Um sonho possível


texto Emanuella Sombra
fotos Edilson Silva

Parceira com os Salesianos Dom Bosco permite a realização de projetos em uma das áreas mais carentes de Luanda

“Tínhamos um sonho maravilhoso, que as empresas incentivassem seus líderes a participarem de atividades nas quais cada um, de acordo com a sua qualificação, se enquadrasse em um projeto social. Seria de uma riqueza imensa para as grandes organizações e para as pessoas que trabalham nelas. Elas seriam guiadas por uma motivação simples, a motivação de ajudar”, diz, reflexivo, o padre italiano Stefano Francesco Tollu, em uma das salas paroquiais da Igreja de São Paulo, em Luanda.

Para entender a fala do padre Stefano é preciso voltar 10 anos no tempo. Mais precisamente a 2001, um ano antes do término dos conflitos armados em Angola, cujo saldo fez despertar, nas instituições nacionais e estrangeiras, uma palavra de ordem e uma atitude urgentes: reconstrução. Nascia, naquela época, a parceria da Odebrecht Angola com os Salesianos Dom Bosco, congregação da Igreja Católica que já realizava trabalhos humanitários no país desde a década de 1980.

“O apoio ao Dom Bosco teve resultados que nem a Odebrecht imaginava”, relembra padre Stefano, enquanto meninos jogam bola em uma quadra de esportes construída ao lado da Igreja. O sentimento de dever cumprido do missionário, atual coordenador das obras sociais dos Salesianos, só não é maior que a sensação de que há muito a fazer. “Em nosso país, as empresas que têm uma visão social são, em grande maioria, da área da construção civil. E, mesmo assim, é uma visão nova.”

 

Apoio financeiro

A fala do padre Stefano sintetiza uma parceria que resultou em projetos como a reforma e ampliação do Colégio Dom Bosco, no bairro do Sambizanga, um dos mais pobres e populosos da capital. Os Salesianos tinham, para o projeto de ampliação, recursos da ordem de 2 milhões de euros, doados pela União Europeia, mas os orçamentos apresentados por outras construtoras chegavam a quase o dobro desse valor. Diante disso, a Organização propôs disponibilizar, sem custos, todo o apoio técnico de engenharia  e agregar outros parceiros, como a Prado Valladares, que refez o projeto e ampliou de forma significativa a área construída, o que possibilitou o aumento do número de vagas, de 1.390 para 5.580 alunos. Em contrapartida, os Salesianos firmariam parceria em um programa de alfabetização no canteiro da Odebrecht de Luanda Sul.

Parceria fechada, obra pronta sem necessidade de recursos financeiros adicionais. “Nossos recursos vêm basicamente da Igreja, de embaixadas ou instituições estrangeiras”, explica o padre argentino Marcelo Ciavatti, que também coordena as atividades filantrópicas do Dom Bosco. Segundo ele, a visão da Odebrecht resultou em um avanço significativo nas ações que os Salesianos desenvolvem em Angola. “A Europa, por exemplo, que sempre nos ajudou financeiramente, agora vive uma crise econômica. As doações vêm diminuindo ano a ano, e nesse sentido, a parceria foi fundamental para o nosso trabalho.”

Em um país onde estima-se que apenas 67,4% da população foi alfabetizada, a conclusão das obras do Colégio Dom Bosco, em 2004, surtiu um efeito imediato: após a inauguração, 3.900 novas vagas foram abertas para crianças dos 1º e 2º graus. Em outra frente, a construção de nove quadras poliesportivas nas comunidades luandenses de Mota, Trilho e Mabubas contribuíram para a inserção de 18.300 jovens carentes em atividades extracurriculares, como aulas de futebol, basquete e capoeira. A construção das quadras – sete delas entregues em 2011, no Centro Social São Domingos Savio, em Mabubas – foi possível graças ao apoio financeiro da Odebrecht.

Além das atividades recreativas que ocorrem no centro social, são realizados cursos de capacitação profissional, como de carpintaria, serralheria, informática e corte e costura. “Outras empresas precisam perceber que, sem investimento em educação e capacitação profissional, elas próprias não evoluem”, avalia o padre Ciavatti. “Com a paz e a chegada do desenvolvimento em Angola, percebemos que a maioria dos profissionais locais realiza suas tarefas sem uma formação adequada.”

 

Alfabetização no canteiro de obras

Parte das atividades resultantes da parceria começa dentro da própria Odebrecht. No canteiro de Luanda Sul, 120 operários angolanos já foram ou vêm sendo alfabetizados pelo método Dom Bosco de ensino, reconhecido pelo Ministério da Educação de Angola. As aulas englobam da alfabetização ao que corresponde à 6ª série do primeiro grau, e têm duas horas de duração. Os integrantes que aceitam participar “doam” uma hora da sua folga diária e, em contrapartida, a empresa diminui sua jornada diária de trabalho em uma hora.

São pessoas como o carpinteiro Figueira Albino, que aos 47 anos está na 4ª série e pretende continuar os estudos após deixar a obra, ou como o pedreiro Filipe Jorge Quinquela, que, aos 35 anos, se emociona ao lembrar que, no canteiro de Luanda Sul, sentou-se pela primeira vez em uma carteira escolar. A maioria dos estudantes tem a mesma história de vida: fugiu do interior para a capital durante a guerra e, diante da necessidade de sobrevivência, teve de trocar o estudo pelo trabalho informal.

João Martins Fernando, 34 anos, é um deles. Natural da Província de Malange, teve o primeiro trabalho formal na Odebrecht. Atualmente na 4ª série, lembra que abandonou a escola, ainda adolescente, para fugir da “rusga”, como os angolanos chamavam o recrutamento militar obrigatório durante a Guerra Civil. “Não me importo com o cansaço depois de um dia inteiro de trabalho. Meu objetivo é continuar estudando depois, em alguma escola do Governo.”

Responsável pelos programas de combate ao HIV/Aids e à Malária da Odebrecht Angola, Jorge Preto viu a parceria com a instituição católica nascer, em 2001, e acompanha diariamente o programa de educação para os operários. Preto se emociona com as histórias que ouve. “Esse programa mexe na autoestima das pessoas, e é um benefício para a vida toda”, diz. “Os angolanos podem até lembrar que nós fizemos shopping, estradas, condomínios… Mas o que ficará na memória deles é o que nós fizemos além. A parceria com os Salesianos é esse além”.

Preto trabalha no desenvolvimento de ações de combate a doenças infectocontagiosas, atuação possível graças à parceria que completa 10 anos em 2011. A partir do trabalho conjunto entre Salesianos e Odebrecht, foram confeccionadas e distribuídas 50 mil cartilhas que vêm servindo como base para os agentes multiplicadores em programas de conscientização sobre o HIV. Esses programas são realizados nos 22 centros comunitários de Luanda, onde os Salesianos Dom Bosco desenvolvem atividades comunitárias, além de unidades em outros seis municípios do interior.

“As ações desenvolvidas nessa parceria vão muito além das realizações físicas. Os Salesianos nos inspiraram, ao longo desses anos, com sua capacidade de realizar tanto com tão pouco”, diz André Vital, Diretor-Superintendente nos Mercados Bahia e Sergipe da Odebrecht Infraestrutura. Ele foi, ao lado de padre Luiz Piccoli – que hoje vive em Moçambique, onde desenvolve outras obras sociais – um dos responsáveis pela ampliação da parceria, a partir de 2002, época em que era Diretor de Contrato das obras de Saneamento Básico de Luanda. Sobre a reflexão do padre Stefano, registrada no início desta reportagem, André afirma: “Essa motivação faz parte da nossa responsabilidade empresarial: promover o desenvolvimento sustentável das regiões em que atuamos. Isso faz parte do nosso negócio”.