O caminho do carvão

  • A mina de Moatize, no interior de Moçambique: uma das maiores da África

    A mina de Moatize, no interior de Moçambique: uma das maiores da África


texto João Marcondes
fotos Guilherme Afonso

Em Moçambique, a superação de um desafio de logística e tecnologia envolvendo um produto fundamental para a economia do país

Em agosto de 2011, comboios de trens carregados de carvão cumpriram o trajeto da linha ferroviária Sena-Beira, em Moçambique. O percurso foi realizado por trens da mineradora brasileira Vale, carregados de 35 mil t do produto cada. Depois de desembarcar no porto da cidade de Beira, o carvão foi transportado para navio e exportado para Dubai, nos Emirados Árabes.

À primeira vista, parece um roteiro simples. No entanto, fazer valer essa logística exigiu um trabalho sofisticado do ponto de vista da engenharia. “O que fazemos por aqui pode ser considerado estado da arte em tecnologia”, comenta Paulo Horta, Diretor de Produção da Vale.

Tete é uma cidade no interior de Moçambique. A Vale obteve o direito de explorar uma das maiores minas de carvão da África por 35 anos (a partir de 2007). Não se trata de carvão comum, mas o carvão siderúrgico (coking coal), usado na indústria do aço. É mais valioso e raro que o carvão térmico. A capacidade atual da mina é de 11 milhões de toneladas de carvão (sendo 75% coking, 25% térmico) por ano. Mas há expectativa de dobrar essa produção.

Para a construção da mina de carvão, bem como do porto pelo qual o material será exportado, a principal empresa contratada para as obras civis é a Odebrecht International. Na mina de Moatize, ela faz parte de uma aliança na qual detém 75% da participação na obra (e a Camargo Corrêa tem participação de 25%). No terminal temporário do Cais 8 no Porto de Beira, a obra é da Odebrecht International.

Os números da construção, iniciada em 2008, impressionam: 130 mil m3 de concreto; 535 mil horas de máquinas trabalhando; 140 km de tubulações (apenas para a mina). O Diretor de Contrato da Odebrecht International, Paulo Brito, destaca a sinergia entre as empresas envolvidas. “Nos tornamos um modelo de aliança para a Vale, o que propicia ambiente positivo para novos negócios e novas parcerias”, observa ele, que também enfatiza o salto para o país: “Há grande geração de trabalho associada a uma significativa elevação do consumo”. Osvaldo Adachi, Gerente Geral de Construção da Vale, acrescenta: “Segundo autoridades locais, houve um aumento de 90% no consumo de energia elétrica em Tete. Na cidade, antes quase deserta, vários mercados foram construídos, hotéis erguidos e a frota de automóveis cresceu a olhos vistos.

 

Mudança de local dos lares

A concessão da mina de Moatize, no distrito de Moatize, província de Tete, ocupa uma área de 24 mil hectares. Um dos maiores desafios foi a mudança de local dos lares de mil famílias. Foram construídos dois reassentamentos, com quase mil casas, escolas, feiras, praças, áreas de fazenda e pastagens. Os moçambicanos tiveram acesso aos mais diversificados projetos sociais desenvolvidos pela Odebrecht International e a Vale: campanhas de combate à Aids, prevenção da malária, capacitação profissional, educação ambiental, programas de saúde e inclusão digital.

Um dos mais significativos é o programa Ler +, liderado por Claudia Andrade, Responsável por Programas Sociais, e pelo Analista de Projetos Sociais José Piquitai, moçambicano contratado pela Odebrecht International com larga experiência em organizações não governamentais em seu país. O programa, desenvolvido pela Odebrecht e a Vale, trouxe uma nova e poderosa ferramenta para mais de mil crianças na faixa entre 8 e 12 anos de idade: a leitura (e, consequentemente, a escrita).

“Estamos em uma comunidade onde a tradição oral é muito forte, mas não há o hábito do registro escrito. E falamos de um país que viveu muitos fatos históricos no passado recente”, diz Piquitai. Moçambique conseguiu sua independência de Portugal apenas em 1975 e depois passou por uma guerra civil que durou até 1992. “Há muitas histórias não escritas aqui, mas isso vai mudar. Pretendemos fazer de Moatize um polo cultural. E uma das primeiras narrativas a serem contadas é a trajetória do carvão. Essa será registrada”, ele garante, com orgulho.

 

Cais 8

Depois de embarcado, o carvão cumpre um trajeto de 600 km entre Moatize e Beira, uma das maiores cidades do país, com cerca de 200 mil habitantes. A obra do Cais 8 é complexa por ser ferroviária e portuária. E tem que ser executada em tempo recorde, para estar pronta no fim de 2011. Apesar disso, já possibilitou o carregamento do primeiro navio para exportação de carvão, e o segundo deverá ocorrer em novembro 2011. “Nosso tempo é curto, menos de um ano para realizar a obra, pois o carvão já está sendo extraído em Tete”, diz o Diretor de Contrato da Odebrecht International, o português Nuno Teixeira.

O terminal do Cais 8 terá capacidade de exportação de 6 milhões de t/ano. A obra envolve a construção de pátios ferroviários para trens de 42 vagões e 600 m de comprimento; sistemas de armazenamento e de transporte interno do carvão (com uma capacidade de armazenamento de até 300 mil t); e o cais propriamente dito, através do qual o carvão será embarcado e exportado. “Depois disso, fazemos uma operação de transhipment (mudança da carga de um barco para outro), já em alto mar, pois o porto de Beira é de águas rasas”, explica Francisco Bender, Gerente de Construção da Vale.

O cliente da obra é a estatal Caminhos de Ferro de Moçambique – CFM. A Vale terá direito de uso do porto, com condições específicas. A CFM exigiu que toda a estrutura antiga do terminal fosse desmontada e armazenada para reciclagem ou reutilização em outras obras. Trabalho imenso que durou de outubro, quando a obra foi iniciada, até o fim de novembro de 2010. Só de vagões antigos e danificados pelo tempo, foram 60 unidades desmontadas. “Foi um esforço minucioso”, relata Mário Pelicano, Gerente de Produção. “Nossa atuação envolveu o relacionamento com muitos fornecedores locais”.

Os dias eram corridos em Beira, com sua vista monumental para o Oceano Índico (daí a grande capacidade de exportação para Ásia, mercado altamente aquecido). A Odebrecht International enviou à cidade sua equipe de qualidade de vida e projetos sociais, liderada por Cíntia Santana. Ela esteve atenta, entre outras iniciativas, ao Programa Jovem Parceiro, do qual participaram novos profissionais, como Paulo Jonatan Guesela Mata, 22 anos, formado em Gestão Pública em junho deste ano.

“Quem vê de fora, não consegue acreditar que o trabalho de tantas pessoas diferentes pode resultar em uma coisa única”, diz Paulo Jonatan, sobre o emaranhado de nacionalidades que ocupa a obra. Há filipinos, colombianos, sul-africanos, equatorianos, além, é claro, de brasileiros, portugueses e moçambicanos. “Duvidava que uma obra com tantas nacionalidades diferentes pudesse funcionar de forma tão harmoniosa”.