Histórias Reais
Em Teles Pires, na Amazônia, programas como o Expedicionários da Saúde permitem integração e troca de experiências
Um grande projeto hidrelétrico em plena Amazônia. Um canteiro de obras em área isolada do Brasil profundo. O desafio de formar trabalhadores locais, assegurar condições para que eles se sintam realizados, felizes em seu dia a dia, integrados à realidade da região onde vivem e conscicentes da riqueza e da delicadeza do ecossistema no qual atuam. Sustentabilidade. Nenhum conceito é mais forte que esse na construção da Hidrelétrica Teles Pires, na divisa do Mato Grosso com o Pará.
Parte fundamental do projeto, uma nova ponte ligará, a partir de janeiro de 2012, o norte de Mato Grosso ao sul do Pará. As chuvas de verão não abalam as equipes de trabalho nas duas margens do Rio Teles Pires, onde vai surgir, até o fim de 2014, uma das maiores e mais modernas usinas hidrelétricas do Brasil. Com a conclusão da ponte, será possível transportar máquinas e material para o lado paraense e acelerar as obras da barragem.
No meio da floresta, já está quase pronto o alojamento do canteiro de obras definitivo, verdadeira cidade que acolherá até 6 mil pessoas. Inovações tecnológicas e de segurança na busca de energia convivem com a meta de se preservar a cultura local e a mata. Nas obras conduzidas pela Odebrecht Energia para a Sociedade de Propósito Específico (SPE) Companhia Hidrelétrica Teles Pires S/A, o desenvolvimento ocorre em fina sintonia com a sustentabilidade.
Projetada para chegar à capacidade instalada de 1.820 MW (megawatts), essa usina, que teve sua construção iniciada em agosto de 2011, é a maior entre as quatro hidrelétricas previstas para o complexo do Rio Teles Pires, também conhecido como Rio São Manuel, afluente do Tapajós. O consórcio que venceu o leilão na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para operar essa unidade tem participação da Neoenergia (50,1%), Eletrobras Furnas (24,5%), Eletrobras Eletrosul (24,5%) e Odebrecht Energia (0,9%). A obra está incluída no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal. Por meio de uma linha de transmissão conectada ao sistema brasileiro, a energia gerada será útil não só para a Amazônia e o Norte, mas também para as demais regiões do país.
Programa Acreditar
Como é possível levar adiante uma obra dessas dimensões no chamado Brasil profundo, longe das cidades grandes e médias? Como atrair trabalhadores e estimulá-los a erguer um gigante de concreto na floresta? O Diretor de Contrato Antonio Augusto de Castro Santos, 40 anos, explica: “Inicialmente, fizemos uma base em Paranaíta, cidade de 7 mil habitantes, em Mato Grosso, unida ao local da barragem por uma estrada de terra de 95 km. Mas logo instalamos um canteiro provisório e estamos concluindo um definitivo, perto do rio”. Ele acrescenta: “O pessoal técnico veio de várias regiões, assim como uma parte dos integrantes das equipes. Mas nossa prioridade é integrar trabalhadores locais, treinados no Programa Acreditar”.
O Programa de Qualificação Profissional Continuada – Acreditar, lançado pela Odebrecht em 2008 nas obras da Usina Hidrelétrica Santo Antônio, em Rondônia, e levado a vários outros empreendimentos da Organização, foi desenvolvido, de fevereiro a outubro, em Paranaíta, com o apoio do Senai (Serviço Nacional e Aprendizagem Industrial) do município de Sinop. “Convocamos os moradores de Alta Floresta, Paranaíta e outros municípios de Mato Grosso interessados em participar da obra”, conta Juliana Lima, Responsável por Pessoas e Organização em Teles Pires. Nesse período, 2.092 pessoas cursaram o módulo básico e 667 terminaram o módulo técnico, em que aprenderam as funções de armador, soldador, carpinteiro, pedreiro e operador de máquinas.
Em 10 de junho, o Governador de Mato Grosso, Silval Barbosa, esteve na festa de entrega dos primeiros certificados: 823 para os que concluíram o módulo básico e 118 para os que terminaram o módulo técnico. Até novembro, 278 membros do Acreditar já haviam sido contratados e integrados à obra, destaca Juliana: “A comunidade se animou com esse programa, pois muita gente da região conquistou oportunidade de trabalho e garantiu condições para evoluir”.
Edmar Soares, 29 anos, encarregado de produção de armação de ferragem nas obras da ponte sobre o Rio Teles Pires, passou da condição de instrutor do Acreditar à de contratado da Odebrecht. “Estou feliz aqui. Nasci em Paranaíta, mas morava em Sinop e trabalhava no Senai. E o Senai me mandou para minha cidade, sem saber que eu era de lá! No Acreditar, ajudei a formar profissionais que estão na obra”, diz Edmar. “No fim das aulas, fui chamado para fazer parte da equipe do Ceará.”
Ceará é o apelido de José Wilmar Cid. Ele é o encarregado das obras civis na construção da ponte e acompanha a montagem e a concretagem das duas bases. “Edmar foi útil no Acreditar e agora está com a gente”, comenta Ceará, que, em setembro, no Dia da Árvore, plantou uma muda de jatobá perto do canteiro de armação de ferragens. “Quando eu tinha 16 anos e era pobre, uma árvore de jatobá, com seus frutos, me salvou de morrer de fome. Hoje, sou um homem realizado.”
Feliz também está José Alves Sales, 45 anos, que chegou a Paranaíta há mais de 20 anos, levado pelo ciclo do garimpo. “Não consegui ouro, mas fiquei por aqui e virei pescador. Agora, meu ouro e meu peixe são esse trabalho, que consegui porque levei a sério o Acreditar.” José trabalha em armação na construção da ponte e da barragem. Enormes vigas foram preparadas para serem levadas de balsa e por gruas e assentadas nas bases e nos pilares da ponte.
“Do medo à alegria”
Os canteiros da obra ficam no lado de Mato Grosso. Na outra margem do rio, a do Pará, o território é do município de Jacareacanga, cujo núcleo urbano fica a mais de 400 km. Márcio André Romani, instrutor do módulo básico, deu aulas de qualidade, psicologia do trabalho e meio ambiente, e foi ao Pará em busca de interessados em ingressar no Acreditar e trabalhar na obra. “Foi emocionante”, relata. “A gratidão dos alunos, que foram do medo à alegria, é a satisfação de nosso trabalho.”
As condições de vida dos trabalhadores em um local tão isolado recebem atenção constante da equipe dirigente da obra. O Diretor de Contrato Antonio Augusto informa: “No canteiro definitivo, que ficará pronto no início de 2012, haverá casas metálicas, mais duráveis que as de madeira, com janelas mais amplas, um quarto para cada quatro pessoas e camas normais, em vez de beliches. Vai ser uma autêntica cidade, com cozinha, restaurante, ambulatório médico, lavanderia, tratamento de lixo, posto policial, campo de futebol, cinema, salão de TV, recanto de violeiros, serviço de ônibus, locais para cultos católicos e evangélicos. Vamos ter até um refeitório móvel, em um ônibus. Isso tudo vai eliminar a necessidade de se fazer seguidas viagens de Paranaíta até o canteiro de obras.”
Antonio Augusto conta que, em novembro de 2011, apenas quatro meses depois de iniciadas a obras de Teles Pires, já havia quase mil integrantes na equipe de trabalho: “Esse número deverá aumentar progressivamente nos próximos meses, até chegarmos a um pico de 6 mil pessoas. Levamos em conta não só a funcionalidade para o trabalho, mas, sobretudo, as circunstâncias para uma boa convivência entre as pessoas que estão na obra, para sua felicidade e para o bem-estar da comunidade”.
Sentir-se bem inclui alimentar-se bem. A nutricionista Jerusa Campos, 30 anos, aproveita a experiência obtida em Santo Antônio, em Porto Velho. “Aqui, não temos nenhuma cidade grande por perto. É um enorme desafio, mas já está dando certo”, diz. “Servimos carne bovina ou frango, além de arroz, feijão e salada. Evitamos o peixe, que corre maior risco de estragar, e a carne suína. Para a salada, a Odebrecht Energia está incentivando pequenos agricultores da região a produzirem hortaliças.”
Oportunidades para jovens e veteranos
Os engenheiros civis André Queiroz, 32 anos, e Mateus Iannota Gontijo, 30 anos, ambos com sete anos de Odebrecht, são mineiros e amigos há bastante tempo. Divergência mesmo, só quando o assunto é futebol: André torce para o Atlético, e Mateus, para o Cruzeiro. André é o Gerente de Produção da margem direita do Rio Teles Pires (lado do Pará) e Mateus, o da margem esquerda (Mato Grosso). A construção da barragem começará simultaneamente nos dois lados, após a conclusão da ponte. Na margem direita, também será erguido o circuito de geração, que inclui a casa de força. “Nós, barrageiros, buscamos sinergia entre as equipes. Aqui, além de tudo, defendemos o meio ambiente, em harmonia com o desenvolvimento sustentável”, explica André. Mateus elogia os egressos do Acreditar: “São profissionais que amadurecem com o tempo.” Marcus Bandeira, 31 anos, Responsável Administrativo e Financeiro, há seis anos na Odebrecht, detalha: “Em nossa obra, hoje, 45% de trabalhadores são locais, e 55%, de fora. O objetivo é construirmos um canteiro modelo, para que os trabalhadores desfrutem de um ambiente com qualidade de vida, no desafiador cenário de confinamento, o que mitiga eventuais insatisfações”.
O paranaense Jorge Ricardo Dias, 39 anos, mora em Mato Grosso há 21 anos, cursou o Acreditar e é líder de transporte. “Antes de ser contratado pela Odebrecht, fui motorista de caminhão-basculante. Aqui, administro os ônibus para que não falte transporte aos trabalhadores do canteiro para a obra e para Paranaíta. A obra está dando uma sacudida positiva neste canto do país”, observa Jorge, ao manobrar um ônibus.
Se Jorge é novo na empresa, o mesmo não ocorre com o sempre animado paraibano José Osimar Rodrigues da Silva, conhecido como Zé Bodinho, 66 anos, que se prepara para festejar, em 1º de fevereiro, 50 anos de Odebrecht. “Já rodei o mundo, participei de obras de usinas no Brasil e trabalhei em Portugal, Angola e Moçambique. Minha esposa e meus cinco filhos moram em Minas Gerais. Eu vou mudando, mas sempre os visito”, conta ele, encarregado geral de terraplenagem em Teles Pires.
Quando a usina começar a produzir energia, no fim de 2014, e estiver concluída, em 2015, o Rio Teles Pires continuará normal: o projeto prevê reservatório do tipo “fio d’água”, pelo qual o leito do rio, atualmente de 90 km², será ampliado para apenas 135 km².
Apoio aos indígenas
A Odebrecht tem uma diretriz específica para sua relação com os povos indígenas. “Em Teles Pires, desenvolvemos um código de conduta referente ao tema e produzimos uma cartilha”, relata o Diretor de Sustentabilidade da Odebrecht Energia, Luiz Gabriel Todt de Azevedo. Juntamente com o cliente, a Companhia Hidrelétrica Teles Pires, a empresa apoiou, em novembro, uma missão do grupo de médicos Expedicionários da Saúde na aldeia Sai Cinza, no município de Jacareacanga, para atendimento de integrantes das tribos Kayabi, Apiaká e Munduruku. Na ocasião, médicos oftalmologistas, ginecologistas, ortopedistas, cirurgiões, clínicos, pediatras, anestesistas e dentistas – na maioria, procedentes de São Paulo e Campinas –, durante uma semana atenderam índios que foram previamente identificados com problemas de saúde, por meio de triagem feita pelos Dseis (Distritos Sanitários Especiais Indígenas). Houve consultas e cirurgias de catarata e hérnia, em blocos cirúrgicos montados em tendas, com equipamentos de ponta, e isso restabeleceu a qualidade de vida dos pacientes.
“A iniciativa é recebida com alegria pelos indígenas, que, antes das cirurgias, ficavam isolados e com tratamento restrito”, diz Luiz Gabriel. A ONG Expedicionários da Saúde, criada em 2003, concluiu sua 20ª missão. É integrada por médicos em trabalho voluntário e com ajuda logística de empresas parceiras. A responsável pela logística da ONG, Marcia Abdala, destaca a importância do apoio da Odebrecht Energia: “Com essa ajuda, conseguimos trazer os índios das aldeias distantes para serem tratados aqui. Sem esse apoio, o tratamento nas aldeias distantes ficaria inviável, por causa do alto custo do transporte aéreo, e, se viessem por via fluvial, levariam dias para chegar.”



