Aprendendo a separar

  • A professora Marisol Zocca ensina um de seus alunos a descartar o óleo: educação ambiental

    A professora Marisol Zocca ensina um de seus alunos a descartar o óleo: educação ambiental


texto Luciana Lana
fotos Ed Viggiani

Crianças de Mairinque e Limeira, em São Paulo, aprendem a descartar corretamente o óleo usado na cozinha

Pastel, croquete, batata frita. Projetadas em uma sala de aula da Escola Municipal Professor Horácio Ribeiro, em Mairinque (SP), as imagens desses quitutes fazem salivar as boquinhas dos alunos do segundo e terceiro ano do Ensino Fundamental. “Mas para onde vai o óleo usado nessas frituras?”, pergunta Ana Cristina Baião de Andrade, analista de comunicação da Saneaqua, à frente da turma. “Minha mãe guarda no forno para usar depois”, adianta-se Ana Luiza, 8 anos. “A minha também guarda no forno, mas depois põe numa garrafa para eu trazer para a escola”, acrescenta Lediane, 7 anos. “A minha mãe jogava no quintal para matar as formigas que ficavam comendo as plantas dela.” A revelação sincera de Amanda, 7 anos, provoca gargalhada geral na turma. “Coitadas das plantas, se salvam das formigas e morrem com o óleo”, ironiza Gabriel, com toda a sabedoria dos seus 8 anos.

Ana Luiza, Lediane, Amanda, Gabriel e seus colegas aprenderam que 1 litro de óleo polui 1 milhão de litros de água e que isso equivale ao consumo de água de uma pessoa durante 14 anos. Essas e outras informações sobre os prejuízos ao meio ambiente causados pelo despejo incorreto do óleo – nas tubulações hidráulicas ou diretamente na natureza – chegaram aos alunos porque a Escola Municipal Professor Horácio Ribeiro é uma das que participam do Projeto Olho Vivo – Água e Óleo não se Misturam, destaque no programa de sustentabilidade da Foz, empresa da Organização Odebrecht responsável por fornecimento e tratamento da água, coleta e tratamento de esgotos. Em Mairinque (SP), onde a população é de 45 mil habitantes, a Foz detém 70% da Saneaqua, empresa constituída em 2010, em sociedade com a Sabesp, detentora de concessão pública para operar os serviços de água e esgoto na cidade pelos próximos 30 anos.

Ana Cristina de Andrade é responsável pela implantação do Projeto Olho Vivo em Mairinque e já conseguiu a adesão de quase 40 escolas municipais que, além de instruir os alunos, transformaram-se em pontos de coleta de óleo. Ela visita as escolas, distribui material didático, faz sua palestra conscientizando diretamente os alunos e também capacita os professores para que deem continuidade ao projeto. Em menos de quatro meses, foram coletados 800 litros de óleo. A Escola Professor Horácio Ribeiro, com 570 alunos, tem sido campeã na coleta. “Diariamente, de seis a 10 crianças trazem suas garrafas com óleo. Já aconteceu de enchermos dois galões de 20 litros em uma semana”, conta a Diretora Rita Maria Sarti Benatti.

Em Limeira, também no interior de São Paulo, cidade com mais de 290 mil habitantes, onde a coleta de óleo começou a ser feita em escolas municipais por iniciativa do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), os números são ainda mais impactantes: 24 mil litros de óleo foram coletados de janeiro a outubro de 2011. “O crescimento vai se dando aos poucos: no primeiro ano, 2003, foram coletados 1,2 mil litros; em 2007, 8,5 mil litros; em 2010, 13,5 mil litros”, relata Sandra Alves, Responsável pela Comunicação Social da Foz em Limeira. Lá, o nome dado ao projeto pelo Senai – Rio Limpo Começa em Casa – foi mantido após a parceria com a Foz.

Segundo o Secretário de Meio Ambiente de Limeira, Domingos Furgione Filho, não se deve mensurar os resultados apenas pelo que é coletado: “São 24 mil litros que deixam de poluir nossos rios, e isso já é significativo. Mas o projeto vai muito além: essas crianças adquirem consciência em relação a toda a questão ambiental. Elas não apenas coletam óleo como reproduzem as informações que recebem e, assim, perpetuam a preocupação com a natureza. Esse resultado é imensurável. Uma criança consciente significa um futuro melhor”.

A educação ambiental é um aspecto também destacado por Mônica Queiroz, Responsável por Sustentabilidade na Foz. “Além de promover a preservação do meio ambiente, por meio da redução do volume de óleo despejado nos rios, no solo e nas redes de esgoto, esse projeto transfere conhecimentos sobre descarte de resíduos”, diz. Mais de 56 mil pessoas, entre alunos, educadores, autoridades e representantes de organizações comunitárias, já foram sensibilizadas pelo projeto, nas quatro cidades em que foi implantado – além de Mairinque e Limeira, também Rio Claro e Santa Gertrudes, todas no Estado de São Paulo.

 

Geração de renda

Como as sobras do óleo de cozinha podem ser aproveitadas na fabricação de diversos produtos (biodiesel, tintas, massas para vidros, sabão e detergentes, entre outros), o Projeto Olho Vivo – Água e Óleo não se Misturam também tem como resultado a geração de renda, revertida em benefício da comunidade. “A sustentabilidade do projeto está justamente nesse ciclo que integra educação ambiental, preservação e geração de renda”, completa Mônica.

“Além das prefeituras, por meio de suas secretarias de Educação e de Meio Ambiente, o projeto conta com diferentes parceiros em cada cidade. São empresas que fazem a coleta, beneficiam ou vendem o óleo para as indústrias. O retorno, para a comunidade, da renda obtida com a reciclagem do óleo ocorre de forma diferente em cada local”, explica Juliana Calsa, da Foz, uma das idealizadoras do Olho Vivo.

Em Limeira, a cada 2 mil litros coletados, a escola faz o sorteio de um prêmio entre os alunos, e, a cada 6 mil litros, é a escola que ganha um computador ou um bem material em valor equivalente. Em Santa Gertrudes é semelhante, apenas variando as quantidades de óleo coletado. Em Rio Claro, a renda obtida é administrada pelas associações de pais e mestres. Em Mairinque, os recursos são doados a comunidades carentes e também há sorteio de prêmios nas escolas.

Juliana Calsa, que trabalhava na área de comunicação da Foz em Rio Claro, identificou a carência de projetos estruturados de educação ambiental que agregassem valor e conhecimento às comunidades na região. “Comprovado que o óleo de cozinha é um dos principais poluidores dos rios e lagos, resolvemos lançar esse projeto, inicialmente em Rio Claro, para promover tanto a coleta quanto a conscientização em relação ao descarte”, ela informa.

De acordo com Juliana, a criança é um dos mais eficientes vetores para qualquer projeto de difusão de conhecimento. “É muito difícil conscientizar o adulto. Já as crianças assimilam com facilidade as mensagens sobre preservação ambiental e as repercutem. A criança induz seus pais à mudança de comportamento.”

Mais que isso, as crianças até mesmo fiscalizam os adultos. Alunas do 4º ano do Ensino Fundamental, da Escola Municipal Major José Levy Sobrinho, em Limeira, Caroline e Jacqueline, ambas de 9 anos, comentam que já flagraram uma vendedora de pastéis levando a frigideira cheia de óleo até um bueiro. A reação imediata – “A gente gritou bem alto: Paaaara!” – mostra que, de fato, elas estão de olho vivo.