permite o acesso a saneamento básico, serviços de saúde e educação. Outro efeito positivo do programa é a contenção do êxodo urbano: desde a implementação do programa, 4,8% das famílias brasileiras vieram residir em locais da zona rural atendidos pelo Luz para Todos.

Foi o que ocorreu com a dona de casa Sara da Fonseca. Após o filho mais velho passar no vestibular da Universidade Federal do Vale do Jequitinhonha, a família mudou-se da Grande Belo Horizonte para a zona rural de Diamantina. “Foi difícil no início. Sabíamos que seríamos atendidos pelo programa, mas passamos alguns meses no escuro até a instalação. Eu sou asmática, e, para usar o nebulizador, tinha que ir até a cidade”.

Há três meses com energia elétrica em casa, Sara comemora. Os aparelhos eletrônicos trazidos da capital mineira – máquina de lavar, computador, chuveiro elétrico e micro-ondas, tão comuns nas residências da classe média – já podem ser utilizados. “Para nós, que tínhamos um bom padrão de vida, passar um tempo sem luz foi perceber que há prazer nas mínimas coisas. Depois do Luz para Todos, acessar a internet ou ver um filme ganhou outro significado.”

Em Minas, o nome do programa é levado à risca. Embora, de acordo com estatística nacional, 90% das famílias atendidas tenham renda inferior a três salários mínimos, o Luz para Todos não discrimina cidades ricas ou pobres. Somente na terceira etapa, 544 municípios mineiros vêm sendo atendidos simultaneamente. “A Odebrecht teve participação muito importante na execução do Programa Luz Para Todos. Em tempo recorde, conseguimos realizar o maior programa de eletrificação rural de toda a história da nossa empresa”, acredita Djalma Bastos de Morais, Presidente da Cemig.