É muito bom estar aqui

  • Meninos andam de bicicleta no condomínio Cidadão Japuíba: o sentimento das famílias é de recomeço

    Meninos andam de bicicleta no condomínio Cidadão Japuíba: o sentimento das famílias é de recomeço

Moradores de Angra dos Reis que tiveram suas casas destruídas pelos deslizamentos em 2009 recebem suas novas moradias

“Vamos entrando, mas não reparem a desordem, porque ainda estamos arrumando a casa!” Foi assim que Juraci Fátima de Souza, 53 anos, recebeu nossa equipe de reportagem em seu novo apartamento no Condomínio Cidadão Japuíba, em Angra dos Reis (RJ). Ela, o marido Alcenyr Oliveira Lage, 69 anos, e o pai Glicério de Souza, 75 anos, haviam se mudado para o novo lar em 9 de setembro, poucos dias antes da nossa visita. “Recebemos a chave no dia 15 de agosto”, conta Juraci, com alegria.

A família de Juraci foi uma das que sofreram com as chuvas e os deslizamentos de terra ocorridos em 31 de dezembro de 2009 em Angra dos Reis. Ela morava no Morro do Perez, próximo ao centro da cidade. Sua casa não chegou a cair, mas estava em uma área de risco. “Construímos aquela casa com muito esforço, mas tivemos de sair. Nossa vida é muito mais importante. Graças a Deus não tivemos perdas humanas”, diz. Hoje, em um novo ambiente, o sentimento é de recomeço: “Não via a hora de receber meu apartamento. Vamos continuar nossas vidas”.

Problemas de saúde surgidos há cinco anos fizeram com que seu Glicério passasse a usar cadeira de rodas. Ao falar da nova moradia, ele é enfático: “Tudo aqui está ótimo. Estou gostando muito, principalmente de passear”. Alcenyr completa: “No morro, até para fazer as compras do mês dava trabalho, pois tínhamos de subir muitas escadas. Aqui é plano, bem organizado, tem outra estrutura”.

História semelhante é a de Rosineide Maria da Silva, 28 anos. Natural de Recife, ela chegou a Angra dos Reis há cinco anos. Morava no Morro da Cruz com seu marido Antônio Gomes de Oliveira e três filhos. No dia dos deslizamentos, estavam todos dormindo quando o filho mais velho (hoje com 6 anos) foi até o quarto dos pais avisar que a cozinha estava “caindo”. Rosineide relembra: “Corri e vi que a cozinha estava cheia de lama, o fogão e a geladeira estavam destruídos. Foi desesperador”.

Rosineide teve a casa interditada pela Prefeitura e passou, desde então, a morar com a família em uma unidade disponibilizada pelo Programa Recomeçar, também conhecido como “aluguel social”. Esse benefício foi criado pela Prefeitura de Angra para ajudar as famílias que perderam a moradia nos deslizamentos. O valor do auxílio é de um salário mínimo (R$ 545), concedido um por unidade durante até 180 dias. Em 17 de setembro de 2011, Rosineide se mudou para a nova casa, no quarto andar do bloco 1, no mesmo condomínio de Juraci. “Olha, isso aqui é muito bom, viu? Ainda nem acredito que esse apartamento é meu. Estou vivendo um sonho”, diz ela, olhando para os dois filhos mais novos, Vitória, de 1 ano e seis meses, e Vitor, de 3 anos.

 

A eficiência do método construtivo

Segundo a Subsecretaria de Desenvolvimento Urbano de Angra dos Reis, os deslizamentos provocaram a morte de 53 pessoas; mil pessoas ficaram desabrigadas e outras 4.500 foram desalojadas de suas residências por estarem em áreas de risco. Por isso, foi emergencial a ação das autoridades públicas para acolher as pessoas que precisavam de apoio. O primeiro passo foi acomodá-las nos chamados aluguéis sociais. O segundo procedimento foi construir 800 unidades habitacionais o mais rápido possível. Para isso, foi necessária a integração da Prefeitura de Angra dos Reis, da Secretaria de Estado de Obras (Seobras) e do Ministério da Integração Nacional em parceria com a iniciativa privada.

Angra dos Reis tem 365 ilhas em seu litoral, das quais a maior e mais famosa é a Ilha Grande. Turistas do Brasil e do mundo visitam a cidade para conhecê-las. O território da cidade, porém, é constituído predominantemente por morros. “Nossa morfologia não nos oferece áreas propícias o suficiente para a habitação”, diz Cassio Veloso de Abreu, Subsecretário de Desenvolvimento Urbano da cidade. “Cerca de 70% das moradias são irregulares. Com os deslizamentos de 2009, aumentou ainda mais a nossa responsabilidade. Essas 800 unidades habitacionais ainda não são o bastante. Representam apenas o começo de um longo trabalho.”

Para construir as 800 moradias, a Seobras contratou o Consórcio Angra Melhor, formado por Odebrecht Infraestrutura e Bairro Novo, marca da Odebrecht Realizações Imobiliárias (OR) voltada ao segmento econômico. “A emergência da situação levou os integrantes das duas empresas a dialogarem e a apresentarem uma proposta que em pouco tempo pudesse ser colocada em prática”, diz Flávio Donda, Gerente Operacional do projeto.

A Bairro Novo utiliza fôrmas de alumínio, um método que reduz o prazo da execução, otimiza a produção em larga escala e garante um resultado final de qualidade. O passo a passo é o seguinte: primeiramente, são feitos a fundação, o piso inicial e a armação de uma malha de aço, que contém as tubulações hidráulicas, elétricas e telefônicas. Depois, são montadas as fôrmas de alumínio, obedecendo às definições do projeto. Em seguida, vem a concretagem das paredes e da laje superior. Dezesseis horas depois, as fôrmas são retiradas. Esse trabalho é repetido em cada pavimento. Por fim, são feitos os trabalhos de alisamento das paredes, a pintura e os acabamentos necessários.

“Além de ser um método prático, as fôrmas são reutilizáveis e recicláveis, o que evita a utilização de madeira, como nas obras tradicionais. Isso demonstra o caráter sustentável de todo o processo”, diz Marcella Negreiros Guimarães, Gerente de Engenharia e Comercial do consórcio.

Foi necessária a mobilização de pessoas experientes de outras regiões para treinar os integrantes locais. “A cidade não tem uma força de trabalho voltada para a construção civil. Tivemos que treinar os integrantes locais enquanto as obras andavam. Foi uma prática intensa de educação pelo trabalho”, comenta Manoel Cavalcante de Almeida Filho, Gerente Administrativo-Financeiro.

Raul Cerqueira Rezende, engenheiro da Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro (Emop), responsável pela fiscalização das obras, afirma: “Foi um excelente trabalho realizado pelo consórcio, que teve a escassez de tempo como grande desafio”.

Foram construídos três condomínios: o Cidadão Areal, inaugurado em 18 de fevereiro de 2011, com sete blocos e 140 apartamentos; o Cidadão Japuíba, inaugurado em 15 de agosto, com 21 blocos e 420 apartamentos; e o Cidadão Glória, a ser inaugurado, com 12 blocos e 240 unidades. Cada bloco tem cinco pavimentos com quatro unidades por andar. Os apartamentos têm 45,5 m2 e possuem com sala, cozinha, banheiro e dois quartos.

“O desafio foi enorme, mas as equipes conseguiram satisfazer o cliente, por meio do exercício da transversalidade entre as duas empresas da Organização”, avalia André Viana Portela, Diretor de Contrato da Bairro Novo nos Estados do Rio de Janeiro e da Bahia. “A Odebrecht Infraestrutura se destacou pela capacidade de mobilização e de desenvolvimento de projetos, e a Bairro Novo por oferecer uma solução de engenharia capaz de produzir unidades habitacionais dentro do prazo e do custo desejados pelo cliente”, salienta.