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Uma história em movimento
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Depois de 27 anos na Organização Odebrecht,
Sergio Foguel passa a se dedicar exclusivamente
ao setor de turismo e hospitalidade
Depoimentos |
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José Enrique Barreiro texto e entrevista
Almir Bindilatti fotos |
Depois de 27 anos de trabalho na Odebrecht, Sergio Foguel passa a se dedicar exclusivamente ao Instituto de Hospitalidade (IH) e à Fundação Turismo para Paz e Desenvolvimento Sustentáve(FTPDS), entidades não-governamentais, sem fins lucrativos, das quais foi idealizador e é Presidente. Em abril deste ano, ele declinou de sua recondução ao Conselho de Administração da Odebrecht S.A., do qual era membro desde 2002, motivado pelos crescentes desafios do IH e pelos novos desafios do FTPDS, que passaram a exigir sua atenção em tempo integral.
“Foi uma decisão extremamente difícil”, diz ele. “Por um lado, havia o imenso potencial de impacto da causa do IH e da FTPDS para a sociedade. Por outro, o intenso e gratificante cotidiano na Odebrecht, sempre rico de oportunidades para dar minha contribuição e para desenvolver-me profissionalmente.”
Distinguido com a solicitação dos companheiros e parceiros do IH e da FTPDS, para que permanecesse à frente das entidades, Foguel optou por aceitá-la: “Foi uma decisão amadurecida ao longo de vários meses nos diálogos, tanto no âmbito do IH e da FTPDS, quanto com o Presidente Emílio Odebrecht e os demais conselheiros e companheiros da Organização que integrei com orgulho e satisfação pessoal e profissional durante quase três décadas”.
Fundado em 1997, o IH tem atualmente mais de 40 projetos voltados para o desenvolvimento do turismo em todo o país. Em número de projetos, a entidade cresceu 40% em 2002, 60% em 2003 e a previsão é de que amplie em 100% a sua atuação em 2004. “Enquanto o IH crescia, a demanda por um turismo sustentável, potencializador do desenvolvimento econômico e social, da biodiversidade e da diversidade cultural, da paz, promotor do desenvolvimento das pessoas, passava a exigir cada vez mais nossa atenção”, conta Sergio Foguel.
Logo no início do Governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Sergio teve um encontro com Walfrido dos Mares Guia, Ministro do Turismo, com quem compartilhou a visão do IH sobre o potencial para o desenvolvimento do turismo no Brasil e o papel do turismo no desenvolvimento do país. “Oferecemos ao Ministro a contribuição do IH para a promoção de um turismo sustentável, que integre as dimensões ambiental, cultural, econômica e social; que valorize o jeito brasileiro de ser e de viver; e que tenha padrões globais de excelência.”
A partir daí a Certificação da Qualidade em Turismo, que vinha sendo desenvolvida pelo IH desde 1998, evoluiu para tornar-se Política Pública e foram deflagrados dois movimentos de grandes proporções: o Fórum Mundial do Turismo para Paz e Desenvolvimento Sustentável e o Movimento Brasil de Turismo e Cultura, iniciativas que contam com o apoio do Presidente Lula, a ativa participação pessoal do Ministro Walfrido dos Mares Guia e a parceria de expressivas entidades internacionais como a Organização Mundial do Turismo (OMT) e a Unesco. O conjunto de programas do IH passou a absorver ainda mais o tempo de Sergio Foguel e o motivam intensamente. “A motivação não é o turismo em si, mas o turismo sustentável, aquele que faz bem para o planeta e seus povos.”
De acordo com Sergio, segundo essa visão o turismo é essencialmente um processo de intercâmbio cultural, de convivência de visitantes com as pessoas e a cultura local e vice-versa. E nessa medida é um extraordinário alavancador da paz e do desenvolvimento sustentável. Ele destaca: “Quando o Brasil é sede de um movimento mundial nessa direção, o país começa a passar a todos os povos uma mensagem inequívoca de responsabilidade social”.
Emílio Odebrecht, Presidente do Conselho de Administração da Odebrecht S.A., concorda com essa concepção e reconhece que só uma iniciativa com o potencial transformador e com a magnitude do Fórum Mundial do Turismo justificaria a decisão que Sergio Foguel tomou de não ser reconduzido ao Conselho. "O Fórum necessita da concentração e precisa da liderança de seu idealizador para que produza as conseqüências que dele se espera", diz Emílio. E conclui: "Esta foi a razão pela qual concordei com a opção de Sergio, a quem desejo muito sucesso”.
Opção pelo desafio novo
Sergio Foguel nasceu no Rio Grande do Sul. Logo depois de se formar em Engenharia Civil, foi para a Bahia, em janeiro de 1968, onde criou uma empresa de consultoria. Em 1977 Norberto Odebrecht o convidou a integrar sua equipe na Organização Odebrecht, como Responsável por Planejamento e Desenvolvimento do que viria a se tornar a holding da Organização, que Sergio ajudou a criar, e da qual se tornou Vice-Presidente. Foram 25 anos nessa posição, seguidos de dois anos no Conselho de Administração. Foi colaborador direto de Norberto Odebrecht e depois de Emílio Odebrecht, quando este assumiu a liderança executiva da Organização. Contribuiu para a introdução de novos temas no debate e na vida da Organização, a exemplo do Planejamento Estratégico baseado na Visão (entendida como situação futura desejada), da Governança Corporativa, dos Ativos Intangíveis, da Previdência Privada e da Comunicação Empresarial, matérias que não estavam equacionadas na agenda do grupo até então. Em 1996, recebeu o prêmio Tributo à Paz, do instituto norte-americano Pacem in Terris. Em 2000, tornou-se membro da International Academy for Quality, composta de 60 acadêmicos de todos os continentes. Em 2003, convidado pelo Presidente Lula, passou a integrar o Conselho Nacional de Turismo como um de seus três membros de notório saber. Nesta entrevista, ele fala de sua trajetória na Organização Odebrecht e da decisão de dedicar-se integralmente ao Instituto de Hospitalidade e ao Fórum Mundial de Turismo para Paz e Desenvolvimento Sustentável.
Odebrecht Informa - Em que momento a Odebrecht apareceu e entrou em sua vida?
Sergio Foguel – Eu havia chegado à Bahia motivado pelo ambiente de desenvolvimento capitaneado pela Sudene, para criar uma empresa de consultoria, a Incrementa, tendo como sócios ex-colegas do movimento estudantil e uma empresa gaúcha. Nosso foco eram os projetos industriais. Após meu mestrado na Califórnia, a empresa foi direcionada para planejamento estratégico e desenvolvimento organizacional e passou a atuar em todo o país. Já em 1977, poucos meses depois de eu ter concluído trabalho de consultoria para a Construtora Odebrecht, Dr. Norberto me convidou para integrar a empresa compartilhando de sua visão e missão de transformá-la em um dos maiores grupos empresariais brasileiros. Quando recebi o convite estava para retornar ao Massachusets Institute of Technology (MIT), para dar continuidade aos estudos de doutoramento que havia iniciado em 1976. Mas a admiração pela Odebrecht, a oportunidade de trabalhar não como consultor, mas dentro da empresa, e a certeza de que teria com que colaborar para o seu desenvolvimento e muito a aprender me levaram a aceitar o convite e a postergar a idéia de voltar à universidade. Visualizava algo como dois anos. A oportunidade acabou perdurando por 27 anos!
Sergio Foguel fala sobre sua história na Odebrecht e sobre os novos rumos de sua carreira
OI – Qual foi a sua primeira missão na Odebrecht?
SF – Foi tripartite, em apoio a Dr. Norberto e em articulação com a equipe dirigente da Organização, que passei a integrar: Sistematização das Concepções Filosóficas e Conceitos Fundamentais, Montagem do Sistema de Planejamento em toda a Organização e do Plano Estratégico para a próxima década, e desenho da nova Macroestrutura da Organização. Foi um trabalho frutífero, de geração de fundamentos para o processo de crescimento que se seguiria e prossegue até os dias de hoje.
OI – Quais foram os principais resultados desse período inicial?
SF - Destaco entre os resultados desse período a publicação da primeira edição do livro Sobreviver, Crescer e Perpetuar, Tecnologia Empresarial Odebrecht; o direcionamento estratégico com a visão para o final da década de 80, que materializava a transição de uma construtora nordestina, com alguma atuação no Sul e em projetos especiais, para um grupo empresarial diversificado com atuação internacional; a criação da holding Odebrecht S.A. e a organização das Áreas de Negócios.
OI – Qual foi o seu papel essencial na Odebrecht?
SF – Em retrospectiva, entendo que minha contribuição diferenciada à Odebrecht se deu no fortalecimento da base filosófica e conceitual, no direcionamento estratégico e na estruturação macroorganizacional. Eu diria que o meu papel foi principalmente estruturante. Para usar a nossa linguagem, fui um “provocador”, em especial da atualização de conceitos, temas, sistemas, e dos paradigmas exigidos pelos novos tempos, que permitiram que nos antecipássemos às mutações; da consistência conceitual e sua coerência com a prática. Tive a felicidade de ser parceiro de dois excepcionais líderes, Dr. Norberto e Emílio, que valorizam esse papel, além de formar equipes de companheiros que reconhecem e praticam o requerido questionamento construtivo.
“Eu não tinha mais como continuar a me dividir entre a Odebrecht e os chamados do IH e das mobilizações no setor de turismo”
OI – Embora sua carreira tenha sido eminentemente na área de apoio, você esteve na linha, foi Líder Empresarial. Onde você se sentiu melhor?
SF – A experiência como Líder Empresarial foi circunstancial. Na segunda metade da década de 80 tomamos a decisão de investir em negócios de tecnologia de ponta. Assumi essa responsabilidade e o primeiro negócio foi em automação, com a aquisição da CMW Equipamentos. Foi quando conheci Maurício Novis Botelho, Presidente da empresa, uma pessoa muito especial, além de profissional muito competente, que passou a integrar minha equipe. Efetuada a integração, cerca de um ano após, Maurício assumiu a liderança vinculado diretamente a Emílio. A rigor, a tarefa empresarial, de gerar riquezas morais e materiais, seja ela exercida de forma interna ou externa, me parece em essência a mesma.
OI – Você também foi Presidente da Fundação Odebrecht. Como foi essa experiência?
SF – Fui Presidente da Fundação entre 1995 e 1998. Anteriormente e até abril de 2004 integrei o seu Conselho de Curadores. Minha relação com a Fundação começou bem antes, logo depois que cheguei à Odebrecht, quando participei intensamente de sua reconceituação. Até então a Fundação esatava voltada para apoiar necessidades dos integrantes das nossas empresas. Percebemos que precisávamos dar uma guinada para o exercício da responsabilidade de contribuir para o equacionamento e a solução de carências na sociedade brasileira. Identificamos o adolescente como foco de todo o trabalho, pois é nessa época da vida que se consolida a formação ética e cultural do ser humano. E aí começou um novo momento na história da Fundação, que, por sinal, completará 40 anos em 2005. Foi durante o período no qual presidi a Fundação que, em decorrência de trabalho com jovens na região de Porto Seguro, tivemos contato com as potencialidades do turismo e com a visão de como, neste setor, educação e cultura poderiam alavancar desenvolvimento sustentável. Essa foi a origem do Instituto de Hospitalidade, que acabou sendo fundado por 32 entidades, entre as quais a Fundação, sua instituidora.
OI – Você é tido como um excelente garimpador de talentos. Que pessoas você se orgulha de ter trazido para a Odebrecht?
SF – Ah, muitas. O último foi o José Carlos Grubisich, o Líder Empresarial da Braskem, que fomos buscar em Paris. Sempre entendi que uma Organização é definida pelas pessoas que a integram. É a qualidade das pessoas que define a qualidade da Organização. Sou muito criterioso em relação a isso. Tenho orgulho de ter trazido para a Odebrecht pessoas de altíssimo padrão profissional e ético. Entre as que se integraram inicialmente em minha equipe, são exemplos Newton de Souza, Marcos Lima, Márcio Polidoro e Guilherme Abreu.
OI – Na Odebrecht você teve um papel importante na Fundação e, dentro da Fundação, criou o Instituto de Hospitalidade. É possível dizer que sua carreira foi, aos poucos, se dirigindo para o Terceiro Setor?
SF – A rigor, desde jovem eu tinha uma inclinação forte para a participação social e comunitária. Fui líder estudantil ativo no Rio Grande do Sul e na Executiva Nacional de Estudantes de Engenharia na UNE. A Odebrecht me ofereceu oportunidades para exercer plenamente essa vocação. Não apenas na Fundação e no IH, mas também na formulação da política e do projeto de responsabilidade social do grupo. Proporcionou-me, além disso, intensa participação no Movimento da Qualidade e Competitividade.
OI – Como você se define profissionalmente?
SF – Há três chamados muito fortes que estão sempre presentes em mim. O do executivo, aquele que tem compromisso com fazer acontecer; o do participante social, que tem compromisso com o equacionamento e a solução das demandas comunitárias; e o do intelectual, que tem compromisso com a consistência conceitual e a coerência entre esta e a prática. Dessa combinação há uma resultante, que talvez seja melhor percebida pelos outros do que por mim mesmo.
OI – Você disse que tomou uma decisão difícil ao deixar o Conselho de Administração da Odebrecht para dedicar-se ao IH. Não teria sido mais seguro permanecer na Odebrecht?
SF– Mais do que difícil, foi uma decisão dolorida. Passei praticamente metade da minha vida na Odebrecht, sempre me realizando. Sinto-me perfeitamente bem aqui. Mas eu não tinha mais como continuar a me dividir. O Conselho de Administração não exige dedicação em tempo integral, mas exige atenção integral e pronto atendimento em determinadas circunstâncias. Os exemplos passaram a se suceder, como uma reunião do Conselho Nacional de Turismo que coincidiu com a data de uma reunião do Conselho de Administração da Odebrecht. Havia também o apelo dos parceiros do IH e do Fórum Mundial quanto à necessidade de ampliar minha dedicação pessoal.
Fiquei sensibilizado com esse apelo e por fim me convenci, nos diálogos com Emílio e os demais conselheiros e companheiros da Odebrecht, de que neste momento, sobretudo pela mobilização do Fórum Mundial, eu deveria completar minha missão no IH e na FTPDS, para o que se tornava imprescindível dedicação em tempo integral. Decorridos dois meses da saída, permaneço energizado com os desafios e tenho a saudade do convívio com os companheiros na Odebrecht amenizada pelas várias iniciativazs de ex-companheiros que, como cidadãos, se integram às causas do IH e da FTPDS, e pela parceria institucional da Odebrecht e da Braskem no Fórum Mundial.
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