Sai da rua minha gente!

  • Bárbara Jane Almeida dos Santos e Marcos Antonio Santana do Carmo: com o Programa Qualifica Bahia, a esperança de um lar

    Bárbara Jane Almeida dos Santos e Marcos Antonio Santana do Carmo: com o Programa Qualifica Bahia, a esperança de um lar


texto Carine Aprile
fotos Márcio Lima

Moradores e ex-moradores de rua de Salvador participam de programa de capacitação profissional e inclusão social

Todos os dias, Marcos Antonio Santana do Carmo, 35 anos, fica sentado em um banco na Praça da Piedade, em Salvador, esperando a noite chegar. Quando as lojas do bairro fecham as portas, ele começa a se preparar para dormir, na calçada, em frente às Casas Bahia do Relógio de São Pedro. Nas duas últimas semanas, porém, a rotina desse homem, que mora nas ruas há oito anos, se transformou. “Agora a esperança tem sido a minha companhia. Me matriculei no curso de carpinteiro, e o meu sonho é ter uma casa, um lar, e constituir uma família”, diz ele, que saiu da casa da mãe aos 27 anos, depois que se desentendeu com os irmãos. Há duas semanas, Marcos Antonio vem tendo aulas de carpinteiro, que começam às 7 horas da manhã e se estendem até as 13 horas, de segunda a sexta-feira. O curso faz parte do Programa Qualifica Bahia, realizado pelo Governo do Estado em parceria com o consórcio responsável pela obra da Arena Fonte Nova, que está sendo erguida às margens do Dique do Tororó.

O programa de qualificação profissional é voltado para moradores e ex-moradores de rua que habitam o entorno da obra,  e oferece aulas de cabeleireiro, além de diversos cursos na área de construção civil, como pedreiro, carpinteiro e armador. Neste momento, 88 alunos participam das aulas em busca de um emprego formal. Os mais bem avaliados poderão ser contratados para trabalhar na obra da arena.

Outra aluna do curso de carpintaria é Bárbara Jane Almeida dos Santos, 30 anos. O olhar doce esconde um passado comovente. Bárbara morou nas ruas de Salvador dos 13 aos 25 anos, por pura rebeldia de adolescente, como ela mesma conta. Depois de ver muitos amigos morrerem por causa das drogas ou por serem assassinados, Bárbara resolveu voltar para a casa da mãe, no bairro de Nova Brasília. “Hoje o meu objetivo é conseguir um emprego fixo, de carteira assinada, para dar uma vida melhor para os meus dois filhos, Taís, de 11 anos, e Iago, de 5 anos”, ela afirma, emocionada.

É a segunda etapa do Programa de Inserção de Moradores de Rua da Arena Fonte Nova. Na primeira, 23 ex-moradores de rua, integrantes da Comunidade Igreja da Trindade, foram contratados e já estão trabalhando como ajudantes de produção. E esse é apenas um dos 20 programas de cunho social e de formação profissional desenvolvidos pela obra.

“Pensar em sustentabilidade social é trabalhar no desenvolvimento das pessoas. É oferecer a oportunidade de aquisição de conhecimento, trabalho e renda”, salienta Alexandre Chiavegatto, Diretor de Contrato.  “É isso o que fazemos aqui. Oferecemos os instrumentos necessários para que a população do entorno e nossos integrantes busquem a própria evolução pessoal e profissional”, destaca Thiago Cunha, Reponsável pelos Programas Sociais da Arena Fonte Nova.

Ministrar aulas de alfabetização digital para 200 pessoas com renda inferior a dois salários mínimos, fomentar o espírito empreendedor em mais de mil crianças e jovens com idades entre 12 e 18 anos, das escolas do entorno, e oferecer educação básica aos trabalhadores são outras ações realizadas.

 

Dois mil pedaços do estádio

A sustentabilidade ambiental é outra prioridade na construção desse equipamento que será palco da Copa do Mundo de 2014. Um dos destaques nesse sentido é o reaproveitamento de 100% do material do antigo estádio, implodido em agosto de 2010. “Com a demolição da antiga Fonte Nova, foram gerados aproximadamente 77,5 mil toneladas de concreto, sendo que 90% desse total foram utilizados como base e sub-base na própria obra da arena, e os 10% restantes em outros projetos de infraestrutura de Salvador e região metropolitana”, explica Renata Ribeiro, Gestora de Meio Ambiente na Arena Fonte Nova.

Uma parte desse concreto também foi destinada a outra causa nobre: 2 mil pedaços do estádio, que era a paixão dos torcedores baianos, viraram souvenirs e foram doados para as Obras Sociais Irmã Dulce (Osid). As peças estão sendo vendidas por R$ 35 cada uma, na própria Osid, na Cidade Baixa, e pela internet. Todo o recurso obtido será direcionado à construção da unidade de hemodiálise e banco de sangue da instituição.

 

Calçada ecológica

Quem visita o canteiro de obras da Arena Fonte Nova percebe que o cuidado com o meio ambiente faz parte da rotina de todos os integrantes. “Temos um plano complexo de gestão de resíduos. Todo o material gerado aqui tem uma destinação final estudada e planejada, para que o impacto seja o menor possível”, ressalta Renata Ribeiro.

Um exemplo disso é a reutilização dos corpos de prova de concreto – estrutura cilíndrica utilizada para monitorar a resistência do concreto. Esse material está sendo aplicado na pavimentação de algumas áreas do canteiro de obras e também para o preenchimento dos alvéolos das lajes.

O óleo de cozinha utilizado pelos refeitórios da obra, que servem mais de 5 mil refeições por dia, é enviado a uma empresa que o transforma em biodiesel, vela e sabão. Já os papéis descartados pelo setor administrativo viram blocos de anotações, que depois também são reciclados por duas cooperativas locais. Madeiras e canos de PVC que seriam jogados no lixo ganham forma de fumódromos e porta-copos usados.

A coleta seletiva é feita não apenas dentro da obra, mas também no entorno. Os vendedores ambulantes que trabalham no ponto de ônibus em frente ao canteiro receberam treinamento específico e hoje são multiplicadores.

Maria de Jesus Santos, 53 anos, é autônoma, trabalha vendendo salgados na frente da obra e recebeu instruções para a coleta seletiva. “Achei importante o treinamento. Aprendemos a separar o lixo nas lixeiras coloridas. Já fazia isso antes, mas agora faço com consciência”, ela afirma.

 

Reciclagem e moda

Os uniformes dos trabalhadores da obra que são descartados deixam de ir para os aterros sanitários e ganham vida na oficina de corte e costura do Projeto Axé. Cada peça é transformada em itens de moda, como ecobags (bolsas ecológicas personalizadas) e outros utensílios, como aventais e jogos americanos.

“Nossos produtos trazem cores vibrantes, estampas com símbolos locais e ainda são forrados com tecidos nobres, possibilitando o uso dos dois lados. Transformamos cada peça em produtos sustentáveis que ressaltam nossa cultura com uma leitura moderna”, explica a estilista baiana Luciana Galeão, responsável pelo projeto.

A comercialização dessa produção é feita em loja própria, no Pelourinho, e todo o dinheiro da venda é destinado ao Projeto Axé, ONG que atende 1.547 crianças e jovens, de 5 a 21 anos, em situação de risco social.

 

Projeto sustentável

Em consonância com o Programa Green Goal, da Fifa, a Arena Fonte Nova foi projetada para operar com soluções sustentáveis. O tipo de estrutura utilizada na cobertura, por exemplo, reduz o consumo de aço entre 30% e 40%. Além disso, o projeto arquitetônico da nova arena permite o aproveitamento da iluminação e ventilação natural, sem contar com o uso de energia solar para o aquecimento de água.

O projeto de consumo de energia elétrica prevê uma redução em torno de 32,5%, com a utilização de lâmpadas com maior eficiência e durabilidade, o uso de reatores eletrônicos, em vez de reatores eletromagnéticos, e a instalação de elevadores verdes, que permitem uma economia de até 50% no consumo.

 

Arena multiuso

“Nosso objetivo é inserir Salvador no roteiro dos principais eventos do Brasil e proporcionar à Bahia um complexo integrado de entretenimento, cultura e negócios.” A declaração do  Diretor de Marketing e Relações Institucionais da Arena Fonte Nova, Lino Cardoso, traduz o caráter multiuso do novo equipamento.

Para manter a sustentabilidade econômica, a Arena Fonte Nova oferecerá espaço para eventos de diversos portes. “Teremos 50 mil assentos cobertos, distribuídos em três níveis de arquibancadas, além de 70 camarotes, restaurantes panorâmicos com vista para o campo e para o Dique do Tororó, e cerca de 2 mil vagas de estacionamento, que estarão disponíveis para os soteropolitanos e visitantes 365 dias por ano”, revela Cardoso.

Com uma estrutura de sala de imprensa, quiosques, elevadores, sanitários e espaço cultural (museu do esporte e da música), a Arena Fonte Nova já fechou acordo com o Esporte Clube Bahia, que terá o mando de campo da arena, e com o grupo responsável pelo maior evento junino da capital baiana, o Arraiá da Capitá, que passará a ser realizado no novo estádio, a partir do início da operação.

“Vamos trabalhar para que a Arena Fonte Nova seja um caldeirão de entretenimento e negócios. Já estamos estudando a realização de eventos de esportes radicais, festivais de música, shows internacionais, além de outros eventos de menor porte, como congressos, palestras, casamentos e formaturas. Teremos espaço para todos os públicos”, ressalta Lino Cardoso.