Ao encontro do Brasil
Construção da Hidrelétrica Teles Pires, na divisa de Mato Grosso e Pará, tem na logística um grande desafio e inova nas ações de montagem da equipe
Em Salvador, o dia de trabalho começou de madrugada para a equipe da Odebrecht Informa encarregada da primeira reportagem da revista sobre a construção da Usina Hidrelétrica Teles Pires, localizada na divisa dos estados de Mato Grosso e Pará. A viagem teve início em direção a Cuiabá, com escala em Brasília. Chegando à capital matogrossense, mais uma hora e meia em um avião menor até o município de Alta Floresta. Lá, um carro da equipe da obra aguardava para transpor o trecho final de 52 km, metade dele em estrada de terra, para chegar a Paranaíta, cidade de 7 mil habitantes, onde hoje funciona a base administrativa da obra. Já era fim de tarde quando chegamos ao escritório e, logo na primeira conversa, a Responsável por Comunicação no projeto, Ana Paula Silvestre, avisou: “Amanhã temos mais 95 km, mais ou menos duas horas e meia por estrada de terra, para chegar ao canteiro de obras”.
O deslocamento até o local dos trabalhos é apenas um dos muitos desafios para materializar a obra incluída no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal, projetado para uma potência instalada de 1.820 MW (megawatts) e que tem sua primeira unidade de geração prevista para funcionar em 2014. Vencedora do leilão de geração realizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), em dezembro de 2010, a Companhia Hidrelétrica Teles Pires S/A, Sociedade de Propósito Específico constituída pela Neoenergia (50,1%), Eletrobras Furnas (24,5%), Eletrobras Eletrosul (24,5%) e Odebrecht Energia (0,9%), é responsável por construir e operar a usina. A Odebrecht, contratada na modalidade EPC (engenharia, suprimento, construção e montagem), é a empresa encarregada das obras civis e da montagem do empreendimento, que gerará 6 mil oportunidades diretas de trabalho.
A ordem de serviço para instalação do canteiro foi emitida em agosto de 2011, mas o planejamento e a mobilização começaram muito antes. “Em Teles Pires, posso dizer que desde o início da viabilização do projeto até o momento onde estamos hoje, conseguimos cumprir integralmente o que foi planejado”, explica o Diretor do Contrato, Antonio Augusto Santos.
Resultado de um esforço integrado das equipes, ainda em outubro, 200 máquinas – de um total de 265 – já estavam à disposição no pátio da construtora em Paranaíta. Os equipamentos, todos novos, vieram de outros estados do Brasil, da Suécia, da Argentina, dos Estados Unidos e da Alemanha, representando um investimento direto de R$ 152,5 milhões da Odebrecht.
“Além do desafio logístico, o aquecimento do setor de infraestrutura, com a Copa e grandes obras no setor de energia, somado à sobrecarga portuária que o país já enfrentava, dificultou muito todo o processo. No entanto, tivemos êxito fundamentalmente pela competência das equipes que elaboraram e executaram esse planejamento”, relata Antonio Augusto.
Segundo Victor Carvalho Marques, Responsável por Obras Civis, Engenharia e Equipamentos, a decisão de comprar, em vez de alugar, foi estratégica. “Você está longe e tem dificuldade de acesso, então traz equipamentos antigos, começa a ter problemas graves de manutenção e reposição. Com equipamentos novos, a chance de ter o desempenho esperado é muito maior, e o próprio volume de obras em Teles Pires deve depreciar quase metade da vida útil do maquinário”, explica.
Uma cidade no canteiro de obras
Se, por um lado, um dos principais desafios era o de garantir as ferramentas, por outro, estava o de atrair as pessoas certas para o projeto. “Serão 6 mil pessoas no canteiro permanente, todas alojadas. É uma cidade. Vamos construir áreas de lazer como praças e calçadas, espaços verdes, coretos, restaurantes, salão de beleza e outras instalações. Esse é um trabalho de motivação. Queremos dar os meios para que as pessoas vivam bem, se realizem e se desenvolvam por meio do trabalho”, detalha Antonio Augusto.
Por causa do isolamento da obra, um grande obstáculo era o de recrutar profissionais de nível estratégico. Uma das soluções encontradas partiu do próprio Antonio Augusto: “Buscamos identificar as competências e experiência profissional dos cônjuges dos integrantes para aliar esse conhecimento à necessidade do projeto e fazer o convite aos dois”. Os cônjuges não atuam no mesmo programa, em benefício do processo de avaliação e desenvolvimento. Só de recém-casados, são 12 casais na obra. No dia 12 de outubro, a pedido de Odebrecht Informa, todos se reuniram para um jantar, no restaurante predileto do grupo.
Convivência e adaptação
Juliana Lima, 30 anos, há um ano e quatro meses na Organização, é Responsável por Pessoas e Organização nas obras da Usina Teles Pires, onde ingressou ainda na fase de estudo de viabilidade do projeto, em novembro de 2010. Foi também uma das primeiras a chegar a Paranaíta, em janeiro de 2011. Para ela, o maior desafio nesses primeiros meses foi enfrentar a distância da família, principalmente do marido, Alberto Fraga, com quem se casara há seis meses. “Foi uma grande alegria quando surgiu a oportunidade de o Alberto vir para cá”, diz, sem conseguir esconder o brilho no olhar. O engenheiro de pesca de 30 anos, especializado em Engenheira de Segurança, juntou-se à equipe em abril. Desde então, é Responsável por Segurança do Trabalho da Margem Esquerda.
Enquanto a vila residencial no canteiro não fica pronta, o casal, diferentemente de outros colegas na mesma situação, que preferiram alugar casas, divide há três meses um quarto de hotel na pacata cidade. O que parece ser um exercício de convivência para muitos é tarefa fácil para Alberto. “Passei um ano e meio embarcado, durante nove viagens em barcos de pesca. Dividia o espaço com chineses e espanhóis, pessoas que eu nunca tinha visto. Agora, vivo com a minha mulher em um quarto de hotel. É maravilhoso”, diz. “Não dá para comparar!”, acrescenta, em tom de brincadeira, abraçando a esposa Juliana, que confirma. “Ele é muito organizado, e isso facilita as coisas para mim. Estarmos juntos é um fator de motivação.”
Para a engenheira civil Luciane Daltro, 32 anos, Responsável por Custos, e o marido, Alessandro Peixoto, 30 anos, engenheiro sanitarista e ambiental que atua no programa de Meio Ambiente da obra, a vontade de conciliar a vida profissional e o convívio era antiga. Em 10 anos de relacionamento e há três casados, Alessandro trabalhou em Manaus, Belém, na Argentina e em Belo Horizonte e, como se não bastasse, Luciane estava há dois anos em Luanda, trabalhando na Odebrecht Angola.
“Agora tomamos café, almoçamos e jantamos juntos. Estamos dando valor a pequenos detalhes que antes não tínhamos oportunidade de vivenciar juntos”, diz Luciane. Ao seu lado, Alessandro relata que alguns colegas ainda não se adaptaram à vida em uma cidade tão pequena, o que para ele é natural. No entanto, enfatiza que o melhor é não perder de vista o lado positivo dessa experiência e da oportunidade. “Essa mesa grande que você está vendo aqui é comum para a gente. No convívio social, podemos até querer nos afastar das dificuldades da obra, mas não das pessoas. Aos poucos, estamos construindo uma grande família.”



