Vislumbre do futuro

  • Alione Alberto Sailene, participante do programa Caia na Rede: inclusão digital no interior de Moçambique

    Alione Alberto Sailene, participante do programa Caia na Rede: inclusão digital no interior de Moçambique


texto Eliana Simonetti
fotos Edu Simões

Em Moçambique, moradores das regiões onde são realizadas as obras do Projeto Carvão Moatize recebem oportunidades de inclusão no mercado  profissional

A postura é impecável, ereta. O olhar, firme e seguro. Abusado Arroz tem 23 anos. Vive no bairro Samora Machel, nas cercanias do município de Tete, em Moçambique. Desde criança, trabalhou na roça e na pesca para ajudar a manter a mãe e quatro irmãs. Em 2008, quando soube que a Odebrecht oferecia cursos profissionalizantes em convênio com a Escola Dom Bosco, no centro da cidade, sua vida começou a mudar. Abusado tomou um machimbombo (como são chamados os ônibus em Moçambique), viajou uma hora e se inscreveu. Por três meses, frequentou aulas de serralheria. Ingressou na Odebrecht como ajudante. Foi promovido diversas vezes e, em 2011, chegou a encarregado de serviços, responsável por uma equipe de 300 pessoas. Nesses três anos, levantou para a mãe e as irmãs uma casa de tijolos vizinha à sua, uma construção tradicional. “Passo a passo estou a progredir”, diz ele.

Abusado Arroz é um exemplo entre muitos. Primeiramente, de um moçambicano sem habilitação profissional que se formou e teve melhoria de qualidade de vida. Ele também possui uma característica da cultura dos moçambicanos, que com frequência adotam como nome para seus filhos palavras sonoras, independentemente de seu significado. Apenas entre os trabalhadores da Odebrecht, em Tete, passaram dois de nome Alface e um outro chamado Sabonete. Há também o senhor Fastudo, que ingressou como ajudante de limpeza e chegou a Monitor de Segurança do Trabalho. Na lista de chamada da escola próxima à obra que a empresa realiza, em aliança com a Vale, há um garoto de nome Dança Dickson Dança.

 

Cuidado com os hipopótamos

O Contrato de Aliança para a execução do Projeto Carvão Moatize (PCM) foi assinado pela Vale e o Consórcio Moatize (em que Odebrecht detém 75% de participação, e Camargo Correa, 25%) em junho de 2008. A proposta: construir a maior mina de carvão a céu aberto do hemisfério sul, para ser explorada por 35 anos. São 11,5 milhões t/ano de carvão. No canteiro de obras, caminhões-pipa molham as estradas a todo o momento, para reduzir a poeira. “A obra, por si só, tem sua parcela de contribuição para o desenvolvimento sustentável. Segurança, capacitação, organização e limpeza são premissas de nosso trabalho e têm mudado o comportamento de moçambicanos, filipinos, sul-africanos e pessoas de outros países que trabalham aqui conosco”, informa Paulo Brito, da Odebrecht, Diretor de Contrato do PCM.

Segurança, nessa área do planeta, inclui cuidados com um personagem inusitado: os hipopótamos. Eles moram no Rio Zambeze, permanecem na água durante o dia, e ao entardecer sobem às margens para comer folhas. Não gostam de ver gente por perto e atacam mesmo que não haja provocação. No canteiro há cartazes que avisam não só sobre a necessidade do uso de EPIs (equipamentos de proteção individuais) e da atenção à sinalização de trânsito, mas também em relação ao cuidado que se deve ter nos dias de lazer com a família, em passeios no rio.

Quando a Odebrecht construiu linhas de transmissão em uma das ilhas do rio, na comunidade de Changara, contratou um caçador profissional, o sul-africano Graham Cawood, que treina os guardas da Fauna Bravia de Moçambique (organização similar ao Ibama brasileiro). “Meu trabalho foi espantar animais como hienas e cobras, para que não houvesse riscos”, lembra Cawood. O horário de trabalho era determinado pelos hipopótamos e não se registrou nenhum acidente.

 

Aliança no projeto e nas ações sociais

A abertura da mina e a construção da usina de carvão só puderam deslanchar após a transferência das famílias que habitavam as áreas de concessão para dois reassentamentos com mais de mil casas de características rurais e urbanas. É em um desses reassentamentos, de Cateme, na Escola Primária Maguiguane, em que estuda Dança Dickson Dança, 10 anos – que é tímido e não gosta de dançar.

A Odebrecht e a Vale mantêm alguns de seus projetos sociais nas escolas primária e secundária de Cateme. O projeto Ler+ foi implementado a partir da constatação de que os moçambicanos cultivam a oralidade, são apegados aos idiomas tradicionais de seus ancestrais, e pouco leem. A Fundação Vale doou livros para a organização de uma biblioteca na Escola Primária de Maguinguane. Professores e outros trabalhadores foram preparados para usar o material. Segundo o Diretor da Escola Primária, Antonio Guerra Jequesseme, com 30 anos de serviço na área da educação, a biblioteca representa um grande avanço. A Diretora Pedagógica da Escola Secundária, Isabel Sixpence, garante: “Os alunos estão mais interessados em estudar”.

Outro projeto é o Caia na Rede, de inclusão digital. A Escola Secundária de Cateme tem uma sala com 25 computadores, energia elétrica estável e acesso à internet. Nem um dos alunos havia visto um computador antes que o Caia na Rede chegasse a Cateme. Poucos meses depois, até Rufina Caetano João, 53 anos, responsável pelo orfanato anexo às escolas, onde vivem 170 crianças e jovens, já se aventurava no teclado. “Todo conhecimento que adquirimos é útil”, ensina. Quanto aos alunos, desde que se acostumaram com o mouse, tudo se tornou fácil: fazem pesquisas para trabalhos escolares e batem papo com amigos, inclusive com colegas que estudam em escolas Dom Bosco no Brasil.

Tete é uma província localizada a leste de Moçambique, próxima a uma área desértica do Zimbábue. O clima é quente e seco, muitas vezes chega a superar os 50ºC. A terra, vermelha, é coberta de carvão. Embora haja rios caudalosos, como o Zambeze, há pouca água para a agricultura. As famílias têm o hábito de cortar árvores para usar a lenha na cozinha. Uma campanha movida pela Odebrecht e pela Vale busca conscientizar os moçambicanos acerca da importância da preservação do verde e da água. Nas escolas de Cateme, os alunos plantaram mais de 200 mudas de árvores que, crescidas, sombrearão o pátio onde brincam. No canteiro de obras, foram plantadas mais de mil mudas.

“Projetos sociais sustentáveis compõem a estratégia da Vale em todas as partes do mundo. Em Moçambique, começaram logo que a empresa obteve a concessão. As mudanças que ocorreram desde então, seja pela renda gerada pelo projeto, seja pelos programas que mantemos em paralelo à obra, são notáveis. Tete, que não tinha sequer um bazar, hoje é uma cidade com comércio, hotéis e população crescente”, observa Galib Chaim, Diretor Executivo de Implantação de Projetos de Capital da Vale.

 

Sou do Bem

Voluntários da Odebrecht, da Vale e de empresas parceiras estão empenhados, ainda, na restauração do Orfanato Mundo dos Mais Pequenos, mais conhecido como Orfanato da Vó Teresa. O movimento começou por iniciativa de algumas pessoas, passou a ser parte do Programa de Voluntariado Sou do Bem, dos integrantes do PCM, e está ganhando porte. “Buscamos meios de transformar nossas ações em estruturas que possam caminhar por suas próprias pernas”, explica Adriana Clemente Brito, Responsável por Projetos Sociais da Odebrecht em Moçambique.

Além da pintura das paredes, reforma dos banheiros, aulas de higiene e organização baseada no conceito “5S” (Cinco Sensos: limpeza, utilização, coordenação, bem-estar e auto-disciplina), os participantes têm na agenda a construção de um galinheiro e de uma horta no quintal, para garantir a alimentação dos 96 internos, e estudam a possibilidade de montar ali uma cozinha industrial, para que os mais velhos possam produzir refeições e quitutes a serem vendidos no comércio local. Teresa de Jesus Alves, 66 anos, a vó Teresa, fica feliz em ver a casa movimentada. “Meu mais velho já completou 21 anos e está a trabalhar na Odebrecht”, conta, orgulhosa.

Orfanatos são instituições importantes em Moçambique. Há muitas crianças abandonadas por motivos de crenças ou tradições culturais e por causa da morte dos pais em decorrência de doenças ou má nutrição. A expectativa de vida no país é de 50 anos, segundo o Human Development Report 2011 da Organização das Nações Unidas (ONU). Moçambique ocupa a 184ª posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que mede o desempenho médio de 187 países em três dimensões do desenvolvimento humano: saúde, educação e padrão de vida. Nesse grupo, Moçambique só está em melhores condições do que Burundi, Níger e República Democrática do Congo.

A Odebrecht atua também em duas cidades costeiras do país. Uma delas é Beira, segundo maior município moçambicano, cujo porto, construído nos anos 1970, está sendo reformado. A empresa recupera fundações, terminal de armazenamento e descarga do Cais 8 – necessário à exportação do carvão proveniente de Tete. O Diretor de Contrato, Nuno Teixeira, é português e tem 31 anos. É um do DCs mais jovens da Organização Odebrecht. Com ele trabalha o Gerente Administrativo e Financeiro José Silveira Lages de Magalhães. Ambos concordam que o bom funcionamento do porto provoca movimentação econômica, o que cria oportunidades de trabalho e riqueza e contribui para o desenvolvimento do país. “Enquanto houver carvão em Tete, todo o projeto que realizamos no porto de Beira é sustentável”, diz Lages.

Como em Tete, pessoas do Programa de Voluntariado Sou do Bem em Beira atendem a dois orfanatos públicos e promovem atividades recreativas. De forma semelhante, organizou-se o Projeto Caia na Rede, para os familiares dos trabalhadores.

A maior atividade social da empresa em Beira, entretanto, desenvolve-se na área da saúde: campanhas de conscientização para crianças, jovens, adultos e médicos tradicionais sobre a importância da vacinação, sobre o HIV/Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis e sobre a tuberculose, cólera e malária. Amanda Mambulisse, 52 anos, tem nove filhos e trabalha como médica tradicional desde 1994. “Sei que, quando a pessoa carrega uma doença, devo tirar-lhe o espírito mau e encaminhá-la ao hospital”, diz, no idioma chitzwa. A tradutora é a médica Catarina César Mabuie, que trabalha na Odebrecht e está engajada em todas as campanhas de saúde.

 

Aprendizado com alegria

Um grupo de teatro e integrantes da Odebrecht percorrem escolas, presídios e feiras, com apresentações participativas. “Nós, moçambicanos, aprendemos melhor com alegria”, argumenta Aníbal Rafael Chiteve, 33 anos, coordenador do grupo teatral. Isso se evidenciou, mais uma vez, em 15 de novembro, quando 570 detentos do Centro Prisional de Savane, na Beira, assistiram à apresentação que tratou do tema HIV/Aids. Chiteve também auxilia estudantes a formarem seus próprios grupos de teatro e dança, para que multipliquem o conhecimento adquirido. “Isso é muito bom para o esclarecimento de todos”, confirma o Diretor Substituto do Centro Prisional de Savane, Manuel João.

A outra cidade litorânea de Moçambique em que a Odebrecht está presente é Nacala, na Província de Nampula, ao norte de Beira. A empresa constrói ali o Aeroporto Internacional de Nacala. Antes do início dos trabalhos, a Odebrecht procedeu a uma investigação sobre as comunidades locais e suas necessidades – e a melhor forma de implantar o Programa de Qualificação Profissional Continuada – Acreditar. Com material pedagógico adequado à realidade moçambicana, sede própria localizada no canteiro de obras e professores formados, em janeiro de 2012 o Programa Acreditar Moçambique iniciará seus cursos teóricos e práticos de pedreiro, carpinteiro, canalizador, ferreiro e eletricista predial.

“Esta é a primeira atividade social sustentável prevista para Nacala: o estudo realizado nas comunidades em seu entorno”, explica Fernanda Rodrigues Reis, Gerente Administrativa do projeto. “Por meio dele, poderemos buscar convergência de interesses e harmonia na relação comunidade-empreendimento, em programas que beneficiem também o meio ambiente, a segurança no trabalho e a saúde.”