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Carga pesada, sem perder a vaidade
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As mulheres ganham maior espaço nos pólos petroquímicos.
Elas estão prontas para qualquer tipo de trabalho |
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Luciana Moglia, Daniella Leite e Miucha Andrade ◦ texto
Christian Cravo e Eneida Serrano ◦ fotos |
No bairro Cabula, em Salvador, Jamile Cássia dos Reis, 26 anos, acorda às 4h30, viaja uma hora para Camaçari e inicia às 7 horas seu turno na Unidade de Vinílicos da Braskem. Na fábrica, ela arrasta mangueiras, sobe em torres, abre e fecha válvulas e é a primeira mulher motorista da Brigada de Emergência. Jamile é um dos exemplos do time feminino que atua nas unidades industriais da Braskem na Bahia, em Alagoas e no Rio Grande do Sul ocupando posições que, até pouco tempo, eram exclusivas de homens.
As mulheres chegaram à área industrial, em Camaçari, em 2000, quando uma turma de estagiárias foi treinada para atuar em três fábricas que são hoje unidades da Braskem (Insumos Básicos, Vinílicos e Poliolefinas). Jamile trabalha atualmente com 17 homens. “Todos queriam me ensinar e por isso aprendi rápido. Aos poucos fazia tudo.” Ela entrou para a Brigada de Emergência e recebeu o convite para dirigir o caminhão de sua unidade, batizado de belezura. “Os homens brincam que mulher não sabe dirigir, mas acabei com esta fama, dirigindo logo um caminhão.”
Os treinamentos de combate a incêndio acontecem toda semana e os exercícios são de igual intensidade para homens e mulheres. Nessas situações, as brigadistas da Braskem carregam sobre o corpo 20 kg de equipamentos, entre uniforme e EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), e suportam 14 kg de pressão de água das mangueiras. O traje molhado chega a pesar 40 kg.
As mulheres são proibidas de usar colar e brinco grande durante o turno, mas não deixam a vaidade de lado. “Usamos tiara na cabeça para não bagunçar o cabelo na hora de tirar o capacete”, conta Jamile. Após os treinamentos da brigada ou em dias de chuva, elas procuram o salão de beleza. “Faço limpeza de pele, cuido do cabelo, das mãos e dos pés todos os dias.”
Karen de Souza Rocha, 24 anos, trabalha na Unidade Insumos Básicos. Ela conheceu o marido na escola técnica. Os dois trabalham na Braskem, desempenhando a mesma função. “Conquistamos nosso espaço na área industrial e abrimos a porta para outras meninas.”
Ela e mais uma mulher trabalham entre 50 homens da operação da fábrica Olefinas II. “Não há nenhuma diferença no trabalho, apenas mudamos nossas atitudes quando elas entram na sala; por exemplo, moderamos a linguagem”, afirma José Antônio Nonato, operador sênior, colega de Karen.
Gélio Justino, operador especializado em Insumos Básicos, chegou em 1972 a Camaçari e viu o pólo crescer sem mulher na operação das fábricas. Em 2000, ele recebeu o desafio de treinar Karen. “O desempenho é igual. Elas são capazes de fazer qualquer coisa. As mulheres aqui são sempre bem-vindas.”
Rosa Maria de Araújo, 25 anos, é operadora na Unidade de Poliolefinas, na planta de Polietileno II, em Camaçari. Ela começou a trabalhar na extrusora, onde ocorre a transformação do pó de polietileno em grãos, numa temperatura de 200ºC. “O trabalho pesado me encantou porque era algo que nenhuma mulher tinha feito. Tornou-se um desafio. Viemos e ficamos”, afirma.
Rosa relata que, ao contrário da maioria das pessoas, seu turno preferido é o das 23 às 7 horas. “Aproveito meu dia quando trabalho de madrugada. Vou à praia, ao shopping e namoro.” E fora da Braskem Rosa observa o resultado do seu trabalho. “Vejo o meu trabalho dentro de casa. Quando uso uma sacola plástica ou algum material feito de polietileno, lembro da minha responsabilidade na fábrica.”
Seguindo os passos da Bahia
Em Alagoas, nove mulheres trabalham na operação das plantas de Cloro-Soda, de PVC e na Cinal. Os homens, antes desconfiados, agora agradecem o colorido e o charme da presença delas. Elas não decepcionam e mostram que com força de vontade e planejamento pessoal é possível realizar um bom trabalho, com algo a mais: sensibilidade e graça.
O dia-a-dia de um operador não é fácil. As máquinas são pesadas e o manuseio dos produtos deve ser cauteloso. As meninas da operação Savia Kelly Bida, Vanessa Guimarães, Márcia Inácio de Carvalho e Janaína Karina Cordolino – todas com idades entre 20 e 22 anos – criaram um novo jeito para tocar a vida pessoal e profissional entre os vários turnos em que estão escaladas. Savia é operadora do terminal marítimo da planta de Cloro-Soda e trabalha com bombas de pressão, mangotes pesados (mangueiras gigantes ligadas aos dutos do navio) e um guindaste. Ela é responsável por conectar os navios que atracam no terminal da Braskem para descarregar ou carregar produtos. “A ajuda de nossos colegas mais antigos nos permite um aprendizado que garante operações seguras, sem riscos ambientais, pessoais ou de segurança”, diz.
Dirceu Alves de Andrade, coordenador da planta de PVC, está muito satisfeito com o desempenho das meninas: “São dedicadas, detalhistas, pontuais e sensíveis. O esforço para superar a questão da força física gera um estímulo a mais”.
No Rio Grande do Sul, diferentemente de em Alagoas e na Bahia, as mulheres da Braskem ainda não desempenham a função de operadoras. Ainda são poucas as engenheiras. Há apenas uma mulher trabalhando em turnos. A Unidade de Triunfo abriga, no entanto, a primeira profissional a ter trabalhado em turno em Camaçari, unidade que possui, hoje, muitos exemplos femininos nas plantas.
Silvana Piazza Daudt, 37 anos, formou-se em 1988 como técnica em Química na Escola São João Batista Liberato Salzano, em Montenegro (RS). A oportunidade de entrar no mercado apareceu em 1992. Seu marido conseguira emprego em Camaçari, na época em que a então Poliolefinas estava recrutando gaúchos para sua nova Unidade de Polietileno. As vagas seriam para o regime de turno, até então específicas para o sexo masculino. “Não queriam me aceitar. Diziam que a mulher era mais fraca, que ficava doente por qualquer coisa. Mas ganhei a oportunidade”, recorda. Silvana entrou como trainee e ficou em Camaçari por quatro anos em turno no laboratório. Na sala de controle, por exemplo, não havia uma só mulher.
“No início, as pessoas me enxergavam como intrusa. Mas isso foi superado em seguida. Precisei conquistar meu espaço. Às vezes, são as próprias mulheres que criam as barreiras. Se, por exemplo, é preciso carregar um saco de 25 kg, eu carrego.”
Silvana observa que, apesar de serem tratados na Braskem da mesma forma que as mulheres, inclusive na questão salarial, os homens se sentem obrigados a ajudá-las em questões que envolvem esforço físico.
“Eles fazem questão de carregar peso para nós.”
Silvana voltou em 1999 para Triunfo como analista sênior para a Spherilene (nome da tecnologia utilizada na fábrica). No ano passado, foi promovida a analista especialista e torna-se a coordenadora do seu setor na ausência do líder. Em suas atividades diárias, Silvana faz testes nas extrusoras para ver como o produto vai ficar para o cliente, limpa matrizes muito quentes e, quando é preciso, carrega peso.
Beatriz Ramos Vieira, 26 anos, é uma das poucas mulheres que trabalham em regime de turno em todo o Pólo Petroquímico de Triunfo. É a única da Braskem. A técnica em Química trabalha há cinco anos na empresa. Começou como estagiária com mais quatro colegas. “Éramos duas mulheres e três homens. Só eu fui contratada.” Ela não tem do que reclamar. “Os homens são educados e respeitosos comigo”, afirma. Beatriz já fez grandes amizades nos horários alternativos, nos quais convive com seus colegas de turno. “Alguns se sentem mais à vontade para conversar comigo sobre família e filhos”, diz. Por ser a única mulher, é popular; todos sabem seu nome.
Beatriz segue algumas regras em nome da boa convivência. “Sou muito discreta no jeito de me vestir e de me comportar. E sei todas as notícias sobre campeonato brasileiro de futebol”, diverte-se.
Luciana Almeida da Silva, 41 anos, engenheira química especializada em Petroquímica, vive uma fase bem diferente. Ela chegou à Braskem experiente na convivência com homens no trabalho. Trabalhou 14 anos como engenheira de processo da Petroquímica Triunfo. “Na época, fui a primeira mulher a entrar na área industrial da empresa. No início foi difícil, pois me abalava com alguns olhares masculinos de reprovação e me sentia obrigada a provar o tempo todo para as pessoas que eu poderia estar naquele lugar.”
Luciana mudou sua atitude. “Hoje sinto total naturalidade no meu ambiente de trabalho”, frisa a engenheira, que divide sala com mais cinco homens e interage diariamente com os operadores das plantas. Ela confidencia: “Hoje sei lidar melhor com os homens do que com as mulheres. Eles são mais simples. Nós somos complicadas”, brinca.
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