nº 114 - julho/agosto de 2004
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 Publicação interna da Organização Odebrecht – Odebrecht S.A, Construtora Norberto Odebrecht, Braskem e Fundação Odebrecht
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Antigas lições e inovação
Construção da Hidrelétrica de Picada, em
Minas Gerais, conjuga soluções inovadoras e a
retomada de métodos tradicionais de engenharia

Uma história iniciada em 2002
   
   
Karolina Gutiez texto
Élcio Carriço fotos

A Usina Hidrelétrica de Picada, em Juiz de Fora (MG), não é apenas uma boa oportunidade para atender o cliente Votorantim. A obra, que garantirá a geração de 50 MW de energia para uma das empresas do grupo, a Companhia Paraibuna de Metais, alia soluções de engenharia inovadoras e metodologias executivas diferenciadas que, juntas, contribuirão para antecipar a geração comercial na hidrelétrica.

Na execução do túnel de adução, que tem 2.500 m de extensão e 6,25 m de diâmetro, a Construtora Norberto Odebrecht adotou um método inusitado: a escavação manual, com a utilização de uma plataforma metálica, projetada e fabricada na obra, sobre a qual oito trabalhadores, usando martelos de colunas, realizam a perfuração. Essa plataforma é posicionada e recolhida com o uso de um caminhão do tipo Munck. Depois da introdução do processo mecânico, com jumbos, esse método deixou de ser usual. José Bonifácio Junior, Diretor de Contrato, explica que, embora antiga, a opção reduziu custos, com garantia de bons níveis de produção. E mais: “Se utilizássemos jumbos, teríamos 35 pessoas a menos trabalhando na usina e um custo elevadíssimo de recuperação do equipamento”. Ele ressalta que não se pode generalizar a metodologia. “Cada caso é um caso”, diz.

A barragem, que será construída de acordo com projeto convencional com concreto compactado a rolo (CCR), traz outra inovação. Em um bloco de testes no interior do maciço, a equipe realizará ensaios, buscando subsídios para o desenvolvimento do projeto e da metodologia da barragem em arco com dupla curvatura de CCR (veja infográfico), inédita no mundo. A experiência de Picada permitirá que ela seja utilizada futuramente em outras barragens.

A Odebrecht e a Stucky (empresa de projetos suíça) têm um acordo para o desenvolvimento tecnológico da metodologia. A principal vantagem de sua aplicação está na redução do tempo de execução da obra. A China e o Irã já utilizaram a barragem em arco com CCR, mas apenas com curvatura horizontal. “Em Picada, será feita uma experiência pioneira, na qual vamos medir índices e realizar pesquisas”, salienta Bonifácio Junior.

Outro ponto importante que pesou na hora de aceitar o desafio foi a economia que a barragem em duplo arco com CCR permitirá. Bonifácio prevê que essa solução pode viabilizar a construção de hidrelétricas que ainda não saíram do papel, por causa do custo elevado. Com a tecnologia aprovada, a competitividade da Odebrecht será maior, inclusive no exterior, uma vez que a barragem com dupla curvatura distribui melhor os esforços da fundação e consome menos cimento.

>>As inovações de Picada

Para os engenheiros responsáveis pela obra, a opção pela nova tecnologia representa um desafio, mesmo para aqueles que já contam muitos anos na Odebrecht, como é o caso de José Valdir Teixeira Moreira, Responsável por Produção, há 25 anos na Construtora. Em sua equipe, dois jovens acompanham de perto toda a construção da Hidrelétrica de Picada. A experiência é vista por eles como uma oportunidade rara no início da carreira. Marcus Vinícius do Nascimento, 30 anos, é engenheiro civil e já havia trabalhado com edificações, apesar de não esconder que seu desejo era outro: “Sempre quis trabalhar na área de barragens. Essa é a primeira e, agora, o sonho está sendo realizado”.

O colega de Marcus, Michel Aguirre Smid, 25 anos, avalia a importância desse momento para a carreira de ambos: “Como a hidrelétrica é de pequeno porte, temos a chance de aprender todas as etapas de construção, tendo como diferença a escala, que é menor. Se estivéssemos em uma obra com duração de seis a oito anos, acabaríamos nos especializando em um único ramo, deixando de conhecer outras áreas importantes”.

A maioria dos 410 integrantes dessa obra é de Juiz de Fora, cidade situada a 30 km do canteiro. Embora o contrato tenha características que exigem trabalhadores especializados, como é o caso da construção do túnel de adução, a Odebrecht optou por treinar a equipe que está fazendo o serviço, em vez de trazer marteleiros de fora.

André Ribeiro, Responsável por Administração, antecipa que a Prefeitura de Juiz de Fora quer estender esse treinamento a outras pessoas da comunidade, sobretudo àquelas com poucas perspectivas de atuação profissional. “O programa deve começar com visitas à obra para que elas conheçam uma realidade diferente da que vivem, voltada para o trabalho.”

O esforço de beneficiar a comunidade vizinha à obra não pára por aí. Walter Ajeje, Responsável por Engenharia, conta que a Odebrecht estabeleceu uma parceria com a Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora para realizar o controle tecnológico do concreto. Depois das análises, dos ensaios, dos testes e do acompanhamento do desempenho das estruturas, a Universidade elabora relatórios mensais, com a participação dos alunos, atestando a qualidade dos tipos de concreto usados e seus componentes. “Esse controle teria de ser feito de qualquer maneira, mas é bem melhor contar com a universidade”, garante Ajeje.

O professor de Tecnologia do Concreto Antônio Eduardo Polisseni também acha a parceria vantajosa: ”É uma experiência importante para nós da universidade, facilitada pela proximidade entre o campus e a obra”. Há um laboratório que a faculdade instalou no canteiro. Ensaios especiais, entretanto, que não podem ser feitos no local, seguem para o campus, onde há condições de serem realizados e avaliados.

A Odebrecht contratou a empresa Via Cad para a verificação topográfica e a amarração dos marcos. José Valdir Teixeira explica que a conferência sistemática de todos os marcos topográficos, principalmente das instalações locadas, é importante para certificar que o projeto está dentro do previsto desde o início. Tudo para garantir qualidade e segurança. “A organização no canteiro demonstra a qualidade do que está sendo feito. Lavamos todos os taludes verticais (corte de rocha) da casa de força para evitar que qualquer pedra caísse com as chuvas ou ventos (no último ano choveu 70% a mais do que a média histórica da região) e instalamos uma tela protetora ao longo desses taludes, procedimento que não é usual em obras desse tipo”, diz José Valdir.

O cimento e o aço utilizados nas usinas de Picada e em Capim Branco I e II (estas também em execução pela Construtora em Minas Gerais) são adquiridos pela Odebrecht da própria Votorantim. A troca de papéis entre cliente e contratado é um sinal de que a parceria tem dado certo. Brás Lomônaco, Gerente de Investimentos em Usinas da Votorantim e que trabalhou durante 22 anos na Tenenge, salienta: “Essa estratégia reduz os custos para a Odebrecht e atende ao interesse da Votorantim de fornecer material para o próprio empreendimento”.

 
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