Diretrizes da harmonia
Felipe Cruz: “Voltei para a Odebrecht com um sonho novo: contribuir para transformar cada um dos nossos empreendimentos em um indutor de desenvolvimento sustentável na microrregião de sua implantação, um legítimo vetor gerador de prosperidade. Não podemos e nem devemos substituir o papel do Estado, mas ainda temos muito a fazer para criar ações estruturantes, coerentes com nossos valores filosóficos, capazes de fortalecer nossa diferenciação como Organização”.
O arquiteto Felipe Cruz, hoje responsável pela implantação do Polo Agroindustrial de Capanda, em Angola, em execução pela Odebrecht, inspirou-se nas ações da Fundação Odebrecht no Baixo Sul da Bahia para alicerçar sua atuação na área de Desenvolvimento Sustentável. Durante cinco anos, dedicou-se ao Instituto de Hospitalidade, criando projetos em articulação com entidades ambientalistas, sociais, empresariais e governamentais. Na Odebrecht, vem contribuindo para a elaboração de políticas e diretrizes de sustentabilidade. Nessa frente, ajudou a constituir uma comunidade do conhecimento e, em parceria com a Fundação Dom Cabral, um programa de formação de líderes. Ele também apoiou diversos contratos que buscavam a convergência entre interesses específicos dos seus negócios e as práticas sustentáveis, idealizando projetos estruturantes no entorno das obras. Nesta entrevista, Felipe Cruz fala sobre os desafios da sustentabilidade para as organizações empresariais e para a criação de novos modelos de desenvolvimento.
Odebrecht Informa – Como o paradigma da sustentabilidade evoluiu nas organizações e na sociedade?
Felipe Cruz – O tema da sustentabilidade surgiu em decorrência da preocupação com o meio ambiente e, aos poucos, incorporou novas dimensões. A dimensão social chegou com força nos anos 1990, quando surgiu uma visão mais geral sobre como fazer para vivermos hoje sem prejudicar a vida dos que virão amanhã. No passado, existiam dois opostos: haviam aqueles que pretendiam usar os recursos naturais como se fossem inesgotáveis e os que defendiam que não deveria haver mais desenvolvimento, entendendo que a situação ambiental tinha se tornado insustentável. A evolução começou com concessões, na base de compensações: para construir uma hidrelétrica em um determinado local, era exigida em troca a criação de uma reserva legal de “x” hectares. Depois, os países começaram a perceber a necessidade de gerir os recursos naturais, porque são finitos.
OI – E depois disso?
Felipe – Vieram, então, a evolução legislativa e as entidades legais de monitoração. Essa realidade impôs certos cuidados às empresas e obrigou-as a buscar conhecimentos sobre como lidar com o tema. Hoje, entendo que já entramos na fase do desenvolvimento sustentado. Já está estabelecida uma macroestrutura mental nos governos, na sociedade e nas empresas, em que o único caminho é o desenvolvimento sustentável. O conhecimento existe, mas estamos muito distantes da aplicação em larga escala.
OI – Como a Odebrecht consegue conciliar sustentabilidade e crescimento em negócios que, por natureza, têm o potencial de gerar impactos socioambientais?
Felipe – O desenvolvimento sustentável é parte do negócio da Odebrecht e fator de competitividade. Espera-se que nossos empreendimentos realizem todo o potencial de resultados de que sejam capazes, para clientes, acionistas, comunidades, integrantes e parceiros. A nossa cultura fala de sobreviver, crescer e perpetuar. Perpetuidade só é possível em um ambiente de desenvolvimento sustentável. Na Odebrecht, a preocupação com a sustentabilidade está presente desde o momento em que se começa a pensar em um projeto, na sua viabilidade. De outro lado existe o processo: às vezes, mudar o traçado de uma estrada entre dois pontos pode significar menos área desmatada, menos pessoas afetadas, menos impacto ambiental. Depois, temos a fase da execução, que envolve diversos cuidados, como tratar adequadamente os resíduos que geramos.
OI – Em 2010, a Organização produziu um inventário de emissões de gases de efeito estufa. Qual a importância disso?
Felipe – O inventário é a base para compreender como é composta a nossa “pegada ecológica”. A partir disso, podemos estabelecer mudanças em processos executivos e hábitos para minimizar nossos impactos.
OI – Quando é necessário lidar com as exigências e a pressão por prazos vindas dos clientes, como assegurar a prevalência de uma atuação sustentável?
Felipe – Apesar da pressão do prazo, o cliente lida com as mesmas preocupações, pois também é monitorado. A maioria das entidades financeiras, atualmente, aderiu aos Princípios do Equador, que têm regras muito rígidas e definições claras sobre questões ambientais e sociais. Há também a vigilância da sociedade. Portanto, servir adequadamente aos clientes neste século exige integrar a sustentabilidade na equação da produtividade. Veja o caso do aproveitamento hidrelétrico do Rio Madeira, em Rondônia. Seria mais econômico fazer apenas um barramento. Entretanto, propusemos a construção de dois, para reduzir a área alagada e, consequentemente, a área desmatada e o deslocamento de populações. A outra solução não passaria nos critérios de avaliação da maioria das entidades de financiamento ou não resistiria à percepção da sociedade.
OI – Na Odebrecht, qual é o principal foco das iniciativas voltadas para a sustentabilidade?
Felipe – O foco principal é o ser humano. Entendemos que o maior agente da degradação do meio ambiente tem sido as pessoas, já que ele não se deteriora por si só. Por isso, é preciso criar alternativas de desenvolvimento sustentável. O meio ambiente tem de ser cuidado, nas nossas atividades, de forma natural. A questão social é mais complexa. Tempos atrás, os ambientalistas diziam que o mundo estava prestes a acabar por causa da destruição da camada de ozônio. Eu acho que o mundo pode acabar muito mais em consequência de um colapso social que pelo ambiental, até porque há tanta pesquisa que, em algum momento, será inventada uma planta capaz de ajudar a limpar o ambiente. Se fosse possível isolar as questões, consideraria a parte ambiental mais tecnológica e legal, em termos de soluções. O social é mobilização, articulação, educação, é trabalho de longo prazo. Trata-se de um processo humano, mais lento. Tudo é prioritário, mas pouco adiantará termos um arcabouço legal adequado e soluções técnicas possíveis se as necessidades básicas humanas não estiverem resolvidas. Portanto, o grande desafio dos empresários não é criar iniciativas voltadas à sustentabiliade, mas, sim, incorporar práticas sustentáveis nas organizações, fazer com que a sustentabilidade esteja no quadro mental referencial de criação dos negócios. Hoje está claro que sustentabilidade e desenvolvimento fazem parte do mesmo lado da equação.
OI – Muitos países atingiram altos patamares de desenvolvimento degradando o ambiente. Como viabilizar o crescimento dos países menos desenvolvidos diante dos protocolos que restringem as emissões de gases e uma série de outras condições limitadoras?
Felipe – Os países em crescimento têm a oportunidade de criar modelos de desenvolvimento adequados à realidade de cada um e utilizar o conhecimento existente em bases sustentáveis. Um aeroporto novo é, em geral, muito melhor que um antigo, independentemente de onde esteja, só pelo fato de incorporar o conhecimento mais atual. Com o desenvolvimento acontece o mesmo, ou seja, pode-se partir de modelos mais modernos e melhores. A Amazônia, por exemplo, é vista como o pulmão do mundo, o que não significa que deva ficar intocada. A medicina tradicional pode ser um grande polo de desenvolvimento da região. Além de ser a base da medicina moderna, favoreceria, ao mesmo tempo, a geração de renda, o desenvolvimento científico e a conservação da área. O segredo está em encontrar caminhos de desenvolvimento coerentes com as caracerísticas de cada território. Mas existem outros aspectos a considerar, como a cultura consumista em que estamos inseridos e o ineficaz modelo de transporte público, entre outros fatores que pressionam o sistema socioambiental urbano. O conhecimento mostra que o caminho do desenvolvimento sustentável é o único viável a longo prazo, mas exige uma enorme capacidade de mobilização e articulação da sociedade.
OI – Que projetos socioambientais você destacaria como exemplos da atuação da Odebrecht na área de sustentabilidade?
Felipe – No Brasil, destaco a obra da Hidrelétrica Santo Antônio, em Rondônia, desde a sua concepção, com dois aproveitamentos e a redução do desmatamento, até o trabalho de reassentamento de populações, o resgate de fauna, o tratamento de resíduos e o Programa Acreditar, que, juntos, revelam o conhecimento, a maturidade e a habilidade das equipes envolvidas nesse projeto para a articulação com os diversos públicos da região. No Peru, em ações absolutamente convergentes e fundamentais para o êxito da obra da Rodovia IIRSA Sul, os trabalhos com as comunidades de entorno envolvem, de maneira muito eficaz, a combinação de ações de conservação com a geração de oportunidades de trabalho e renda, sendo ainda destaque no fortalecimento da governança local e na articulação com outros atores, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Corporação Andina de Fomento (CAF), entidades ambientalistas como Conservation International (CI) e Pronaturaleza, associações empresariais e Governos. Em Angola, em preparação para a implantação do Polo Agroindustrial de Capanda, o Programa Kulonga Pala Kukula é destaque em uma região de baixo nível de qualidade de vida, com sua ação tríplice em melhoria da dieta alimentar, saúde e geração de renda, mediante a ativação de um programa de produção e comercialização de hortícolas. Na Braskem, destaco a criação do “plástico verde” e os caminhos que se abrem nessa perspectiva. De maneira similar, a ETH Bioenergia tem iniciativas muito intrínsecas ao negócio, como a conservação de corredores de biodiversidade, propiciada pelo manejo adequado das áreas de cultivo da cana.
OI – Que desafios empresas como a Odebrecht enfrentam nessa área?
Felipe – O primeiro grande desafio é a percepção da convergência abrangente de interesses entre seus negócios, a sociedade e o meio ambiente, e como integrar sustentabilidade à sua eficácia e à eficiência empresarial. Sair da lógica de que sustentabilidade é elemento de custo. Nesse aspecto, cada negócio terá um caminho, e o segundo grande desafio é a formação de profissionais de conhecimento que adquiram a perspectiva empresarial, já que até bem pouco tempo se tratava de um tema conflituoso, como se de um lado estivessem os guardiães da sociedade e do meio ambiente e, do outro, as empresas destruidoras. Atualmente, a convergência de interesses é a pauta, e quem encontrar mais cedo seu caminho ganhará espaços. Quando voltei para a Odebrecht, em 2006, após cinco anos de trabalho no Instituto de Hospitalidade, tinha um novo sonho: contribuir para transformar cada um dos nossos empreendimentos em um indutor de desenvolvimento sustentável na microrregião de sua implantação, um legítimo vetor gerador de prosperidade. Não podemos nem devemos substituir o papel do Estado, mas ainda temos muito a fazer para criar ações estruturantes, coerentes com nossos valores filosóficos, capazes de fortalecer nossa diferenciação como Organização.
OI – Como a Odebrecht transmite sua mensagem na relação com as pessoas, com os Estados e com as entidades financiadoras?
Felipe – A imagem de uma empresa é consequência do que ela é verdadeiramente. Isso não se mostra em teoria, só na prática. É algo que surge com a atuação e, em nosso caso, isso significa na prática nos canteiros. Em cada nova obra, criamos instrumentos com esse objetivo, como centros de formação, campanhas e jornais informativos. Também percebemos que a oportunidade de trabalho é o grande aferidor do que se pode oferecer em um determinado local. Nossa política passa por contratar profissionais nos locais em que trabalhamos, e não carregar pessoas de um lado para o outro. No fim do dia, o integrante volta para casa e para o convívio da família. Aí temos um trabalhador mais feliz, o que significa menor turnover. Não é uma questão de bondade ou assistencialismo, mas de eficiência. Isso só se vê na prática, não se explica. Com os Estados, temos participações institucionais em fóruns de discussões e em movimentos da sociedade na busca do estabelecimento de políticas públicas que favoreçam o desenvolvimento em bases sustentáveis. Com os bancos e agências multilaterais, há uma permanente interação pelas necessidades das nossas agendas de negócio. Esse conjunto de interações define a comunicação com os nossos diversos públicos e, consequentemente, a nossa imagem.
