Edição Histórica - Novembro de 2004
 Publicação interna da Organização Odebrecht – Odebrecht S.A, Construtora Norberto Odebrecht, Braskem e Fundação Odebrecht
Editorial
A História Essencial
Imigração Germânica
Emílio Odebrecht, o Pioneiro
Norberto Odebrecht, o Fundador
Desenvolvimento Regional
e Novas Oportunidades
A Empresa Nacional
Diversificação e Crescimento Internacional
A Organização Internacional
Liderança na Petroquímica Latino-Americana
Ação Social e Ação Cultural
Depoimentos
Linha do Tempo
Expediente
 
  

A Empresa Nacional
A partir de 1968, capacitada em obras de tecnologia
especial, a Odebrecht passa a atuar na maioria dos
estados brasileiros, onde realiza obras de grande
porte. Em 1979, faz seus primeiros movimentos no
exterior e começa a investir no setor petroquímico

O edifício-sede da Petrobras, iniciado no fim de uma década, 1969, e concluído no começo de outra, 1971, simbolizou de certa forma uma extraordinária passagem na vida da Construtora Norberto Odebrecht. Foi uma mudança geográfica, ampliando horizontes, técnica, acrescentando conhecimentos, e política, lançando a empresa em novos caminhos, diversificando-a e projetando-a rumo ao futuro. A década se abria com grandes esperanças de crescimento econômico. No Brasil, entre 1970 e 1973, o Produto Interno Bruto cresceu a uma média de 10% ao ano. Mas, no final de 1973, os membros da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) decretaram um embargo nas suas exportações. O preço do barril de petróleo saltou de US$ 2,2 para US$ 22,5 nos seis anos seguintes. Sem chegar a produzir 20% do seu consumo, o Brasil foi um dos países mais atingidos pela alta. Houve um programa para economizar combustível mas ainda assim o consumo de 800 mil barris diários em 1975 subiu para 1,1 milhão em 1979. Naquele ano a conta brasileira de importação de petróleo chegou a US$ 7 bilhões, apontando grandes dificuldades para a década seguinte.

Enquanto isso, os anos de desenvolvimento empurraram para cima as indústrias de bens de consumo durável e de produção, construção civil, comércio – que passou a ser capitaneado por supermercados e shopping centers – e o sistema viário. Com mais de 500 obras a seu crédito, a Construtora Norberto Odebrecht passava por confortável situação financeira e já era uma das principais construtoras do Nordeste. Tocava obras dentro e fora da região, como a rodovia BR-324, trecho Salvador-Feira de Santana, o altoforno número 4 da Usiminas, em Minas Gerais, a estação de tratamento de água de Tapacurá, em Pernambuco, o emissário submarino de Salvador, com 3.350 m, 2.350 dos quais submersos, e o Othon Palace Hotel, cinco estrelas na capital baiana, com 301 apartamentos, todos com vista para o mar.

O Brasil, entretanto, precisava de algo mais que grandes obras. Pedia, também, novas capacitações. Nos anos 50 o país importara tecnologia estrangeira para construção de grandes hidrelétricas. A engenharia brasileira absorveu e aprimorou tão bem os conhecimentos que passou a exportar essa tecnologia.

O Brasil precisava fazer obras de tecnologia especial: metrôs, usinas nucleares, aeroportos e pontes com grandes vãos

Nos anos 70 o desafio era outro. O Brasil iria fazer obras de tecnologia especial, que sua engenharia não conhecia: metrôs, usinas nucleares, grandes aeroportos, pontes com grandes vãos. A demanda por construtoras exigia atributos menos voltados à construção e mais à capacidade de gerenciar grandes projetos, dominar equipamentos e tecnologias de ponta e garantir prazos estratégicos.

Os novos desafios eram bem a gosto da tradição das equipes da Odebrecht, sempre voltadas ao uso e ao desenvolvimento de processos pioneiros. Fortalecida por sua experiência no Nordeste, a Construtora, a partir da conquista da obra do edifício-sede da Petrobras, no Rio de Janeiro, concluiu que chegara sua hora de disputar o mercado de edificações de tecnologia especial no Centro-Sul, onde despontava um ciclo de grandes construções. Assim, ganhou a concorrência para as obras do campus da Universidade da Guanabara (atual Uerj), construída entre 1970 e 1976, com 20 edifícios de 12 pavimentos cada, rampas, passarelas, um teatro e concha acústica ao ar livre para 3.500 pessoas. Entre 1971 e 1976 levantou o Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, vencendo um desafio de muitas faces. A construtora tinha de administrar, simultaneamente, um número elevadíssimo de grandes e pequenos empreiteiros e subempreiteiros, mais de 180. Além disso, a obra envolvia um numeroso conjunto de órgãos federais, estaduais e municipais, fora a própria comunidade. As empresas a serem contratadas deveriam ter mais inteligência que ativo físico e grande capacidade de mobilizar pessoas comprometidas com a criatividade e a inovação

Os contratos, grandes e desafiadores, se multiplicavam. Mal começou a obra do Aeroporto, foi aberta a licitação de uma outra, bem mais audaciosa, para a construção da primeira usina nuclear brasileira, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Ela exigia uma tecnologia que nenhuma empresa construtora dominava plenamente no país. E era necessária para ajudar a vencer o déficit de energia do Brasil, que estrangulava o processo de industrialização e o colocava numa posição incômoda, o de 49º no mundo em consumo de energia global per capita.

No começo dos anos 70, foi publicado o edital de concorrência para a construção da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto. Era um documento extraordinariamente rigoroso. Procurava uma empresa administradora, prestadora de serviços, com as seguintes características: flexibilidade para adaptar-se a novas circunstâncias, com reconhecida experiência em obras industriais; acervo de serviços diversificados, e que não tivesse trabalhado exclusivamente com grande volume de concreto ou de movimento de terra; profissional capaz de absorver tecnologia estrangeira e de integrar-se às diversas consultorias e projetistas, fornecedores de equipamentos e montadores. Principalmente, que aceitasse e compreendesse o tipo de contrato por administração e que estivesse disposta a dedicar-se aos objetivos do desenvolvimento da energia nuclear no Brasil.

A Norberto Odebrecht, atendendo a todas essas exigências, ganhou a obra depois de uma acirrada disputa com gigantes do setor. Associara-se à J. A. Jones Construction Company, empresa americana com tradição em construções nucleares, e apresentou a proposta comercialmente mais adequada, além de garantia técnica. Antes de fechar o contrato havia sido vistoriada por técnicos de Furnas Centrais Elétricas S.A., a subsidiária da Eletrobrás contratante dos serviços, que percorreram suas obras industriais e as avaliaram. Depois, discutiram com equipes da Norberto Odebrecht seus métodos de programação e planejamento.

Rumo ao Sul, a construtora foi contratada em 1973 para construir a ponte Colombo Salles, ligando a ilha de Florianópolis ao continente. Era uma feliz coincidência estar de volta às origens, pois em 1925 o catarinense Emílio Odebrecht, pai de Norberto, construíra a ponte dos Arcos, sobre o rio Itajaí-Açu, em Indaial. Meio século depois, usando sua experiência em fundações de concreto protendido, a Construtora propôs uma variante para a ponte Colombo Salles, tornando-a mais simples e economicamente viável com o uso de balanços sucessivos e abrindo mão de uma rótula central.

A Odebrecht caminhava também rumo a outras regiões do país. No Norte, o Teatro Amazonas, jóia e lembrança do esplendor e da decadência do ciclo da borracha, inaugurado em 1896, estava apodrecendo dia a dia, ano após ano. A cúpula, a calçada recoberta por pedra lioz, o plafond monumental da sala de espetáculos, o plafond do salão nobre, tudo chegara a um “estado desastroso”, segundo um relatório de 1970 da Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Dphan). O enorme rol da deteriorização incluía de goteiras a fios soltos pelas paredes, de estruturas abaladas a painéis infiltrados de água. A Construtora Norberto Odebrecht apresentou um projeto para preservar as características do prédio e de suas obras de arte, trocando tudo o que fosse imprestável e tornando o teatro confortável e seguro.

E assim foi feito, seguindo-se à risca a filosofia de recuperar utilizando modernos recursos técnicos. O crítico e historiador de arte Clarival do Prado Valladares em seu livro Restauração e Recuperação do Teatro Amazonas, publicado pela Construtora Norberto Odebrecht na ocasião da entrega da obra ao público, em janeiro de 1975, escreveu: “O Teatro Amazonas, depois da reforma, deixa de ser objeto ocioso, de luxo e de lembranças românticas, para se tornar um moderno instrumento de cultura e de civilização”.

A marca da Odebrecht estampava-se agora em todo o país, mas o Nordeste jamais foi abandonado. Pelo contrário. Foi ali que a empresa passou a servir a um novo Cliente, o do setor petroquímico, com a construção a partir de 1973 da Central Termoelétrica da Copene (Companhia Petroquímica Nordeste). Situada em Camaçari, no Recôncavo Baiano, a Copene fora projetada para ser a central de matérias-primas do pólo local.

Em 1967, havia sido criada a Petrobras Química S.A. (Petroquisa), subsidiária da Petrobras, para ser a holding de associações tripartite entre empresas nacionais, multinacionais e a estatal. Buscava suprir a carência, cada vez mais intensa, de produtos derivados de petróleo. No ano seguinte, nasceu a Petroquímica União, que entrou em operação em 1972. Era a primeira central produtora de matérias-primas desse tipo no país.

Com a plataforma Norbe I, a Odebrecht contribuía para o esforço nacional em acelerar o equacionamento do problema energético

A criação do Pólo Petroquímico de Camaçari foi uma conquista decisiva da Bahia no rumo de sua industrialização. O longo processo de definição sobre a instalação do pólo envolveu a gestão de três governadores: o início, com Luiz Viana Filho (1967-1971), o desenvolvimento, com Antonio Carlos Magalhães (1971-1975), e a conclusão e o princípio de operação, com Roberto Santos (1975-1979). Envolveu também esforços das lideranças empresariais do estado, que demandavam para a Bahia novos investimentos industriais, tendo à frente a Empreendimentos da Bahia S.A. e o grupo Celso da Rocha Miranda. A primeira, fundada no começo dos anos 1960, era formada por Norberto Odebrecht, Fernando de Góes – líder do Banco da Bahia –, Fernando Correa Ribeiro – líder do grupo Correa Ribeiro – e Miguel Calmon – do Grupo Econômico. Eles haviam erguido o Centro Industrial de Aratu, que em pouco tempo se tornou um dos mais modernos do país. Em 1971, os baianos venceram uma dura concorrência com os paulistas para sediar um novo pólo no país e assim nasceu o Pólo Petroquímico de Camaçari, com 29 mil m2 de obras erguidas pela Odebrecht em consórcio com a Ishikawajima e a Marubeni.

As projeções para 1974 e 1975 apontavam novas ferrovias, vias expressas, obras de saneamento e siderurgia, entre outras. A Odebrecht fez a ponte ferroviária marítima, de 1.546 m de extensão, no Canal de Bertioga (SP), o Shopping Center Iguatemi Bahia, na época um dos maiores do país, e mais tarde outro shopping, o Rio Sul, no Rio de Janeiro, com uma torre de escritórios de 40 pavimentos e 160 m de altura. Levantou o primeiro bairro integrado do Brasil, o loteamento Caminho das Árvores, a primeira comunidade planejada da Bahia, Vilas do Atlântico, e o Portoseco Pirajá, projeto de múltipla destinação empresarial com 730 mil m2, todos na região de Salvador.

Se, por um lado, o setor de construção pesada começava a ser afetado pela contenção dos investimentos públicos, por causa dos sucessivos aumentos nos preços do petróleo importado desde 1973, por outro, a dependência do combustível externo levava o governo brasileiro a investir maciçamente na prospecção e exploração interna, autorizando inclusive contratos de risco com empresas estrangeiras. Entre 1975 e 1976, a Odebrecht inicia as sondagens nos campos de Vaza-Barris, em Sergipe, Garoupa e Pargo, na bacia de Campos (RJ), onde se anunciara a descoberta de petróleo em 1974.

Ali, a bordo de navios oceanográficos dotados de equipamentos sofisticados, ganhou grandes conhecimentos técnicos no campo da construção offshore de concreto armado, capacitando-se para a execução dessas obras quando e onde fosse necessário. Surgia um imenso mercado e a Odebrecht, que já vinha satisfazendo seu principal Cliente na área, a Petrobras, com as pequenas plataformas de águas rasas, acompanhava de perto o interesse da empresa pela descoberta e delimitação dos campos em águas profundas, especialmente na bacia de Campos. Estava ciente, também, naquela época, de que o futuro da indústria petrolífera dependeria da tecnologia da extração de petróleo em plataformas continentais e por isso decidiu capacitar-se para mais essa tarefa.

Ao mesmo tempo, a empresa enfrentava desafios de proporções consideráveis. Enquanto dava os primeiros passos no processo de diversificação que iria intensificar nos anos 80, administrava contratos que se prolongavam por anos afora, às vezes por uma década. A enorme expansão das obras urbanas públicas e privadas, superando as expectativas mais otimistas, trouxe falta de materiais, equipes e equipamentos.

Passaram a ser perseguidos de imediato: início de atuação em outros países, expansão para outros ramos de engenharia e diversificação nos setores industrial e mineral. Todos eles iriam concretizar-se em um futuro não muito distante. Antes disso, porém, era preciso colocar em cena a segunda geração de empresários, que ingressara na Odebrecht na segunda metade dos anos 1960 e almejava novos desafios.

Em 1973, Emílio Odebrecht, filho de Norberto, transferiu-se da Bahia para o Rio e passou a dirigir as obras. Nascido em 1945, entrou na empresa em 1967, como engenheiro estagiário, atuando na construção de uma plataforma de bombeio para a Petrobras, para depois passar por várias outras funções. Os fundamentos morais da Organização, Emílio já os trazia de casa. Ele encarnava ao mesmo tempo a ascensão de uma geração de empresários, que iniciava sua preparação para vir a substituir, nos anos seguintes, a primeira geração liderada por seu pai Norberto. Da nova geração de empresários faziam parte, entre outros, Gilberto Sá, Luiz Villar, Pedro Novis, Renato Baiardi e Sergio Foguel, que ao lado de Alípio Lima, Asdrúbal Brandão Filho, Luiz Almeida, Renato Martins e Victor Gradin teriam influência decisiva nos destinos da Organização.

No Rio, Emílio não demorou a perceber que a construtora tivera de absorver em pouco tempo grande quantidade de novos Colaboradores, valorosos, mas que ainda não sabiam atuar em conformidade com a filosofia empresarial da Odebrecht. Era preciso, portanto, fortalecer o processo de educação no trabalho, uma herança cultivada por seu avô homônimo e aprimorada ao longo de décadas por seu pai. Ainda hoje, a educação no trabalho é um dos princípios fundamentais da Odebrecht e base de todo o processo de delegação que caracteriza a relação entre líderes e liderados nas empresas da Organização.

Ciente de que o alinhamento à filosofia era a base para o crescimento, a Construtora Norberto Odebrecht pôde, em 1978, contratar, entre outras, as obras civis do Complexo Hidrelétrico Pedra do Cavalo, em Cachoeira, na Bahia, do Complexo Siderúrgico da Açominas, em Ouro Branco, Minas Gerais, do Sistema de Abastecimento de Água Riachão Potengi, no Ceará, e da Terceira Ponte de Vitória, no Espírito Santo. Mas os fatos decisivos para o futuro da Odebrecht seriam os que dariam início a dois dos principais vetores que vão reger sua atuação nos anos 80 e 90: a diversificação e a internacionalização.

Em 2 de janeiro de 1979 é criada a Odebrecht Perfurações Ltda. (OPL), para perfuração de poços em terra e no mar, lançamento de oleodutos e serviços complementares. Vencendo a primeira concorrência da Petrobras para perfuração na plataforma continental, a OPL adquiriu, em Cingapura, uma plataforma que chegaria ao Brasil após três meses de viagem. Batizada de Norbe I e operando na costa de Sergipe, tornaria a Odebrecht a primeira entre as empresas privadas brasileiras a prestar esse tipo de serviço, contribuindo assim para o esforço nacional em acelerar o equacionamento do problema energético.

Em setembro de 1979, entra em operação a Companhia Petroquímica Camaçari (CPC), da qual fazia parte originalmente a Odebrecht, que adquirira 33% de participação acionária. A CPC produziu, até dezembro daquele ano, mais de 25 mil t de PVC, atendendo a toda a demanda do mercado interno e ainda destinando ao mercado externo de 30 mil a 40 mil t de sua capacidade de 150 mil t/ano.

Ainda no decisivo ano de 1979, a Construtora Norberto Odebrecht dá início à construção da Hidrelétrica Charcani V, no Peru, e às obras do desvio do Rio Maule, para o projeto da usina hidrelétrica de Colbún-Machicura, no Chile, resultado de investimentos ao longo de mais de dois anos no mercado internacional. Essas obras, que assinalam o início da interação com outras nações, culturas e tecnologias, viriam apoiar o desenvolvimento das equipes da empresa e gerar resultados econômicos para o Brasil e os países clientes. Assinalam também a participação da empresa na política de aproximação com os países vizinhos, mediante transferência de capacitação humana e tecnológica. Assinalam, acima de tudo, um rumo novo e desafiador para a Organização, que chegaria, nas décadas seguintes, a países de quatro continentes.


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