O brilho do recomeço


texto Emanuella Sombra
fotos Jacinto Figueiredo

Engraxates de Luanda recebem oportunidades de estudo e melhores condições de trabalho

Antônio Francisco Suane viveu, aos 9 anos, uma experiência conhecida por milhares de crianças angolanas que, após os conflitos armados no país, migraram sozinhas do interior para a capital em busca de melhores condições de vida. Sem um endereço certo, partiu da Província de Kwanza-Sul em 2002, mesmo ano em que o país iniciou seu processo de paz. Hoje, em uma rua movimentada de Luanda, Antônio segue os passos da informalidade engraxando sapatos, atividade que resiste ao tempo na metrópole de quase 6 milhões de habitantes.

Desde junho de 2010, a rotina de lustrar calçados de couro e escovar sandálias de camurça ganhou uma dignidade que ele ainda não havia experimentado. “Agora é mais seguro, trabalho tranquilamente, não preciso fugir da polícia”, diz, sorrindo, o garoto de 18 anos e de pouca conversa.

A mudança na rotina de Antônio veio de uma iniciativa simples: adaptar o modelo dos pontos de ônibus (em Angola, conhecidos como paragens) e transformá-los em locais de trabalho onde os engraxates pudessem contar com melhores condições para exercer sua atividade, e os clientes, mais conforto. Assim nasceu o projeto Paragem do Brilho, uma parceria da Odebrecht Angola com o Governo Provincial de Luanda concebida para ser um instrumento de inclusão social ao proporcionar melhores condições de vida a jovens angolanos que vivem de lustrar sapatos.

“A finalidade do projeto não é torná-los engraxates para toda a vida, mas inseri-los em um contexto em que aprendam a ser organizados, a ter compromisso com um ofício e a valorizar uma profissão”, explica Edson Cristóvão Duarte, um dos educadores do projeto. Atualmente, o Paragem do Brilho acompanha o trabalho de 30 jovens em três paragens, uma construída na Avenida Revolução de Outubro e outras duas na Avenida Ho Chi Min. Cada uma delas é coberta de uma estrutura de vidro e metal, e possui cinco bancos de madeira com suporte para os pés.

 

Nova cara para a cidade

O projeto Paragem do Brilho foi idealizado no decorrer das obras do Projeto Vias de Luanda, no qual a Odebrecht trabalha revitalizando grandes avenidas da capital. As equipes da empresa observaram que, enquanto a paisagem urbana ganhava um aspecto novo após a reconstrução de praças, calçadas e paradas de ônibus, meninos e adolescentes engraxates permaneciam nas calçadas enfrentando as mesmas condições de trabalho de antes –  sentados sobre papelões, caixotes ou móveis quebrados – e acabavam sujando as calçadas e os muros depois de um dia inteiro de trabalho.

“Percebemos que a atividade deles não estava acompanhando o desenvolvimento da cidade e acabava em desarmonia com a estética atual das vias”, explica Virgínia Machado, Responsável pela Área Social e por Relações Comunitárias do Projeto Vias de Luanda, da Odebrecht. A partir de um pedido do Governo Provincial, que reconhecia a necessidade de iniciar um programa social voltado ao trabalho informal, chegou-se ao denominador comum de aliar um pedido do cliente à visão da própria empresa. Virgínia, que é baiana, buscou outra inspiração que fosse positiva para o jovens angolanos: o Projeto Axé, dedicado à inclusão social de crianças e jovens de Salvador.

“Nosso objetivo é contribuir para que eles se engajem no mercado formal, de maneira que outros jovens possam ser incluídos no Paragem do Brilho”, diz Virgínia, enquanto observa a rotina dos engraxates em uma manhã de segunda-feira.

Um deles é Jorge Pedro, um rapaz franzino que aparenta mais idade do que tem. Aos 19 anos, diz que a vantagem de trocar a calçada pela paragem é poder usar um uniforme. “Sinto que as pessoas me olham de uma forma diferente, com mais respeito, mais confiança”, afirma.

Embora a valorização da aparência signifique pouco para um ofício que é, basicamente, escovar sapatos, esses cuidados se refletem na estima que eles próprios têm por seus instrumentos de trabalho. Além de usufruírem das instalações, os participantes do programa recebem, periodicamente, uniformes personalizados, crachás de identificação e material de trabalho, que inclui caixote de madeira, graxas, flanelas, escovas e pincéis. Os clientes já deram sua contrapartida: de acordo com os coordenadores da iniciativa, a renda dos engraxates vem aumentando de 30% a 50%.

A perspectiva é de que novas paragens sejam construídas em 2012, para que um maior número de angolanos seja atendido. Iniciado em abril de 2010, o Paragem do Brilho pretende encaixar cada um dos selecionados em várias etapas, que incluem regularização de documentação pessoal, alfabetização, ingresso no Ensino Fundamental e reaproximação familiar. Virgínia cita outro exemplo: “Estamos promovendo aulas de artesanato para que os meninos aprendam a reaproveitar sapatos estragados e confeccionar novos”.

 

Reconstruindo um sonho

Ricardo Manuel Baiano, 20 anos, é um dos que enxergam a possibilidade de entrar para o mercado formal. Quer ser pintor. Diariamente, viaja quilômetros da periferia de Luanda até a paragem da Avenida Revolução de Outubro, no centro. O caminho de casa, onde vive com a irmã mais velha, até o trabalho é percorrido em uma das milhares de candongas, as vans que são o tipo de transporte mais popular de Luanda. Ele enfrenta engarrafamentos gigantescos. Ricardo é pura perseverança. “Às vezes, é cansativo, mas venho trabalhar todos os dias. Depois aqui, ainda assisto à aula”, diz.

Ricardo participa do curso de alfabetização oferecido pelo Paragem do Brilho em parceria com o Colégio Dom Bosco, administrado por padres missionários que chegaram a Angola no final da década de 1970. Como a maioria dos jovens que vivem em profissões informais em Luanda, o adolescente passou um período morando nas ruas, sem contato com a família. Graças ao projeto, Ricardo se reaproximou de alguns parentes que vivem na capital e voltou a morar com um deles.

“Ao acompanhar esses meninos, percebemos que a maioria deles está há cinco, seis anos nas ruas. Eles ficam expostos ao álcool, às drogas”, lamenta o educador Felix Barros Pinheiro. “Este projeto, além de procurar a reinserção desses jovens no seio familiar, contribui para que eles permaneçam na escola.”

Uma das exigências para participar do Paragem do Brilho é que os jovens frequentem periodicamente as aulas. Por isso, os grupos são divididos em turnos. Em cada uma das três paragens, enquanto um grupo de cinco engraxates trabalha pela manhã, outro vem à tarde. Os que já são alfabetizados são inseridos no ensino regular pela Escola 2027, instituição ligada ao Governo Provincial, que avalia o grau de conhecimento escolar de cada um dos engraxates, de forma que eles possam reiniciar os estudos de uma série compatível com seu grau de aprendizado. Para todos eles, o brilho estampado no olhar é o de quem mal começou a vida. É o brilho do recomeço.