Caro amigo babaçu

  • Passagem sobre igarapé feita com babaçu: valorização e aproveitamento de recursos naturais da região

    Passagem sobre igarapé feita com babaçu: valorização e aproveitamento de recursos naturais da região


texto João Marcondes
fotos Holanda Cavalcanti

Nas obras da base de lançamento de foguetes de Alcântara, no Maranhão, uma ideia criativa ajuda a solucionar desafios e a recompor a paisagem natural da região

O planeta Terra realiza dois tipos de movimento: a translação, elíptico em volta do Sol, e a rotação, em torno de seu próprio eixo. A lição é muito conhecida, ensinada na escola, nos primeiros anos da educação formal brasileira. Pois é justamente o movimento de rotação e a proximidade com a linha do Equador que fazem de Alcântara, pequena cidade à beira da Baía de São Marcos, no Maranhão, um dos principais pontos do mundo para o lançamento de foguetes e satélites.

O município está localizado muito próximo à linha do Equador, e isso permite ao veículo lançador utilizar de forma mais eficiente o movimento de rotação da Terra para executar seu trabalho. Simplificando, pode-se dizer que ele “aproveita” esse movimento, em razão da localização privilegiada da base. Isso possibilita uma economia de até 30% do caríssimo combustível utilizado. Por esse motivo, os foguetes têm maior capacidade de carga útil em comparação àqueles lançados nos centros mais afastados da linha do Equador. “É uma grande vantagem que pode colocar o Brasil em destaque no aquecido mercado mundial de lançamento de satélites”, comenta Clóvis Costa, Gerente de Produção da Odebrecht.

Em Alcântara, está sendo construída uma das bases de lançamento mais avançadas do mundo. Com ela, o Brasil entrará para um seleto grupo de oito países com esse tipo de tecnologia e instalações, colocando-se entre os 15 centros de lançamento em operação no mundo. A Odebrecht Infraestrutura está realizando as obras civis e a montagem, participando do Consórcio Cyclone 4, ao lado da Camargo Corrêa e das empresas ucranianas Elkor Corporation e Concord Group. O cliente da obra é binacional, a Alcântara Cyclone Space, uma parceria entre os governos do Brasil e da Ucrânia.

O nome Cyclone vem do foguete que será utilizado nos lançamentos, o Cyclone 4 – quarta série da família de foguetes que atualmente está sendo desenvolvida na Ucrânia. Considerada uma das mais seguras e eficazes do mundo (lança satélites até a órbita geoestacionária), a série Cyclone tem o impressionante recorde de apenas seis falhas de posicionamento na órbita desejada em 226 lançamentos até hoje. Apenas outras sete nações detêm a tecnologia de propulsão similar e seus centros de lançamento: Estados Unidos, Rússia, Índia, China, França, Japão e Cazaquistão.

Para a construção da base, iniciada em 2011, foi necessária a supressão de uma área de vegetação de cerca de 100 hectares. Nesse espaço, estará localizada toda a infraestrutura necessária ao preparo e lançamento: áreas de estoque de combustíveis e de montagem e acoplagem de foguetes e satélites. Um trilho de ferro de aproximadamente 800 m que levará o foguete para a área de lançamento propriamente dita.

 

Babaçu e sustentabilidade

A vegetação predominante na área é o babaçu, uma espécie de palmeira, da qual são retirados o óleo e a palha. Será realizado um replantio ostensivo da mata em outra região. Mas o que fazer com a madeira retirada (que não é de alto valor comercial) e que normalmente seria descartada?

A partir de uma ideia criativa do Gerente de Produção Clóvis Costa e sua equipe, o Consórcio Cyclone 4 conseguiu criar um ciclo sustentável para o babaçu, que foi reintegrado à paisagem natural, tornando possível a preservação da identidade visual maranhense em um município de importância histórica como Alcântara, ocupado pela primeira vez no século XVII, pelos franceses.

Uma das mais belas praias da região é a da Baronesa. Por causa do avanço da maré, a única passagem para esse santuário ecológico começou a ruir, praticamente fechando qualquer travessia terrestre. A estrada ficava cada vez mais estreita. O Consórcio Cyclone 4 construiu um talude (plano inclinado que limita um aterro), utilizando o babaçu para a contenção, e alargou a estrada. Além da palmeira, foi usada também uma manta porosa geotêxtil. Essa tecnologia permite que a água do mar bata e volte sem danificar a encosta.

A obra foi essencial para a sustentabilidade da comunidade local. O pescador Luiz Santana Cantanhêde, 51 anos, corria o risco de ter sua atividade encerrada por causa do fim iminente da passagem. “Agora posso continuar minha pesca, além de outras atividades, como levar turistas para o outro lado da margem, onde há uma praia muito bonita”, diz. “O mais interessante é que respeitamos a identidade visual da região. A contenção com babaçu é confortável para os olhos, pois não destoa da paisagem”, acrescenta Coriolano Bahia, Gerente Administrativo da Odebrecht.

Da forma como foi colocado o talude, até mesmo veículos maiores, como micro-ônibus, podem passar por ali. Quem também se beneficiou com a solução foi Lincoln Salles, 33 anos, dono da Pousada dos Guarás, uma pequena pérola próxima ao mar e ao mangue, onde o hóspede desfruta do melhor suco de bacuri da região. A pousada simplesmente ficaria isolada do mundo. A passagem estreita já não possibilitava sequer o trânsito dos fornecedores de alimentos. Mas a situação mudou. “Foi uma solução ambiental, que respeita a vegetação daqui. Um exemplo que poderia ser seguido pelas autoridades”, destaca Lincoln.

 

Ponte de babaçu

Comunidade e turistas de Alcântara não foram os únicos a saírem ganhando com as soluções sustentáveis do babaçu. Clóvis Costa usou a mesma técnica dentro da própria obra. Ele criou uma ponte (uma passagem rente ao chão) em cima de um Igarapé com a palmeira local. A ponte liga os lados leste e oeste da obra. Antes da ponte, os caminhões e veículos eram obrigados a percorrer uma distância de 12 km para chegar de um lado a outro do projeto.

A passagem de babaçu é uma solução inédita e ecológica. Ela não atrapalha o fluxo da água, que atravessa a madeira e mantém as características daquele ecossistema. E mais: com a diminuição do percurso, reduz drasticamente a emissão de gases do maquinário da obra.

Clóvis fez as contas. Cada caminhão-basculante gastava 3,8 litros de combustível para percorrer a distância entre o canteiro administrativo e o canteiro industrial. Hoje, o consumo é de apenas 0,63 litro. A natureza agradece. O babaçu também foi utilizado na paliçada que protege a central de concreto, novamente valorizando a linguagem visual da região. “Em uma obra de alta tecnologia como esta, vale destacar essa solução simples e inteligente”, elogia Fábio Toscano, Diretor de Contrato da Odebrecht.

 

Vocação histórica

A utilização do babaçu não representa apenas uma ação de sustentabilidade para o meio ambiente. Ela também contribui para a preservação da cultura local. “Os missionários franceses, no século XVII, já documentavam a utilização do babaçu pelos índios que habitavam a região”, ensina o historiador Daniel Rincón Caires, do Museu Casa Histórica de Alcântara. Os franceses foram expulsos pelos portugueses, que construíram um dos mais belos conjuntos de igrejas, pátios e casario colonial adornado de azulejos do país. O lugar serviu de pouso para imperadores (o nome da cidade vem do sobrenome da família real brasileira) e nobres. Além disso, a cidade sempre teve vocação para estratégias militares. Foi base dos aliados na Segunda Grande Guerra e já possui uma base de lançamento de foguetes da Aeronáutica.

Uma família, Guimarães, tornou-se símbolo da cidade ao longo dos séculos, construindo riqueza com o comércio. O último Guimarães vivo que morou no casarão onde hoje fica a Casa Histórica de Alcântara é Hedimar Guimarães Marques, 84 anos. Ele não gostava dos hábitos rebuscados de nobreza de sua família e fugiu de casa para ser intérprete de soldados norte-americanos. A experiência fez com que se lançasse a uma aventura pela Europa nos anos 1940 e 1950, onde trabalhou até mesmo de modelo fotográfico. “Hoje vemos um mundo globalizado até mesmo aqui em Alcântara, mas eu antecipei essa tendência”, ele garante, orgulhoso.