No controle do jogo
Programa Escola em Ação começa a capacitar gestores na própria comunidade
Ao ser implantado, em agosto de 2007, o Programa Escola em Ação, fruto de parceria entre a Odebrecht Óleo e Gás (OOG), a Unesco e a Secretaria de Educação de Macaé (RJ), tinha como meta estimular e apoiar, entre os participantes, de forma autossustentável, o exercício da cidadania e a inclusão social. Valendo-se do espaço livre das escolas durante os fins de semana, o programa integrou alunos, pais, professores e a comunidade local por meio de atividades profissionalizantes, esportivas e culturais. Agora o Escola em Ação entra em nova etapa. Em 2012, investirá na capacitação de novos gestores, para, então, ser inteiramente dirigido por integrantes da própria comunidade.
Hoje, os três projetos que compõem o Escola em Ação – Abrindo Espaços, voltado a atividades esportivas e culturais, Caia na Rede, de inclusão digital, e Qualificação Profissional, que fomenta o ingresso de jovens no mercado de trabalho – são realizados em oito escolas de Macaé e atendem a 6.412 alunos, o que representa um crescimento de 250% em comparação ao realizado em 2009.
“O programa evoluiu bastante e agora seus projetos serão executados por seus participantes diretos, que, na verdade, são os que promovem as grandes transformações sociais”, explica Emile Machado, Coordenadora de Responsabilidade Social da OOG. “Continuaremos oferecendo suporte na gestão, mas o programa vai andar com as próprias pernas.” Trata-se, segundo ela, de repassar aos futuros responsáveis as ferramentas de gestão que lhes permitirão sistematizar, mensurar e aperfeiçoar o programa.
O projeto Abrindo Espaços é um bom exemplo da autonomia que já tomou corpo entre os participantes. Desde que foi implantado, em agosto de 2007, no Colégio Municipal Engenho da Praia, no bairro de mesmo nome, esse projeto impactou, de uma forma ou de outra, os 2.559 alunos, seus professores e pais, e vem mudando substancialmente a vida dos 80 integrantes envolvidos na prática de futsal e hóquei indoor. “Com a prática esportiva, as crianças descobriram seus direitos e deveres de cidadãs”, diz, entusiasmada, a Diretora da escola, Ivone de Jesus Rodrigues. “Uma grande transformação está acontecendo aqui”.
A prática de hóquei, uma antiga tradição em Macaé, está sendo resgatada com méritos por alunos do Engenho da Praia. Em agosto último, ao disputarem o 29º Campeonato Intercolegial, na primeira competição fora da escola, conseguiram um honroso quarto lugar. O resultado surpreendeu até o treinador da equipe, Alessandro Alves, 25 anos, voluntário do Abrindo Espaços, que trabalha como assistente administrativo de uma empresa de eventos esportivos em Macaé. “No ano que vem, vamos brigar pelo título!”, diz ele.
Mudanças de comportamento
Transformações nos hábitos pessoais dos alunos, na sua convivência dentro e fora da escola, sinalizam que o Abrindo Espaços amadureceu. “A autoestima dos alunos aumentou, eles estão mais educados e calmos e pensam no futuro”, salienta Ivone Rodrigues. É o caso de Andressa Hespanhol, 13 anos, jogadora de hóquei e praticante de arremesso de dardo, martelo e disco. No momento, está divida entre fazer a prova para guarda-mirim ou aceitar o convite para treinar no atletismo do Santos, em São Paulo.
A certeza de que os efeitos do Escola em Ação vão muito além dos seus projetos pontuais pode ser percebida também nas mudanças de comportamento dos alunos. Bruno da Silva Souza, de 13 anos, era desinteressado por esporte e tinha baixo rendimento escolar. Desde que passou a jogar hóquei, como goleiro, melhorou as notas e, pelo que se comenta na escola, anda bem mais comportado. Recebeu muitos elogios pelo seu desempenho no 29º Intercolegial e chegou a ser sondado para treinar no time de hóquei do Colégio Pedro II em troca de uma bolsa de estudo. Está pensando no assunto.
Ganhar títulos, medalhas ou outras honrarias é o sonho desses pequenos atletas, embora, para a maioria de seus pais, a mera participação em atividades socioesportivas e educativas já seja compensador. Adriana Silva, 37 anos, vê no programa a oportunidade para a filha, Maria Vitória, 9 anos, reforçar valores como compromisso, disciplina e responsabilidade. “Felizmente, minha filha gosta de aprender”, diz. “No futsal, jogo na defesa, e, na escola, minha matéria preferida é a Matemática”, informa a pequena Maria Vitória.
No Programa Escola em Ação, bom rendimento escolar, sociabilidade, respeito ao outro e demais regras de cidadania são tão estimulados quanto as atividades extra-classes, sejam esportivas ou culturais. Esse padrão de educação, que dá a verdadeira dimensão do programa, impõe aos voluntários papéis que vão muito além de apenas operadores.
“Aqui, muitas vezes, sou como um pai”, diz Jefferson Warlem Coutinho Gomes, o Mestre Dino, que dá aulas de capoeira na Escola Municipal Balneário Lagomar. Filho de militar, ele exige muito de seus alunos e revela sua técnica: “Muito amor, carinho, respeito mútuo e, claro, trabalho duro. Aqui nós formamos cidadãos”.
Não é uma tarefa fácil disseminar noções de cidadania entre crianças e adolescentes que, muitas vezes, vivem em ambiente marcado pela violência e pela ruptura com as regras sociais. A voluntária Maria das Neves Fernandes, que atua como mobilizadora do Abrindo Espaços na comunidade do Lagomar, coleciona histórias dramáticas, como o caso de duas crianças que têm mãe alcoólatra e irmãos mais velhos que cumprem pena por tráfico de drogas. “A capoeira é um refúgio para eles, que vêm às aulas até quando chove”, observa Maria. “Mas nosso maior esforço é integrar os pais nas atividades dos filhos”, acrescenta.
As dificuldades da Diretora do Colégio Municipal Eraldo Mussi, Adelina de Jesus Ribeiro, são parecidas. Residente no Rio de Janeiro, ela passa os cinco dias úteis da semana em Macaé, dirigindo uma escola com 353 alunos no bairro das Malvinas, uma das áreas mais pobres do município, ainda dominada pelo tráfico de drogas. “Nosso desafio é desconstruir o cotidiano de violência com ações participativas e solidárias, com o exercício livre da cidadania”, ela ressalta.
No Eraldo Mussi, esse exercício acontece nas aulas de capoeira, das quais participam 30 alunos, e também em outras ações do Abrindo Espaços que envolvem o restante da comunidade. Na festa do Dia das Crianças, realizada pelo programa, muitas mães ajudaram na organização e na decoração, enquanto outras se ocupavam do preparo de bolos e quitutes. “Somos semeadores de uma nova forma dessas crianças encararem a vida, não só na escola, mas dentro e fora de casa”, diz a Diretora Adelina.



