Histórias que faltavam


texto Emanuella Sombra
fotos Dario de Freitas & Christian Cravo

Daniel Strumm: “Do ponto de vista científico, o livro foi um marco de referência para a Bahia pela quantidade de informação processada e apresentada”

Ano de 2007. O pesquisador Carlos Etchevarne contribuía para um novo capítulo da arqueologia brasileira: era lançado Escrito na Pedra – Cor, Forma e Movimento nos Grafismos Rupestres da Bahia. Vencedor, um ano antes, do Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica Clarival do Prado Valladares, o livro ajudava a reverter o relativo desconhecimento sobre a comunicação visual utilizada pelas populações pré-coloniais que habitaram a caatinga, o cerrado, o Vale do São Francisco e as serras planálticas do Brasil.

“Queria chamar a atenção das instâncias administrativas sobre esse patrimônio cultural, em termos de preservação e de boa gestão. Imaginei que o livro também pudesse ser utilizado como guia para políticas públicas, ou nos programas de educação da rede pública de ensino”, lembra o arqueólogo, atualmente professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia (UFBa). “Sem falar que o prêmio me dava, naquele momento, o reconhecimento e o incentivo de que eu precisava”, acrescenta.

Etchevarne enxergava além. Mais que um material de pesquisa com tratamento de livro de arte, Escrito na Pedra deu impulso a um desafio ainda maior. Depois do lançamento, o arqueólogo passou a desenvolver um programa de educação patrimonial em seis municípios da Chapada Diamantina, além de ações de gestão participativa com as comunidades que vivem nas proximidades dos sítios, trabalho de conscientização realizado em parceria com o Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural do Estado da Bahia (IPAC).

“Do ponto de vista científico, o livro foi um marco de referência para a Bahia pela quantidade de informação processada e apresentada. E, no que se refere à abordagem metodológica, inova pela perspectiva, ao destacar a relação dos sítios com a paisagem em que estão inseridos”, diz Etchevarne. Às vésperas de encerrarem-se as inscrições, dia 29 de junho, da 9ª edição do Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica, o depoimento do pesquisador resume o objetivo principal da iniciativa: incentivar e enriquecer a produção historiográfica nacional.

 

Jabutis

Trabalhos como o de Etchevarne somam mais de mil inscritos desde a primeira edição do prêmio, em 2003. Ano após ano, o Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica é conferido a um projeto de pesquisa que contribua para um maior entendimento da formação econômica, sociopolítica ou artística brasileira. O vencedor de cada edição tem garantidas as condições para realização de seu projeto, incluindo o pagamento de direitos autorais e o custeio de todas as despesas necessárias à realização e ao registro da pesquisa.

Assim nasceram livros como Igreja e Convento de São Francisco da Bahia, de Maria Helena Ochi Flexor e Frei Hugo Fragoso, lançado em 2011; e Theodoro Sampaio – nos Sertões e nas Cidades, de Ademir Pereira dos Santos, lançado em 2010. Ambos receberam o primeiro lugar, na categoria Projeto Gráfico, do Prêmio Jabuti, o mais importante do mercado editorial brasileiro. Outra obra resultante do Prêmio Odebrecht, A História do Brazil de Frei Vicente do Salvador, de Maria Leda Oliveira, já havia conquistado o segundo lugar do Jabuti em 2009.

Responsável por Comunicação Empresarial na Odebrecht, Márcio Polidoro destaca a importância do reconhecimento à pesquisa historiográfica desenvolvida no país. “A premiação pode ser considerada o mais importante programa de incentivo ao resgate da memória histórica do Brasil na atualidade, porque tem proporcionado o desvendamento de fatos, processos e personagens fundamentais para a construção da nacionalidade, que se encontravam à margem do conhecimento ou obscurecidos pelo tempo”, diz.

É nessa linha que o Prêmio Odebrecht valoriza estudos sobre temas pouco conhecidos, que ajudam a aprofundar o entendimento histórico da identidade brasileira. Durante a seleção, os projetos são avaliados por suas linhas gerais e pela qualificação de seus autores. Na primeira etapa, são analisados por um comitê interno (Comitê Cultural Odebrecht), que seleciona cinco finalistas. Na segunda, uma Comissão Julgadora, formada por até quatro pessoas de notório saber e um representante da Odebrecht, escolhe o grande vencedor.

Márcio Polidoro ressalta que o grande desafio é manter a qualidade das obras que vêm sendo lançadas desde 2003 e atrair bons projetos para as próximas edições. Sobre o trabalho editorial que é desenvolvido ano a ano, ele acrescenta: “Um dos impactos positivos é a confirmação da capacidade que uma pequena editora, como a Versal Editores, tem demonstrado de produzir com excelência obras que competem com publicadas pelas gigantes do setor. A Odebrecht, com isso, pode se orgulhar do Prêmio Jabuti e do parceiro”.

 

Açúcar

Vencedor do Prêmio Odebrecht em 2009, o historiador Daniel Strum vem acompanhando o processo de edição gráfica de seu livro, O Comércio do Açúcar – Brasil, Portugal e Países Baixos, previsto para ser lançado até o fim do ano, e ressalta o tratamento cuidadoso que vem sendo dado ao material de pesquisa, fruto de uma década de dedicação ao tema. Doutor pela Universidade Hebraica de Jerusalém, Strum foi selecionado dentre 218 pesquisadores inscritos naquele ano.

“Em nenhum momento sofri qualquer tipo de intervenção: tive total liberdade para escrever e pesquisar o que achava importante. Essa desvinculação é fundamental, pois revela a forma como o prêmio é conduzido”, afirma o historiador, que reconstruiu, em detalhes, uma das atividades econômicas que mais colaboraram para a configuração do espaço social e político do Brasil colonial. “Essa liberdade é o que leva, de fato, a uma pesquisa verdadeira, em qualquer área”.

O Comércio do Açúcar é uma ramificação de sua tese de doutorado e reconstrói, por meio de texto, fotografias, pinturas e objetos, a comercialização da principal commodity do Brasil Colônia. Aspectos relacionados à produção, ao transporte, ao pagamento e ao consumo do açúcar – além das questões monetárias envolvidas – ajudam a entender como se deram capítulos importantes da configuração econômica e política mundial, como os conflitos entre Espanha e Países Baixos e a união dinástica de Portugal com Espanha. É aí que Strum traça uma linha de raciocínio até então pouco explorada.

“O enfoque normalmente dado pela historiografia brasileira é a produção, são os engenhos, as plantações de cana… Já o comércio é visto como uma coisa externa, um outro lugar que não é mais Brasil”. Sobre a oportunidade de transformar parte de seus 10 anos de trabalho em um livro de arte, Strum enfatiza: “Conseguir publicar e saber que o material vai ser distribuído para o mercado significam muito para qualquer pesquisador. Nesse sentido, iniciativas como a da Odebrecht são um exemplo pioneiro para a iniciativa privada”.

Vencedor do prêmio em 2009, Etchevame vem acompanhando o processo de edição gráfica de seu livro, previsto para ser lançado até o fim do ano