Energia: novos paradigmas

Mais importante que os recursos energéticos que o Brasil possui, são o conhecimento e as tecnologias que venham a ser desenvolvidos

Imaginar cenários futuros para a economia e a sociedade sempre foi algo fascinante. Já foi o tempo em que isso era matéria apenas para escritores de ficção científica ou de romances juvenis. Hoje, com o apoio de muitas ferramentas de tecnologia, especialistas das mais variadas áreas a ele se dedicam, porque seu conhecimento é vital para a análise de uma série de investimentos, especialmente em infraestrutura.

Entre os campos da infraestrutura, depois dos recentes e constantes avanços na tecnologia de informação e nas comunicações, o setor de energia será o que mais novidades trará. Elas decorrerão, principalmente, da necessidade de redução do impacto ambiental na produção e no consumo. O mundo hoje tem 7 bilhões de habitantes e, nos próximos 25 anos, esse número aumentará para 9 bilhões – que serão, na maioria, moradores das cidades, e estarão acessando o mercado de energia diretamente. Mantendo a tendência atual, a temperatura média da Terra aumentará de quatro graus centígrados no período em decorrência dos gases emitidos.

As consequências seriam tão nefastas, sobretudo para as economias em desenvolvimento e do hemisfério sul, que algo terá de ser feito para manter esse aumento de temperatura inferior a dois graus centígrados (o que já seria muito). Apesar dos avanços modestos das conferências mundiais sobre o clima, acredita-se que os fatos imporão um novo comportamento aos agentes econômicos e governamentais.

No plano das medidas objetivas, seria essencial, entre outras coisas, haver enorme racionalização do consumo, aumento do peso das energias renováveis na produção, maior uso de gás natural de origem geológica diversa da atual (shale oil), produção mais descentralizada de energia (geração eólica, painéis fotovoltaicos) e toda uma nova concepção das redes de distribuição de eletricidade e gás, associando-se a isso um intenso uso de eletrônica para monitoramento das instalações de consumo (smart- grids). Hoje, cerca de 50% do total da energia consumida é destinada às edificações residenciais, comerciais e industriais. Portanto, esse segmento deve ser a primeira prioridade (melhor iluminação, mais conforto térmico, mais isolantes em relação ao exterior etc.).

Continuará a existir a necessidade da geração de grandes blocos de energia para usos concentrados (especialmente nos processos industriais que hoje absorvem 25% do total da energia) e, nesse campo, formas mais limpas – das energias da biomassa, mas, principalmente, das usinas nucleares, que continuarão a ser necessárias. As perspectivas das tecnologias de captura econômica das emissões de CO2 ainda não aparentam ser competitivas, o que é preocupante perante o enorme consumo da China e da Índia, que se urbanizam e se industrializam aceleradamente e têm no carvão seu principal energético. Mesmo com todo o esforço para economizar os combustíveis fósseis, eles continuarão a desempenhar um grande papel.

No segmento de transporte, responsável por 25% do consumo total de energia, as questões de mobilidade urbana deverão implicar crescentes restrições ao uso de automóveis nas cidades, aumento do número de carros elétricos e do transporte de massa eletrificado nos grandes centros. A utilização de meganavios e uso mais intenso das malhas ferroviárias, conjugados a ganhos crescentes na logística, serão imprescindíveis.

Tudo isso aponta para o crescente aumento no preço da energia, impondo a viabilização de tecnologias mais racionais e eficientes pelo lado do consumo (lâmpadas, geladeiras, aquecedores, aparelhos de condicionamento do ar) e pelo lado da produção. As exigências ambientais estabelecerão custos crescentes de produção – seja no Brasil, onde abundam recursos renováveis, seja no exterior. Os gastos em pesquisa no campo de energia solar e outras formas sustentáveis se ampliarão.

Um novo futuro está a caminho, e temos que encarar as mudanças como oportunidades. Os recursos energéticos que o Brasil possui são importantes, mas, mais importante ainda, será o peso do conhecimento e das tecnologias que venham a se desenvolver.