A energia da pecuária

  • O Prefeito Julio Romano e trabalhadores do matadouro: biodigestor fortalece a economia de La Candelaria

    O Prefeito Julio Romano e trabalhadores do matadouro: biodigestor fortalece a economia de La Candelaria


texto Luiz Carlos Ramos
fotos Holanda Cavalcanti

Partes antes inúteis do gado abatido são aproveitadas por um biodigestor instalado em um matadouro no povoado argentino de La Candelária

A Argentina, um dos maiores produtores e exportadores de carne do mundo, vive a experiência de transformar em energia uma parcela antes inútil de componentes do boi. A economia de La Candelaria, povoado da província de Salta, junto à Cordilheira dos Andes e perto do Chile e da Bolívia, gira em torno da pecuária. Os rebanhos de pequenos fazendeiros garantem carne e leite. E mais: de cada animal abatido, são usados os ossos, para adubo; os chifres, para artesanato; e o couro, para sapatos, bolsas, roupas e tapetes. Nesse tranquilo rincão de 2 mil habitantes, a recente novidade é que até o sangue e os órgãos do boi são aproveitados, em vez de descartados: sugados para um biodigestor, transformam-se em gás, gerando energia para uma caldeira aquecer a água do matadouro e economizar eletricidade, sem danos ao meio ambiente.

Passa por La Candelaria um dos gasodutos implantados pela Odebrecht, parte da rede que corta o país de norte a sul, de oeste a leste. Uma unidade compressora do setor norte havia sido instalada a alguns quilômetros da cidade. Com o objetivo de apoiar a comunidade, a Odebrecht formou um grupo de trabalho para instalar um biodigestor de 30 m3 – uma miniusina de biogás. Aprovada a ideia, só faltava definir o local. Optou-se pelo matadouro municipal, cujas condições, então precárias, constituíam um desafio a mais.

“Antes, o matadouro era limitado quanto à higiene e às condições de trabalho”, relembra o recém-reeleito Prefeito de La Candelaria, Julio Romano, 40 anos, no cargo há quatro anos. Ele conta: “Com a reforma das instalações e com a implantação do biodigestor, tudo ficou mais limpo, mais prático, mais seguro”. Em junho deste ano, a nova fase do matadouro foi inaugurada com a presença do Governador de Salta, Juan Manuel Urtuvey.

 

Inspeção de veterinário

O matadouro funciona em dois dias da semana e abate em média 15 bois por dia. Esse total aumentará, pois cresce a produção de gado na região para abastecer parte dos açougues do sul de Salta e do norte da província vizinha, Tucumán. “Pelo trabalho completo, é cobrada uma taxa de 40 pesos (R$ 20,00) do dono de cada animal abatido”, explica o Gerente Alejandro Melián: “Esse preço inclui a limpeza da carcaça, que fica 24 horas em uma câmara frigorífica antes de seguir para o consumo. Logo será possível abater também cabritos, cordeiros e leitões da região.”

Damián Leal, Ruben Dario Aguilera e Luis Jurado, funcionários do matadouro, estão de acordo quanto aos benefícios da reforma. “Com o biodigestor, é aquecida a água para a limpeza das instalações e para nosso banho após o trabalho”, ressalta Damián. “Antes, a água era fria”, relembra Ruben Dario. “Acabou o mau cheiro do tempo em que os restos do boi eram queimados por aqui”, conta Luis. O veterinário Martin Syan vai de San Miguel de Tucumán a La Candelaria para inspecionar os animais em dias de abate. Ele relata: “O local já melhorou muito, está mais higiênico com o novo piso e com biodigestor. Os animais passaram a ser abatidos com a ajuda de uma descarga elétrica na cabeça, evitando o sofrimento do antigo sistema de facas”.

Maurício Barbosa Peres, Gerente de Administração e Finanças da Odebrecht no projeto de ampliação de gasodutos, recorda o trabalho mantido pela empresa nos últimos anos para instalar dutos, construir compressores ao longo das linhas e apoiar comunidades: “Em 2008, tivemos a ideia de implantar um biodigestor em alguma cidade. Depois de estudos, decidiu-se pelo matadouro de La Candelaria”. A quantidade atual de gás do biodigestor é mínima em relação à imensidão da rede que abastece o país, mas serve de exemplo para outros matadouros da América do Sul: “É um modo de gerar energia e preservar o meio ambiente”.

Guillermo Flanigan, argentino de Buenos Aires, Responsável por Administração da Odebrecht no projeto de ampliação dos gasodutos, explica: “Em La Candelaria, pensamos inicialmente em usar a escola municipal para instalar o biodigestor, mas os técnicos concluíram que o matadouro seria o local ideal, por dispor de produtos para transformação em gás. O sangue e os órgãos teriam grande utilidade. Então, negociamos com o prefeito e com empresas parceiras”.

 

Jovens engenheiros ambientais

Uma das parceiras é a IBS Córdoba, que escalou três jovens argentinos especialistas em engenharia ambiental – Tomás Portela e Lucas Carissimi, ambos de 27 anos, e Luz María Tebaldi, de 29 – para coordenar os trabalhos de instalação e do biodigestor em La Candelaria. “O matadouro precisava mesmo de uma reforma”, argumenta Tomás. “Em seis meses de trabalho, no início deste ano, tudo ficou pronto”, diz Lucas. A engenheira comenta que foi preparado um Manual de Operação do Biodigestor, entregue ao prefeito e aos funcionários do matadouro. A IBS já festeja a notícia do interesse de empresas do Panamá e da Costa Rica em aplicar esse sistema na América Central.

O processo de La Candelaria teve respaldo de um órgão governamental argentino, o Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (Inta), do qual Alejandro Saavedra, especialista em tecnologias alternativas, é integrante. “Acompanhamos todas as ações e concluímos que esse projeto traz benefícios para a produção pecuária, além de gerar energia limpa e propiciar também o uso de produtos do gado como modalidade de biofertilizante.”

Marina Gonzalez Ugarte, que coordena os programas sociais e de sustentabilidade na Odebrecht Argentina, fez várias viagens de Buenos Aires a La Candelaria ao participar do projeto do biodigestor. Em outubro, ela foi a um almoço oferecido a visitantes pelo Prefeito Julio Romano e sua esposa, Maxima, e verificou o entusiasmo do município com as mudanças ocorridas nos últimos meses. “A comunidade está animada, pode investir mais e melhorar sua qualidade de vida”, salienta Marina.

O prefeito, pequeno produtor rural, leva em conta as conquistas trazidas pelo biodigestor e já idealiza outros meios de La Candelaria gerar empregos. “Temos bom clima, lindas paisagens, ótimo vinho e uma rica culinária. Dá para atrair mais visitantes argentinos e estrangeiros. Empresários italianos já investem por aqui, como fizeram ali na Estancia El Milagro, que, aprimorada, tem hospedado europeus.”