nº 120 - Setembro/Outubro de 2005
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 Publicação interna da Organização Odebrecht – Odebrecht S.A, Construtora Norberto Odebrecht, Braskem e Fundação Odebrecht
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Depois do Barroco, a razão
O Professor Luiz Alberto Freire, da Escola de Belas Artes
da UFBa, revela o acervo da decoração neoclássica baiana e
vence a segunda edição do Prêmio Clarival do Prado Valladares
Mais de 100 projetos inscritos
   
   
Karolina Gutiez ◦ texto
Christian Cravo ◦ foto

A segunda edição do Prêmio Clarival do Prado Valladares, criado pela Organização Odebrecht em 2003, patrocinará o projeto A Talha Neoclássica na Bahia. Luiz Alberto Freire é o autor da pesquisa que pretende trazer a público um importante capítulo da história da arte baiana: o movimento de reforma artística que substituiu o Barroco, ocorrido durante quase todo o século 19.

As igrejas do século XVIII apresentavam excesso de ornamentação, eram sustentadas por colunas torcidas e salomônicas, que representavam o infinito, e tinham uma forte carga simbólica, expressa em cachos de uvas, mascarões, aves e grotescos – tudo para envolver os fiéis emocionalmente.

A Talha Neoclássica, influenciada pelo Iluminismo, pelo predomínio da razão em detrimento da emoção, e pelo antropocentrismo, praticados na Europa nos anos 1800, deixou de lado os exageros, levando aos templos uma arte e arquitetura sóbria, tranqüila e racionalista. Os artistas aderiram à tradição antiga greco-romana: as colunas passaram a ser clássicas, caneladas; as referências simbólicas começaram a representar virtudes como a fé, a esperança, a caridade e a fortaleza; e a policromia e o uso excessivo do dourado foram substituídos pelo equilíbrio do brilho sobre fundos brancos.

“O catolicismo denunciava, assim, a sua nova mentalidade: em vez de distrair os devotos com tamanha carga simbólica, seu objetivo era chamar a atenção para a mensagem elementar do cristianismo e, por isso, os templos precisavam ser claros e arejados, para proporcionar aos fiéis um estado de concentração e serenidade”, explica o autor, Luiz Freire, Professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBa) e Doutor em História da Arte pela Universidade do Porto, em Portugal.

O primeiro registro da utilização da Talha Neoclássica foi em 1792, na capela da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Em 1813, a Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, ícone da nova estética, deu continuidade à reforma e desencadeou uma onda de obras nos templos da Bahia, até 1888, quando a Igreja da Ordem Terceira de São Domingos, a última a adotar esse modelo, foi reaberta.

A Bahia tem o maior e melhor patrimônio de Talha Neoclássica do Brasil, com elementos que se filiam aos praticados na Itália e em Portugal, de qualidade técnica e estética, mas com características próprias.

A riqueza desse período, contudo, não despertou nos pesquisadores o interesse em estudar o sistema, o movimento de reforma, a sua coerência e peculiaridades. Luiz Freire afirma que durante sua pesquisa para a tese de doutorado, que dará origem ao trabalho patrocinado pela Odebrecht, não encontrou nenhuma publicação específica sobre o assunto. A única referência a que teve acesso foi o livro A Cultura Religiosa Barroca no Brasil, do museólogo francês Germain Bazin, lançado em 1953, que dedicou apenas cinco páginas ao assunto. “Um movimento que aconteceu por 100 anos merece mais do que isso. Meu livro abordará o tema com uma amplitude condizente com sua importância, ocupará essa lacuna”, diz Luiz Freire.

Segundo ele, a arte brasileira dos séculos XVII e XVIII começou a ser estudada em 1950, período em que a Europa e, conseqüentemente, o Brasil valorizavam o Barroco. “Tudo o que era arte barroca merecia atenção, sobretudo aqui, onde representava nosso passado colonial.” Luiz Freire atribui a escassez de obras sobre a Talha ao fato de o Neoclássico ser considerado o responsável pela decadência do Barroco, já que teria empobrecido a linguagem artística e acabado com a riqueza e a diversidade criativa, por causa de sua simplicidade. Ele discorda:

“Não é verdade. A criatividade se manteve no mesmo nível com a Talha Neoclássica, principalmente na Bahia.”

Luiz Freire comprovará sua afirmação quando o livro estiver pronto. “Para a tese, tive mais acesso aos arquivos portugueses. Agora, com o patrocínio da Odebrecht, vou aprofundar a pesquisa dos periódicos da época, que oferecerão informações sobre o cotidiano no momento, a identidade dos artistas entalhadores, a questão estilística e simbólica e sua relação com o discurso religioso.” O autor, que até hoje estudou 21 igrejas, pretende ampliar este número, inclusive com altares do interior da Bahia.

Luiz Freire acredita que seu trabalho contribuirá para que a sociedade e os órgãos públicos passem a valorizar esse patrimônio como ele merece, a tempo de preservá-lo e evitar seu processo de deterioração, que já se iniciou.

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