Pegando o trem da reciclagem


texto Edilson Lima
fotos Marcos Michel

Programa Vida ajuda a reduzir a quantidade de lixões nas comunidades atendidas pela SuperVia

Da sede da empresa ferroviária SuperVia, no centro do Rio de Janeiro, é possível observar, a uns 300 m, o prédio da Central do Brasil. Da estação ali localizada, partem os trens rumo a diversos destinos, em uma malha ferroviária composta de 98 estações. Por dia, os trens da SuperVia transportam 540 mil passageiros. “Em 2015, queremos chegar a 1 milhão de pessoas diariamente”, diz Carlos José Vieira Machado Cunha, Presidente da empresa.

A história da SuperVia é recente. Começou em 1998, com a conquista da concessão para operação comercial e manutenção dos trens urbanos da região metropolitana do Rio de Janeiro. Mas a empresa herdou a história de uma ferrovia de mais de 100 anos. A Estação Central do Brasil foi construída no século XIX, no reinado de D. Pedro II. De lá até os dias de hoje, foram surgindo e crescendo, paralelamente, diversas comunidades e cidades.

“Escuto muitos dizerem que os trens cortam as cidades. Mas é o contrário. Muitas delas surgiram próximas às linhas férreas pela facilidade do transporte”, salienta Débora Raffaeli, Gerente de Marketing da empresa. Ela conhece muito bem as histórias por trás dos trilhos dos oito ramais sob a responsabilidade da SuperVia, que tem a Odebrecht TransPort como acionista majoritária desde novembro de 2010.

 

A multiplicação dos bons hábitos

De 1998 para cá, as equipes da SuperVia identificaram a existência de muitos lixões ao longo das linhas férreas. Houve casos em que os trens tiveram que parar por causa de tanto lixo. “Foi aí que percebemos que tínhamos que dialogar com as comunidades sobre esse tema. Fomos até os moradores e começamos a promover diversas ações sociais, principalmente aquelas relacionadas à reciclagem do lixo”, explica Débora. O objetivo é que as 12 cidades e 26 comunidades do entorno das linhas férreas sejam beneficiadas com os projetos sociais, todos reunidos no Programa Vida.

No âmbito desse programa, um dos projetos que tem alcançado resultados significativos é o Multiplicadores Ambientais, iniciado em 2007, na comunidade Vila São Miguel, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A equipe da SuperVia procurou as lideranças comunitárias e identificou voluntários interessados em participar da iniciativa ambiental. Essas pessoas receberam treinamentos e orientações sobre a importância da coleta seletiva para a qualidade de vida da comunidade. Depois, os voluntários começaram a bater de porta em porta, para orientar os moradores sobre o descarte correto do lixo.

Um dos maiores entusiastas desse processo é o Presidente da Associação de Moradores, José Américo da Silva Souza, o Zinho, 52 anos. Natural de Alagoas, ele chegou à comunidade com 13 anos. Bem-humorado, Zinho não parava de receber ligações no celular enquanto era entrevistado pela equipe de Odebrecht  Informa. “Está vendo? Aqui é assim, tem sempre alguma coisa para resolver.”

Zinho afirma que a parceria com a SuperVia foi fundamental, pois a quantidade de lixo nas ruas e vielas da comunidade era enorme. “O lixo chegava a ultrapassar o muro [de mais de 2 m] que separa a linha férrea e a comunidade. Hoje, no lugar dos resíduos, temos um canteiro de plantas ao longo do muro, com coqueiros, maracujá, mamão e até boldo para aqueles que gostam de fazer um chazinho. Sozinhos não conseguíamos mobilizar as pessoas”, ele explica. Agora, o lixo é colocado em caçambas, que são recolhidas pela Comlurb – Companhia Municipal de Limpeza Urbana, da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Júlio Barreto dos Santos, 72 anos, é um dos voluntários mais engajados na limpeza. Todos os dias, ele percorre o canteiro de plantas, para ver se há lixo jogado. “Sempre tem alguma coisa, nem todos os moradores ainda colaboram, mas, em relação ao que era antes, isso está muito melhor.” Ele acrescenta: “Enquanto eu tiver vida, estarei ajudando a limpar a comunidade”.

Ações semelhantes a essas também vêm ocorrendo no bairro de Parada de Lucas, também na zona norte. O número de lixões na comunidade tem diminuído a cada dia. Isso graças à ação dos multiplicadores ambientais locais. Já são três canteiros de plantas feitos em locais onde existiam lixões e um deles bem no centro da comunidade, local conhecido como pracinha.

“Aqui era só lixo, um mau-cheiro horrível, ninguém ficava por perto. Agora não. Tiramos o lixo, fizemos mesas, assentos e os canteiros de plantas”, conta Tatiane da Silva França, Secretária da Associação de Moradores e moradora da comunidade desde que nasceu, há 30 anos.

 

Defensores da Terra

Além do Projeto Multiplicadores Ambientais, a SuperVia realiza o projeto Defensores da Terra, por meio de uma parceria que se iniciou em 2001 com uma organização não governamental de mesmo nome e a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.

Em 2011, cinco escolas públicas de comunidades próximas à linha férrea foram selecionadas para receber os educadores ambientais da ONG. No primeiro semestre, foram realizadas palestras e aulas, com a utilização de vídeos para sensibilizar as crianças e os jovens das escolas em relação a diversos temas ambientais, como o aquecimento global e o descarte correto dos resíduos urbanos. No segundo semestre, o trabalho prosseguiu com oficinas e gincanas. “Ensinamos aos alunos que é possível fazer muitas coisas, como bonecas, brinquedos, caixas para presente e peças para enfeitar a casa, usando materiais descartados. Ensinamos a dar vida àquilo que tinha sido jogado fora”, diz Helena Fonseca Anjos, artesã e uma das voluntárias da ONG Defensores da Terra.

Na gincana realizada em setembro, das cinco escolas participantes, a Escola Municipal José Veríssimo foi a que mais recolheu lixo reciclável na comunidade: 3.128 kg, que depois foram levados para uma cooperativa. Carmen Mittoso Guerra, Diretora da escola, ressalta: “A educação ambiental é fundamental para todos. Espero que a SuperVia amplie ainda mais a sua colaboração com as escolas”. Ao todo, 95 estabelecimentos de ensino e mais de 5 mil pessoas (alunos, pais e professores) já foram beneficiados pelo Projeto Defensores da Terra.

“Os projetos desenvolvidos pela SuperVia nas comunidades têm ajudado a trazer resultados significativos por meio da mudança de hábitos”, avalia Cristiane Duarte, Coordenadora de Meio Ambiente da empresa. Ela se refere, sobretudo, à redução do número de lixões. De um total de 156 identificados em 2006, restam hoje 40.

O carioca Carlos José Cunha, que assumiu a presidência da SuperVia depois de 30 anos como engenheiro da Odebrecht, encara o novo desafio como uma oportunidade para contribuir ainda mais para o desenvolvimento do Rio de Janeiro. “A SuperVia já executava várias iniciativas para o bem-estar das comunidades vizinhas aos trilhos. Agora, com a administração da Odebrecht TransPort, vamos intensificar essas ações”, afirma.

Além das ações sociais, a SuperVia está investindo na reforma e modernização da atual frota de 160 trens e na compra de mais 120, totalmente novos, até 2015, como preparação para a Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016). Serão investidos R$ 2,4 bilhões. “Investir no trem é investir na melhor solução sustentável para a mobilidade urbana, pois além de consumir energia limpa, a eletricidade, ele também diminui a necessidade de ônibus e vans circulando pela cidade”, ressalta Débora Raffaeli.