Edição Histórica - Novembro de 2004
 Publicação interna da Organização Odebrecht – Odebrecht S.A, Construtora Norberto Odebrecht, Braskem e Fundação Odebrecht
Editorial
A História Essencial
Imigração Germânica
Emílio Odebrecht, o Pioneiro
Norberto Odebrecht, o Fundador
Desenvolvimento Regional
e Novas Oportunidades
A Empresa Nacional
Diversificação e Crescimento Internacional
A Organização Internacional
Liderança na Petroquímica Latino-Americana
Ação Social e Ação Cultural
Depoimentos
Linha do Tempo
Expediente
 
  

Desenvolvimento Regional
e Novas Oportunidades
A criação da Petrobras, em 1953, e a da Sudene,
em 1959, abriram caminhos para o crescimento
da Odebrecht na Bahia e no Nordeste

Depois que a Saici foi desativada, a Construtora Norberto Odebrecht começou a viver um momento decisivo. A empresa conquistou obras novas, algumas delas de extrema complexidade. Mas para garantir sua sobrevivência imediata era obrigada a manter um grande número de pequenas obras em carteira. As construtoras do Sudeste do país trabalhavam de maneira diferente. Tocavam poucas obras de grande porte e assim podiam adotar a centralização. A Odebrecht, ao contrário, preferiu aperfeiçoar a prática da descentralização, da delegação planejada, da parceria e da partilha de resultados, conceitos que iriam se tornar cada vez mais sólidos ao longo da história da empresa.

Desde os primeiros tempos, o Ser Humano sempre foi o centro de toda a filosofia. A possibilidade de ganhar horas extras, algo excepcional na Salvador daqueles tempos, mas rotineiro na Norberto Odebrecht, era um estímulo a mais para os trabalhadores. Eles íam para locais distantes e havia o cuidado de se garantir a segurança da família que ficava em casa. Todos viajavam tranqüilos. Norberto e sua equipe de colaboradores se empenhavam para que nada faltasse aos trabalhadores que se deslocavam para longe de suas famílias. “Deixa que eu cuido”, dizia ele, por saber que ninguém é capaz de produzir direito quando pressionado por questões familiares. “Cuide do nosso negócio que dos seus problemas cuido eu”, completava.

Os trabalhadores mais experientes passaram a ter a companhia de um grupo de jovens com talento e disposição para aprender e se desenvolver. Alguns deles, como Benedito Luz, Henrique Browne Ribeiro, Nilo Simões Pedreira, Piero Marianetti, Roberto Campos e Walter Caymmi Gomes teriam, anos mais tarde, papel decisivo no crescimento da empresa. Eles contavam com o apoio de Emílio Odebrecht, o pai de Norberto, que voltara à empresa como calculista e transmitia aos jovens a sua vasta experiência empresarial.

E os negócios iam aparecendo. Entre 1953 e 1954, destacaram-se o depósito de cacau em concreto armado para a F. Stevenson & Co., em Itabuna; a ampliação da fábrica da Cia. de Cigarros Souza Cruz e da ponte-barragem do Rio Joanes, com 132 m de comprimento e 19 m de altura, em Salvador; e o porto de Canavieiras, um cais de 400 m de comprimento.

Foi quando a Norberto Odebrecht conquistou um novo Cliente, a Petrobras, criada em outubro de 1953. O germe da nova empresa vinha de muito antes. O “ouro negro” havia sido visto por Oscar Cordeiro, presidente da Bolsa de Mercadorias da Bahia, e pelo agrônomo Manuel Inácio Barros em 1931, em Lobato, subúrbio de Salvador. Eles concluíram que a lama preta usada pelos moradores de lá como fluído para iluminação era petróleo.

“Petróleo de verdade!”, com ponto de exclamação e tudo, foi a manchete do jornal Estado da Bahia do dia 23 de janeiro de 1939. O repórter fora a Lobato e lá vira, junto à sonda, “um líquido negro que sobrenadava numa poça de chuva”. Dois dias antes, um sábado, Cordeiro havia estado lá para passar pela “sensação mais formidável de sua vida”, como disse. Os trabalhadores haviam encerrado a jornada com a sonda do poço número 163 atingindo 214 m de profundidade. Cordeiro viu “o petróleo que minava pela boca do poço e corria pelo chão, rumo ao leito da estrada de ferro”. Estava desmentida, definitivamente, a lenda de que não havia petróleo no Brasil.

A Norberto Odebrecht ligou-se à futura maior empresa do Brasil desde seu primeiro momento. Inicialmente, construindo as instalações de apoio para as equipes no município de Candeias. Depois, estações de tratamento de água, plataformas marítimas, pontes, canais, barragens, armazéns, casas de força, dragagens, laboratórios, residências, clubes, oficinas e rodovias, entre outros, pelo país afora. Alguns desses projetos eram desafios para a engenharia de construção, exigindo técnica, criatividade e larga experiência. A relação entre a Odebrecht e a Petrobras iria se consolidar ao longo de cinco décadas e gerar resultados decisivos para a então nascente indústria brasileira de petróleo.

Começou com um problema a ser resolvido. Foi em 1953, quando a Norberto Odebrecht participava da construção do oleoduto Catu-Candeias, que trazia para a Refinaria de Mataripe o óleo extraído no novo campo de Catu. Ampliada pela produção de novos poços, Mataripe passou a refinar cerca de 5 mil barris por dia. A partir de 1957, porém, precisou ser ampliada para multiplicar por 10 sua capacidade. O problema era o massapê, um tipo de solo pegajoso que se transforma em manguezais e lama, dificultando o tráfego de pessoal, carros e equipamentos. Foi então construído um cais de 120 m, em pleno mangue, cuja camada de lama chegava aos 9 m de espessura.

Se extrair petróleo em terra firme era difícil, no mar era muito mais. Com poucos recursos financeiros e tecnológicos, mas contando com um punhado de homens corajosos, a construtora tornou-se pioneira nesse tipo de trabalho. Tinha apenas bate-estacas instalados nos saveiros, flutuantes e improvisados, manejados com maestria pelos trabalhadores. “Em noites de tempestade”, lembra Norberto, “os saveiros costumavam perder-se e as lanternas a querosene eram o único meio de sinalização entre eles e as plataformas”. O trabalho criativo era exigido mais do que nunca. Um dos seus exemplos mais notáveis foi o uso de grandes tanques de ferro soldados uns aos outros para funcionar como flutuadores no apoio à instalação das plataformas marítimas no campo de D. João, entre 1958 e 1961. Essas plataformas eram construídas em concreto armado e os últimos 10 m das estacas em aço, preenchidas, depois, com o concreto.

A construção da Petrobras representou um salto sem precedentes no mercado de construção industrial da Bahia

Os 51 anos de trajetória conjunta Odebrecht-Petrobras incluem, no total, a construção e montagem de refinarias e plataformas, estradas, prédios, portos e a perfuração de 140 poços no mar. A Petrobras tinha assessoria de empresas e projetistas de nível internacional e os modernos processos técnicos e gerenciais foram de grande valia no aperfeiçoamento das duas empresas. A Odebrecht construiu a primeira fábrica de borracha sintética brasileira, a Companhia Pernambucana de Borracha Sintética (Coperbo), subsidiária da Petrobras, entre 1962 e 1965, ano em que foram levantadas também as fábricas de gasolina natural em Catu, Mataripe e Madre de Deus, na Bahia.

O símbolo mais visível da união entre as duas empresas despontou na paisagem carioca em 1969. O edifício-sede da Petrobras, com 120 mil m2 de área construída, 27 andares e 117 m de altura, foi erguido em tempo recorde, 36 meses. Na época era a maior estrutura monolítica da América Latina. Essa obra credenciou a Norberto Odebrecht a construir também uma garagem subterrânea de 28 mil m2, para 1.200 carros, além da Praça Pública, estação de bondes de Santa Teresa, viadutos de acesso e da urbanização da esplanada de Santo Antônio.

O início desse relacionamento deu-se ao longo de um momento muito especial da história do Brasil. Depois do dramático desfecho da era Vargas, em agosto de 1954, quando o Presidente da República se matou com um tiro “para serenamente deixar a vida e entrar na História”, como escreveu na sua carta-testamento, o país ansiava por novos tempos.

Eles começaram a chegar dois anos depois, a partir da posse do novo Presidente Juscelino Kubitschek, em 31 de janeiro de 1956. Não só o Brasil se modernizaria a todo vapor como também deveriam se passar cinqüenta anos, e não cinco, como mandava o calendário. Este era o lema ambicioso, otimista e arrojado do governo JK. Tinha um binômio como lema, “energia e transporte”.

Aos 54 anos, o presidente transmitia uma imagem de força, disposição para o trabalho e otimismo como há muito não se via no país. Tinha muitos planos, que pretendiam desenvolver o Brasil de maneira acelerada. Um deles era o Plano de Metas. Algumas atingiram o alvo pretendido, outras não. Os 3,1 milhões de KW instalados no país em 1956 saltaram para mais de 5 milhões de KW em 1960, menos que o projetado. Deveriam ser abertos 12 mil km de novas rodovias, mas neste caso a meta foi ultrapassada, com 13 mil km.

Um marco desse período foi o Teatro Castro Alves, em Salvador, aspiração baiana tão antiga que, em 1948, o deputado Berbet de Castro reclamava: “É realmente lamentável que em pleno século XX, e quando se apresta para as celebrações engalanadas do quarto centenário de sua fundação, a velha e tradicional cidade do Salvador, a primeira do Brasil, por tantos e tamanhos títulos, ainda se ressinta de um teatro à altura dos seus magníficos forais de cultura e espiritualidade”.

O empreendimento começou a ser executado nove anos depois, quando Antonio Balbino era o Governador. O projeto dos arquitetos Bina Fonyat e Humberto Lopes surpreendeu o público baiano, que esperava um edifício tradicional, similar aos teatros municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Houve controvérsias públicas na ocasião, mas a menção honrosa recebida na 1ª Bienal de Artes Plásticas de Teatro, em São Paulo, ratificou o acerto do projeto, que ainda hoje encanta o público que o visita.

Antonio Balbino exigiu rapidez da Norberto Odebrecht, em junho de 1957. A Construtora precisou fazer modificações no projeto original, pois constatara deficiências como falta de camarins coletivos, guarda-roupas, local apropriado para ensaio do corpo de balé e do coro e esquema de solução técnica para mudança de cenário. Apesar disso, em 11 meses o Castro Alves estava pronto, com suas 1.700 poltronas, mais 4 mil lugares no anfiteatro ao ar livre da Concha Acústica (os teatros municipais do Rio e de São Paulo, cidades bem maiores que Salvador, tinham respectivamente, 1.800 e 1.600 assentos).

Entregue oficialmente ao Governo do Estado em 2 de julho de 1958, data em que se comemora a independência da Bahia, o Castro Alves foi aberto à visitação pública. Mas o espetáculo de inauguração, marcado para o dia 14 com a apresentação do balé do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, não se realizou. Cinco dias antes, um incêndio destruiu completamente o corpo principal do prédio, deixando intacta apenas a Concha Acústica. O governador saiu de madrugada do Palácio da Aclamação, perto dali, e chorou diante das cinzas. O teatro só seria inaugurado em 1967.

No ambiente brasileiro da passagem dos anos 1950 para 1960 respirava-se otimismo e euforia. Em 1959, a Odebrecht patrocinava sua primeira edição cultural, o livro Homenagem à Bahia Antiga, e em 1965 era criada a Fundação Odebrecht. O Nordeste também passava por uma fase de expansão e progresso impulsionado pela criação da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), sediada em Recife, onde a Norberto Odebrecht abriu filial em 1962 e de onde passou a coordenar um grande número de obras nas regiões Nordeste e Norte. Antes disso a Odebrecht já havia construído a Cia. Empório Industrial do Norte, abrigando a casa de máquinas e fundações de caldeiras e turbinas da Fábrica de Tecidos Luís Tarquínio; o depósito em concreto armado das Empresas Reunidas Correa Ribeiro; ampliado o Moinho da Bahia e erguido o conjunto industrial da Sanbra – Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro, obras localizadas em Salvador e realizadas entre 1956 e 1957.

No Nordeste, a empresa seria responsável pela construção da fábrica para montagem de veículos e do armazém de peças da Willys Overland e dos conjuntos industriais da Coperbo, da Alpargatas Confecções, e da Tintas Coral do Nordeste, empreendimentos no estado de Pernambuco, além de outros projetos para organizações nacionais e internacionais que se implantariam na região.

Nos anos 60, o Nordeste respirava otimismo e passava por uma fase de expansão com a criação da Sudene

Os contratos da construtora se multiplicavam e ela seria responsável pela introdução, em todo o Nordeste, de muitos dos recursos e equipamentos hoje empregados corriqueiramente. Era dela, por exemplo, o primeiro guindaste usado nas obras, um avanço considerável, em lugar dos elevadores metálicos. Ousou incorporar tubulões e vigas-alavanca, além de revolucionar a tecnologia de construção civil na região com o uso intensivo do concreto protendido.

Uma das primeiras obras de concreto pré-moldado da Bahia foi a ponte do Funil, ligando a ilha de Itaparica ao continente, na Baía de Todos os Santos, em 1968. Ela é um exemplo da variante oferecida ao Cliente, como modo mais criativo e econômico de realizar um projeto. Sem equipamentos para erguer grandes pesos, os trabalhadores iam inventando ferramentas de trabalho e movendo peças gigantescas com macacos hidráulicos pouco maiores que os de levantar automóveis. Essa ponte seria construída, segundo a praxe, com escoramento para concreto. Fazia-se a ponte de madeira e sobre ela se construía a de concreto, removendo-se então a primeira. Os custos, assim, dobravam. A construtora optou pela variante de concreto pré-moldado, mais barata. Apesar da correnteza, que dificultou muito os trabalhos, ela tornou-se uma realidade de 660 m de comprimento, apoiada em tubulões de ar comprimido com até 25 m de profundidade.

A experiência da Construtora nos anos 60 fortaleceu sua capacitação em dois campos fundamentais para seu crescimento como empresa nacional. Primeiro, passaria a dominar obras de grande porte. Dois bons exemplos são a barragem de Pedras, sobre o Rio de Contas, com 408 m de extensão e quase 70 m de altura, que exigiram a colocação de mais de 300 mil m3 de concreto, e a ponte rodoferroviária Propriá-Colégio, sobre o Rio São Francisco, com 832 m de extensão e cujas fundações profundas exigiram o engaste de tubulões diretamente na rocha até 70 m abaixo do nível do rio.

Mas, principalmente, a Construtora ganhara competência gerencial para administrar obras de logística complexa, com grandes contingentes de pessoas e grandes volumes de materiais. Essa nova qualificação, aliada à filosofia empresarial que cada vez se tornava mais sólida e disseminada entre as equipes, foi o passaporte com o qual a empresa desembarcou, no final da década, no Sudeste do Brasil.


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