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O encarregado de montagem Carlos Bezerra dos Santos, 26 anos, baiano da cidade de Paulo Afonso, veio de Vitória, onde vive com a mulher e dois filhos. A soldadora Susana Bandeira, a Gauchinha, 41 anos, deixou Canoas (RS), onde mora com sua filha de 22 anos, e partiu para mais um desafio na profissão que exerce há 10 anos. Francisco Edílson de Souza, o Chico Piauí, 40 anos, natural de Fronteiras (PI), casado, pai de um casal de filhos, chegou para fazer o que mais sabe: fabricar e montar tubulações.
Na parada geral para manutenção na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), da Petrobras, em Araucária (PR), a Odebrecht reuniu especialistas de todo o Brasil. São mais de 690 profissionais, a maioria com experiência adquirida na própria empresa. Eles trabalham em conjunto com outros 4.460 integrantes da Petrobras e das cerca de 70 empresas envolvidas na operação.
“Parece uma grande confusão, mas cada um executa uma função bem-definida, sem poder cometer erros”, diz Carlos Bezerra. Ele comanda uma equipe de montadores que, no começo de junho, trabalhava na instalação das novas tubulações no alto de uma das torres da Unidade de Craqueamento Catalítico, mais conhecida como U-2200, numa altura superior a 80 m. Em conjunto com a Unidade de Destilação Atmosférica (U-2100), que também parou, a U-2200 produz todos os tipos de derivados de petróleo na Repar.
Chico Piauí, que tem mais de 20 anos de experiência e é um especialista em conseguir montar equipes em situações de emergência, mobilizou 40 profissionais do Piauí, muitos dos quais ele mesmo ajudou a treinar em outras obras da Odebrecht. “O processo de seleção é constante. A gente vai escolhendo os melhores até conseguir o melhor time possível”, ele relata. Nem a baixa temperatura, em alguns dias inferior a zero grau, diminui o pique do time. “Que frio o quê!”, garante Chico. “O importante é a gente ter trabalho e fazer o que gosta.”
Susana Bandeira também está bastante motivada. “Não reclamo de nada, gosto de trabalhar nas alturas e de soldar com precisão.” Quanto a ser mulher e trabalhar num ofício tido como típico de homens, ela assegura não haver problema. “Temos muitas mulheres na obra e aqui todos se respeitam, todos se ajudam.”
Renato Rodrigues, Diretor de Contrato da Odebrecht, afirma que só com os melhores profissionais é possível executar com precisão uma obra tão complexa. “O desafio usual em uma parada é dispor de 100% dos conjuntos de tubulações prontos para a montagem final na planta.” Mais conhecidos por seu nome em inglês, spools, esses conjuntos representam a junção, feita na fábrica instalada no canteiro, de vários tubos e conexões em uma série de peças conjugadas para facilitar e tornar mais rápida a montagem.
Os trabalhos foram realizados com a rapidez planejada, ainda que com precauções elevadas ao nível máximo sobretudo no que dizia respeito a Segurança e Qualidade. Henrique Muzy, da Odebrecht, Responsável por Planejamento e Controle, explica: “Paradas são sempre obras complexas, dinâmicas e exaustivas, pois implicam realizar, em curtos períodos, atividades que normalmente demandam prazos maiores”.
Em primeiro lugar, considera-se a perda de produção da unidade em manutenção, que tem forte impacto financeiro e ainda inclui risco de desabastecimento. A U-2100 processa 200 mil barris/dia de petróleo, gerando matérias-primas para as outras unidades da central, particularmente a U-2200. Os derivados produzidos na Repar abastecem o Paraná, o sul de Mato Grosso do Sul, o sul de São Paulo e o norte de Santa Catarina.
“Para não haver desabastecimento, executamos um planejamento minucioso, com participação das empresas envolvidas”, informa Ivan Antunes de Souza, da Petrobras, Gerente de Manutenção Industrial da Repar e Coordenador Geral da Parada. Para tanto, a Petrobras aumentou os estoques de derivados na região e acionou um sistema de cabotagem em que os petroleiros descarregam o produto no Porto de São Francisco do Sul (SC), de onde a distribuição é feita diretamente aos clientes. Para a Odebrecht, o desafio principal é instalar 320 toneladas de tubulações no prazo de 70 dias, nas duas unidades.
Do investimento previsto pela Petrobras no projeto global, nem tudo é dirigido para os trabalhos de manutenção. “Mais de 50% do total são investimentos em sistemas que vão garantir a melhoria do meio ambiente, agregar maior segurança operacional e aumentar a rentabilidade da refinaria”, diz Ivan Souza. “Estamos realizando aqui a maior parada do refino da Petrobras.”
Apesar de tratar-se de parada geral, as duas unidades em manutenção não param ao mesmo tempo. A U-2200 suspendeu o refino em 29 de abril e voltou a produzir em escala comercial em 18 de junho. Antes passou por uma bateria de testes. Já a U-2100 foi paralisada em 24 de maio, com previsão de voltar a refinar em 8 de julho. Desse modo, a suspensão total da produção ficará restrita a apenas 25 dias.
A Odebrecht iniciou seus trabalhos na obra em 5 de janeiro. A atuação da empresa incluiu planejamento, pré-fabricação e montagem dos andaimes, desmontagem das linhas de tubulação antigas, pré-montagem das novas tubulações, fabricação e instalação de suportes, pintura, inspeção de soldagem, testes hidrostáticos e de pressão, lavagem e limpeza das linhas e entrega das plantas para a operação comercial.
Para que tudo funcionasse conforme o planejado, foi necessário um controle físico e computadorizado pleno. Os 304 desenhos de tubulações da U-2200 transformaram-se em 1.216 spools, com 8.545 soldas numeradas uma a uma, de maneira a disponibilizar, em qualquer fase da vida da unidade, o nome do soldador que a executou, o processo utilizado, os eletrodos consumidos, a data de conclusão da solda, os laudos dos exames que atestaram sua qualidade e outros detalhes.
Trata-se de um processo denominado “rastreabilidade plena”, exigido pelas severas normas da indústria petrolífera, notadamente da Petrobras. Em uma refinaria, trabalha-se com fluidos inflamáveis, alguns tóxicos, outros letais, submetidos a classes extremas de pressão e temperatura.
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