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As obras da Linha 4 – a Linha Amarela – da Companhia do Metropolitano de São Paulo apresentam um conjunto de desafios raramente visto em empreendimentos desse tipo. Construída a uma profundidade de até 40 m, a linha ligará alguns dos bairros mais importantes e densamente povoados da cidade, do Centro à zona Oeste. Por isso, e por haver perfuração de diferentes tipos de solos, exige a aplicação simultânea das mais diversas técnicas construtivas para a execução de túneis. Tudo antecedido de cuidados ambientais e até de acompanhamento arqueológico. O empreendimento também traz novidade quanto ao modelo de contratação: é do tipo turn key (preço fechado), que a Companhia do Metrô pratica pela primeira vez.
Ao conquistar esse contrato, a Construtora Norberto Odebrecht se defrontou também com outra situação inusitada no Brasil: a construção simultânea de duas linhas de metrô em uma cidade. A outra obra é o prolongamento da Linha 2 (Verde), ligando as estações Ana Rosa e Imigrantes, na região Sudeste. Trata-se de um desafio tão importante e complexo quanto o que enfrenta em Caracas, onde também constrói duas linhas na cidade, mais a Linha de Los Teques, na Grande Caracas). E ainda há as obras em execução no Rio de Janeiro (veja reportagem nas páginas 39 e 40) e em Lisboa. Com isso, a empresa é hoje a maior construtora de metrô do Brasil e uma das maiores do mundo nessa especialidade.
Na Linha 4, a Odebrecht, através da subsidiária CBPO Engenharia Ltda., lidera o Consórcio Via Amarela – integrado ainda pelas empresas Queiroz Galvão, OAS e Alstom –, responsável pelos lotes 1 e 2. Isso é praticamente toda a extensão da linha de 12,8 km, do bairro da Luz, no Centro, ao pátio de manobras da Vila Sônia, passando pelo Morumbi. O Lote 3, que se restringe ao pátio, é de responsabilidade do consórcio formado pelas construtoras Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez.
“Esta é a maior obra de engenharia que se realiza hoje no Brasil”, diz Fábio Andreani Gandolfo, Diretor de Contrato da Odebrecht. “Ela tem um significado especial para a nossa empresa, no ano em que ela comemora 60 anos de fundação, por possibilitar-nos a aplicação de um vasto conhecimento tecnológico acumulado nesse período.”
Para o Governo do Estado, o empreendimento é fundamental. “Através da Secretaria de Transportes Metropolitanos, o Governador Geraldo Alckmin dá especial atenção a ele, não só por seu porte, mas também por sua função integradora em relação às demais linhas de metrô e trem existentes na Grande São Paulo”, acrescenta Gandolfo, também Diretor de Contrato da Linha 2.
A Linha 4 vai cruzar as linhas l, 3 e 2 (pela ordem) da Companhia do Metrô, bem como as linhas ferroviárias A, E, D e C da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos – CPTM. Terá capacidade para transportar 900 mil passageiros/dia, num trajeto considerado de fundamental importância para a população devido aos bairros que atravessa: Centro, Higienópolis, Consolação, Pinheiros, Butantã, Morumbi e Vila Sônia.
Metrô e CPTM transportam 3,9 milhões de passageiros por dia
“O traçado dessa linha percorre um dos trechos mais importantes da capital, em termos sociais e econômicos”, diz Nicolas Eduardo Tawing, Gerente Operacional da Odebrecht no projeto. Nesses bairros e em suas respectivas áreas de influência, convivem as diversas camadas sociais que caracterizam a metrópole, desde os muito pobres até os mais ricos. Ela cruzará as mais movimentadas linhas da CPTM na área central, justamente na região onde fica a Estação da Luz; a Linha 2 do Metrô, na Estação Consolação, em pleno espigão da Avenida Paulista, nas vizinhanças dos bairros dos Jardins; e a Linha C da CPTM, na Avenida Marginal do Rio Pinheiros, no bairro de Pinheiros, importante pólo comercial e residencial.
A Linha C liga a vizinha cidade de Osasco ao bairro de Jurubatuba, nas proximidades do Autódromo de Interlagos, e também se conecta, na Estação Santo Amaro, com a Linha 5 (Lilás) do Metrô (construída recentemente pela Odebrecht). O significado dessas conexões é que o Metrô paulistano passou a percorrer rapidamente o caminho que o levará a uma total integração com suas principais linhas e com as da CPTM.
Toda subterrânea, só aflorando no pátio de Vila Sônia, a Linha 4 terá 23 frentes de trabalho simultâneas. Seis delas já foram abertas nos bairros de Vila Sônia, Butantã e Higienópolis. Em Higienópolis, nas proximidades da Universidade Mackenzie, foi encontrado, pela equipe especializada, um pequeno sítio de relativo valor arqueológico: restos da casa onde, há cerca de 80 anos, morou um pastor do então Colégio Mackenzie. Os achados foram retirados e guardados pela Cia. do Metropolitano.
A maior parte dos túneis será perfurada com metodologia Shield. Um trecho pequeno, junto ao pátio de Vila Sônia, utilizará o sistema Cut and Cover (ou Vala Comum a Céu Aberto) e as estações, o NATM (New Austrian Tunnelling Method). O sistema Cut and Cover exige, em primeiro lugar, a execução de uma parede-diafragma de concreto delineando toda a periferia da área a ser trabalhada. São executadas em seguida as escavações e o escoramento das valas com perfis metálicos ou cabos protendidos. Na seqüência, é a vez da estrutura definitiva, dos aterros e da recomposição do sistema viário de superfície. Com o método NATM, conhecido no Brasil como túnel mineiro, a perfuração é feita com escavadora e fresa (espécie de broca em forma de cone denteado). O trecho perfurado é imediatamente dotado de uma estrutura provisória, que serve de revestimento e de acomodação do maciço. A estrutura é provida de cambotas (arcos) metálicas, recobertas de concreto projetado com bombas especiais, enquanto o revestimento final é todo de concreto armado.
Ao longo dos seus quase 13 km de extensão, a Linha 4 foi projetada para ter 11 estações. Nesta primeira fase, contudo, a Companhia do Metrô optou por executar as estruturas de nove delas, das quais apenas cinco operarão quando o atual contrato for concluído: Luz, República, Paulista, Pinheiros e Butantã.
O valor do contrato, incluindo a instalação dos sistemas operacionais dos trens, é de US$ 600 milhões, com recursos do Banco Mundial, Japan Bank International Cooperation (JBIC) e Governo do Estado de São Paulo, cada um com um terço do total. A obra irá gerar, no pico dos trabalhos, mais de 2.800 oportunidades diretas de trabalho e 4.000 indiretas.
A Linha 2, por sua vez, só utilizou até agora recursos do Estado, que lhe reservou R$ 111 milhões do Orçamento de 2004. Mas o Metrô está negociando um empréstimo de R$ 390 milhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com o qual terminará a primeira fase do projeto.
Continuação do trecho que liga a Vila Madalena à Vila Mariana, após cortar o espigão da Avenida Paulista, a extensão da Linha 2 unirá a Estação Ana Rosa, onde já se conecta com a Linha 1 (Azul), ao bairro do Sacomã, passando pela Vila Mariana, Chácara Klabin, Imigrantes e Ipiranga. Serão quatro novas estações, além das oito já existentes, e 5,1 km de extensão de vias.
As obras serão realizadas em duas fases. A primeira, com 2,9 km de extensão, deverá estar pronta em 2006, colocando-se em operação as estações Chácara Klabin e Imigrantes. “Esse trecho atenderá mais de 35.000 passageiros/dia, beneficiando principalmente os moradores da região sudeste da capital”, diz Celso Rodrigues, Gerente Operacional do projeto pela Odebrecht. Na fase 2 serão construídas as estações Ipiranga e Sacomã, com mais 2,2 km de linhas. A CBPO Engenharia Ltda., subsidiária da Odebrecht, é responsável pelas obras civis do Lote 2 do projeto, Chácara Klabin-Imigrantes, devendo entregá-las em 24 meses. Cerca de 600 homens serão empregados no pico dos trabalhos.
Também na Linha 2 serão utilizados os métodos NATM para os trechos subterrâneos da via e Cut and Cover, nos trechos de transição dos túneis para o trecho elevado próximo à Estação Imigrantes. A extensão do total do trecho é de 1,6 km.
Antes mesmo de as linhas 2 e 4 ficarem prontas, seus futuros usuários já imaginam o quanto elas lhes serão úteis. Saindo da Chácara Klabin, o zelador Pompílio de Souza, 41 anos, demora até 50 minutos para chegar ao curso que faz no bairro do Belém, na zona Leste. “Com a Estação Klabin, vou demorar apenas 20 minutos, mesmo tendo de pegar a Linha 2, me transferir para a 1 e depois para a 3, que serve o Belém.”
Carolina Silva Teles Moreira, auxiliar administrativa, 19 anos, gasta hoje quase duas horas de casa, na Vila Guilhermina, Zona Leste, ao trabalho, próximo à futura Estação Imigrantes, na região sudeste. “Vou passar a fazer o trajeto em 45 minutos. Vai ser uma maravilha.”
Os estudantes Fábio Lopes e Nicolas Yuri, ambos com 17 anos, moram na Lapa, zona Oeste, e estudam no Mackenzie, em Higienópolis, bem perto de uma das futuras estações da Linha 4. Eles poderão fazer todo o trajeto de trem e metrô: basta tomar o trem da CPTM na Lapa, baldearem-se para a Linha 2 do Metrô na Barra Funda, descer na Estação República e tomar uma composição da Linha 4 até a escola. “Perto do que é agora, será uma moleza”, acredita Nicolas.
Dilma Di Giacomo, 34 anos, comerciante instalada perto da futura Linha 4, em Pinheiros, diz: “O movimento de clientes na minha loja vai melhorar, assim como a disposição de meus funcionários, que gastam muito tempo para vir ao trabalho. Além disso, a qualidade de vida na região também vai melhorar, com a diminuição do fluxo de carros e da poluição”.
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