O sonho olímpico começa cedo


texto Rubeny Goulart
fotos Marcos Michael

Ao todo, 18 meninos e meninas acordam cedo para iniciar os treinos: o foco é nas Olimpíadas de 2016

Zona Oeste do Rio de Janeiro. O toque de alvorada que ressoa às 6h da manhã no Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (Cefan), da Marinha do Brasil, está despertando o sonho olímpico brasileiro. Nesse horário, 18 atletas de 13 a 17 anos pulam da cama para dar início a uma longa e intensa rotina de treinamentos. Eles integram o Projeto Olímpico Marinha do Brasil-Odebrecht, iniciado em dezembro de 2010 e que tem como objetivo incentivar jovens nas práticas de atletismo, boxe e levantamento de peso. “Queremos formar uma geração de atletas com condições de disputar a Olimpíada de 2016 e grandes torneios internacionais”, diz a coordenadora do projeto, Marie Bendelac, Responsável Administrativa e Financeira do Consórcio Baía de Sepetiba.

Os atletas – 12 meninos e 6 meninas, a maioria de comunidades carentes – foram escolhidos pelas confederações esportivas dos seus Estados através de rigorosos critérios de desempenho. Começaram a chegar ao Cefan em fevereiro deste ano, vindos da Bahia, de São Paulo, do Pará e do Espírito Santo – outra parte é do Rio de Janeiro. De acordo com os termos do convênio firmado entre a Marinha do Brasil e a Odebrecht, até completarem 18 anos os atletas terão assistência plena para desenvolver suas potencialidades esportivas e melhorar suas marcas: alimentação, alojamento, preparação técnica e física, além de toda a infraestrutura quadras, pistas, piscinas e demais equipamentos do Cefan.

 

Cefan, instalações adequadas

A ideia da parceria Marinha-Odebrecht partiu dos oficiais da Marinha. A Odebrecht foi convidada a participar, pois integra o Consórcio Baía de Sepetiba, responsável pela administração do PROSUB, programa para a montagem de cinco submarinos e para a construção de uma base naval e de um estaleiro. “O Brasil tem um imenso potencial no atletismo, mas é preciso dar suporte aos atletas, especialmente àqueles de baixa condição econômica”, argumenta Guilherme Abreu, Diretor Administrativo e Financeiro do Consórcio Baía de Sepetiba e responsável pelo projeto na Odebrecht. Segundo ele, a ideia é incentivar outras empresas brasileiras a fazerem o mesmo.

No caso do Projeto Olímpico Marinha-Odebrecht, o investimento se traduz em acompanhamento permanente por uma equipe multidisciplinar que, além dos preparadores técnicos e físicos, inclui médico, dentista, nutricionista e psicólogo. Os jovens têm plano de saúde e recebem uma bolsa-auxílio que varia de um a três salários mínimos, de acordo com o desempenho em competições internacionais. “Estamos acompanhando de perto o rendimento dos participantes do projeto para que nada falte a eles”, diz Marie Bendelac, que recebe mensalmente, da Marinha, relatórios sobre as atividades desenvolvidas pelos atletas.

“A formação do atleta brasileiro, no Brasil, ainda é precária, especialmente para as classes mais baixas, como é o caso da maioria dos integrantes deste projeto”, acrescenta Fábio Costa da Silva, Capitão de Mar e Guerra da reserva que foi designado pela Marinha para acompanhar o Projeto Olímpico Marinha do Brasil-Odebrecht. Comandante Fábio sabe do que está falando. Ele viu de perto a miséria quando integrou, pelo Brasil, as forças de Paz no Haiti. Hoje, coordena o grupo de jovens de baixa renda em um espaço físico de primeiro mundo. Recentemente, o Cefan ganhou uma nova pista de obstáculos para o pentatlo naval, outra para saltos e um parque aquático com piscina olímpica. O complexo dispõe de 395 leitos e, recentemente, alojou os atletas competidores dos Jogos Mundiais Militares, realizados no Rio.

 

Rotina de estudos

Se, por um lado, os atletas recebem benefícios, por outro, têm deveres a cumprir. Devem mostrar esforço de superação para melhorar suas marcas e estudar. Alguns jovens, especialmente os que moram no Rio, frequentam escolas de suas próprias comunidades. Quem vem de outros estados estuda na Casa do Marinheiro, uma agremiação que fica ao lado do Cefan e que, além de promover cursos e outras atividades culturais, dispõe de cinema, restaurante, salão de festas e uma ampla área de lazer.

A rotina é intensa. Tome-se o caso do peso mosca Renan Macedo Costa, de 1,54m de altura, primeiro no ranking brasileiro em sua categoria (49 quilos). Força de vontade é seu lema. Para chegar à academia onde treinava na sua cidade natal, em Barcarena (PA), Renan tinha que pegar três ônibus, em um percurso que levava três horas. Muitas vezes, para não fazer o mesmo trajeto na volta, dormia na academia. Desde fevereiro, quando se integrou ao Cefan, sua vida mudou. “Deito e acordo pensando nas Olimpíadas”, diz ele.

Ele e outros garotos, como Joedson Teixeira (recém convocado para a seleção brasileira de boxe) e Ivan Fernandes (do atletismo) estão prestes a completar 18 anos. Quando isso acontecer, serão obrigados a deixar o projeto, mas terão a opção de continuar na Marinha como Reserva Remunerada de 2ª Classe (RM2), condição válida por oito anos, e poderão continuar frequentando as instalações do Cefan. “No geral, todos optam por continuar na Marinha, pois já estão integrados à nossa rotina”, explica o Comandante Fábio.

A heptoatleta Tamara Alexandrino, que acaba de completar 18 anos, é um dos que prosseguirão na Marinha. Em setembro, ao disputar o 39° Campeonato Sul-Americano de Juvenis, em Medelín, na Colômbia, ela liderou a prova com 1.000 pontos à frente da segunda colocada e ganhou medalha de ouro. Ao estabelecer um novo recorde estadual na categoria, Tamara tornou-se uma das grandes apostas brasileiras para as Olimpíadas de 2016.

 

Mantra esportivo

Entre os atletas que integram o grupo há também promessas que estão no nascedouro. A julgar pela estatura, ninguém imaginaria que as irmãs cariocas Emily e Natasha Rosa estão conquistando posições relevantes no levantamento de peso. Emily, 13 anos e 1,46m, é recordista brasileira e figura entre as 20 melhores do mundo na sua categoria. Natasha, que ao lado da irmã, disputou, em 2010, o Pan-Americano em Guayaquil, no Equador, ficou em quinto lugar na categoria de 44 quilos. “Temos que melhorar cada vez mais para conquistar nossos sonhos”, diz Emily.

Superar os próprios limites é o mantra que esses atletas escutam de seus treinadores e de si mesmos, como uma voz interior que os impulsiona a vencer os obstáculos. Que o diga o velocista Luiz Gustavo, o “Macaé”, 17 anos. Quando se integrou ao projeto, “Macaé” fazia 100 metros em 11,3 segundos. Hoje vence essa mesma distância em 10,6. Primeiro no ranking brasileiro, vai ter que, literalmente, correr mais para disputar o mundial de jovens em julho do próximo ano, em Barcelona. Faltam sete centésimos para qualificar-se ao mínimo de 10.53 segundos exigidos para disputar a prova. Da nossa parte, não faltará torcida!

Até completarem 18 anos, os atletas terão assistência para desenvolver suas potencialidades e melhorar suas marcas
Além do boxe, atletismo e levantamento de peso fazem parte das atividades no Cefan, no Rio de Janeiro