A energia da pecuária
Partes antes inúteis do gado abatido são aproveitadas por um biodigestor instalado em um matadouro no povoado argentino de La Candelária
A Argentina, um dos maiores produtores e exportadores de carne do mundo, vive a experiência de transformar em energia uma parcela antes inútil de componentes do boi. A economia de La Candelaria, povoado da província de Salta, junto à Cordilheira dos Andes e perto do Chile e da Bolívia, gira em torno da pecuária. Os rebanhos de pequenos fazendeiros garantem carne e leite. E mais: de cada animal abatido, são usados os ossos, para adubo; os chifres, para artesanato; e o couro, para sapatos, bolsas, roupas e tapetes. Nesse tranquilo rincão de 2 mil habitantes, a recente novidade é que até o sangue e os órgãos do boi são aproveitados, em vez de descartados: sugados para um biodigestor, transformam-se em gás, gerando energia para uma caldeira aquecer a água do matadouro e economizar eletricidade, sem danos ao meio ambiente.
Passa por La Candelaria um dos gasodutos implantados pela Odebrecht, parte da rede que corta o país de norte a sul, de oeste a leste. Uma unidade compressora do setor norte havia sido instalada a alguns quilômetros da cidade. Com o objetivo de apoiar a comunidade, a Odebrecht formou um grupo de trabalho para instalar um biodigestor de 30 m3 – uma miniusina de biogás. Aprovada a ideia, só faltava definir o local. Optou-se pelo matadouro municipal, cujas condições, então precárias, constituíam um desafio a mais.
“Antes, o matadouro era limitado quanto à higiene e às condições de trabalho”, relembra o recém-reeleito Prefeito de La Candelaria, Julio Romano, 40 anos, no cargo há quatro anos. Ele conta: “Com a reforma das instalações e com a implantação do biodigestor, tudo ficou mais limpo, mais prático, mais seguro”. Em junho deste ano, a nova fase do matadouro foi inaugurada com a presença do Governador de Salta, Juan Manuel Urtuvey.
Inspeção de veterinário
O matadouro funciona em dois dias da semana e abate em média 15 bois por dia. Esse total aumentará, pois cresce a produção de gado na região para abastecer parte dos açougues do sul de Salta e do norte da província vizinha, Tucumán. “Pelo trabalho completo, é cobrada uma taxa de 40 pesos (R$ 20,00) do dono de cada animal abatido”, explica o Gerente Alejandro Melián: “Esse preço inclui a limpeza da carcaça, que fica 24 horas em uma câmara frigorífica antes de seguir para o consumo. Logo será possível abater também cabritos, cordeiros e leitões da região.”
Damián Leal, Ruben Dario Aguilera e Luis Jurado, funcionários do matadouro, estão de acordo quanto aos benefícios da reforma. “Com o biodigestor, é aquecida a água para a limpeza das instalações e para nosso banho após o trabalho”, ressalta Damián. “Antes, a água era fria”, relembra Ruben Dario. “Acabou o mau cheiro do tempo em que os restos do boi eram queimados por aqui”, conta Luis. O veterinário Martin Syan vai de San Miguel de Tucumán a La Candelaria para inspecionar os animais em dias de abate. Ele relata: “O local já melhorou muito, está mais higiênico com o novo piso e com biodigestor. Os animais passaram a ser abatidos com a ajuda de uma descarga elétrica na cabeça, evitando o sofrimento do antigo sistema de facas”.
Maurício Barbosa Peres, Gerente de Administração e Finanças da Odebrecht no projeto de ampliação de gasodutos, recorda o trabalho mantido pela empresa nos últimos anos para instalar dutos, construir compressores ao longo das linhas e apoiar comunidades: “Em 2008, tivemos a ideia de implantar um biodigestor em alguma cidade. Depois de estudos, decidiu-se pelo matadouro de La Candelaria”. A quantidade atual de gás do biodigestor é mínima em relação à imensidão da rede que abastece o país, mas serve de exemplo para outros matadouros da América do Sul: “É um modo de gerar energia e preservar o meio ambiente”.
Guillermo Flanigan, argentino de Buenos Aires, Responsável por Administração da Odebrecht no projeto de ampliação dos gasodutos, explica: “Em La Candelaria, pensamos inicialmente em usar a escola municipal para instalar o biodigestor, mas os técnicos concluíram que o matadouro seria o local ideal, por dispor de produtos para transformação em gás. O sangue e os órgãos teriam grande utilidade. Então, negociamos com o prefeito e com empresas parceiras”.
Jovens engenheiros ambientais
Uma das parceiras é a IBS Córdoba, que escalou três jovens argentinos especialistas em engenharia ambiental – Tomás Portela e Lucas Carissimi, ambos de 27 anos, e Luz María Tebaldi, de 29 – para coordenar os trabalhos de instalação e do biodigestor em La Candelaria. “O matadouro precisava mesmo de uma reforma”, argumenta Tomás. “Em seis meses de trabalho, no início deste ano, tudo ficou pronto”, diz Lucas. A engenheira comenta que foi preparado um Manual de Operação do Biodigestor, entregue ao prefeito e aos funcionários do matadouro. A IBS já festeja a notícia do interesse de empresas do Panamá e da Costa Rica em aplicar esse sistema na América Central.
O processo de La Candelaria teve respaldo de um órgão governamental argentino, o Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (Inta), do qual Alejandro Saavedra, especialista em tecnologias alternativas, é integrante. “Acompanhamos todas as ações e concluímos que esse projeto traz benefícios para a produção pecuária, além de gerar energia limpa e propiciar também o uso de produtos do gado como modalidade de biofertilizante.”
Marina Gonzalez Ugarte, que coordena os programas sociais e de sustentabilidade na Odebrecht Argentina, fez várias viagens de Buenos Aires a La Candelaria ao participar do projeto do biodigestor. Em outubro, ela foi a um almoço oferecido a visitantes pelo Prefeito Julio Romano e sua esposa, Maxima, e verificou o entusiasmo do município com as mudanças ocorridas nos últimos meses. “A comunidade está animada, pode investir mais e melhorar sua qualidade de vida”, salienta Marina.
O prefeito, pequeno produtor rural, leva em conta as conquistas trazidas pelo biodigestor e já idealiza outros meios de La Candelaria gerar empregos. “Temos bom clima, lindas paisagens, ótimo vinho e uma rica culinária. Dá para atrair mais visitantes argentinos e estrangeiros. Empresários italianos já investem por aqui, como fizeram ali na Estancia El Milagro, que, aprimorada, tem hospedado europeus.”
