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Estava em cima da hora de a Odebrecht apresentar sua proposta – e justamente então o fax resolveu pifar. Depois de tanto trabalho, a empresa corria o risco de ficar fora da concorrência para ampliação do Metromover, o metrô suspenso de Miami (veja fotos e mapa nos sites http://web.presby.edu/~jtbell/transit/Miami/Metromover/ e www.tramways.com/subways/miami.metromover1/mimemo1h.html ). Na iminência do desastre, o Diretor-Superintendente Luiz Oswaldo Leite não teve dúvida: correu à cafeteria ao lado, apanhou o fax do estabelecimento e, sob o olhar atônito do dono, o peruano Javier, carregou-o até a salinha da Odebrecht. Foi um gesto salvador: a proposta não só pôde seguir a tempo como valeu à empresa seu primeiro contrato em território americano, em fevereiro de 1991. Final feliz também para Javier, que recebeu o fax de volta, acompanhado de agradecimentos e pedidos de desculpas.
Não deixa de ser curioso lembrar que foi assim, sob o signo da improvisação, que teve início uma das mais sólidas e bem-sucedidas iniciativas da Odebrecht fora do Brasil. Quinze anos depois, o braço americano da empresa brasileira pode se orgulhar da posição alcançada.
Traduzindo em números: a empresa já executou, nos Estados Unidos (na Flórida, Califórnia e Carolina do Norte), 45 obras, cujo valor total supera os US$ 2 bilhões. É a construtora mais atuante no Aeroporto de Miami, um dos mais movimentados do país (veja quadro), onde já conquistou 15 contratos e no momento realiza projetos da ordem de US$ 700 milhões – cifra que deverá crescer com o início de obras no North Terminal, em março de 2006. “Estamos muito satisfeitos com a atuação da Odebrecht aqui, que a credencia a fazer ainda mais”, atesta o Vice-Diretor do Aeroporto de Miami, John W. Cosper. No ranking das 25 maiores construtoras de aeroportos em todo o mundo, relativo a 2004 e publicado em outubro passado pela revista ENR – Engineering News Record, www.enr.com a Odebrecht figurava em 13º lugar, sendo certo que galgará posições quando for levado em conta seu desempenho no ano de 2005.
A empresa participa, além disso, da construção do PAC – Performing Arts Center, grandioso conjunto de salas de espetáculos em Miami, com inauguração prevista para o segundo semestre de 2006. A obra, cujo custo anda em torno dos US$ 280 milhões, não será a primeira jóia que a Odebrecht ajuda a incrustar no cartão-postal de Miami: não longe dali, por exemplo, a empresa participou da construção da American Airlines Arena, nome oficial do ginásio do clube de basquete Miami Heat, capaz de acolher 20 mil espectadores, inaugurado em dezembro de 1999.
Não é só. A Odebrecht Construction plantou na paisagem de Miami um viaduto como o Golden Glades, com 2,5 km de extensão e pilares de até 25 m de altura; ergueu prédios como o Ritz-Carlton Key Biscaine Resort & Spa ou a sede do serviço de resíduos sólidos não-recicláveis do condado de Miami-Dade; em Miami Beach, onde construiu o Ocean Steps, magnífico edifício residencial com instalações comerciais no térreo, contribuiu também para a preservação de preciosidades arquitetônicas no estilo art déco, ao restaurar o prédio do antigo e charmoso Hotel Bancroft (vá até o site www.richmondsounddesign.com/2001.html e veja dezenas de imagens de edifícios no estilo art déco em South Miami Beach Art Deco).
“Na chegada, pegamos obras de menos de US$ 20 milhões, e hoje são contratos de US$ 700 milhões”, compara o engenheiro carioca Luiz Rocha, 52 anos de idade e 32 de casa, que foi DS no país antes de assumir, no início de 2005, as funções de Vice-Presidente de Negócios Internacionais da Odebrecht para Estados Unidos, México, Europa e Oriente Médio. “Competimos hoje aqui com as maiores empresas americanas”, constata Luiz Rocha. “Já não somos vistos como estrangeiros”, acrescenta. “Somos uma empresa americana nos Estados Unidos.”
Basta ver o quadro do pessoal da Odebrecht Construction, no qual os brasileiros, em novembro passado, não eram mais de 20 entre 136. Nesse time de colaboradores, havia 22 nacionalidades, numa produtiva babel em que se somavam americanos, brasileiros e latino-americanos de todo canto. E já se podia comemorar um passo importante, indicador seguro da maturidade da empresa. Nos primeiros tempos de sua atuação internacional, a Odebrecht atuava a partir do Brasil e os expatriados que tinha eram todos brasileiros. Neste momento, sete de seus colaboradores no Oriente Médio são norte-americanos.
“A vocação internacional vem naturalmente, como resultado da aplicação da Tecnologia Empresarial Odebrecht”, analisa o engenheiro baiano Paulo Suffredini, 51 anos, na Odebrecht desde 1976. Suffredini é o Diretor de Contrato responsável pelas obras executadas por agências federais do Governo dos Estados Unidos, como os projetos realizados para o Exército no Oriente Médio. “O princípio fundamental é atender o cliente, onde ele precisar”, lembra Suffredini.
A Odebrecht Construction não é uma aventura de brasileiros acampados em solo estrangeiro para tocar um contrato e em seguida bater em retirada. É ainda Luiz Rocha quem deixa claro: “Não viemos por uma oportunidade, viemos para criar raízes”. Com essa disposição, buscou-se desde o início construir relacionamentos de longo prazo, baseados na confiança mútua, a única forma de assegurar uma integração genuína, profunda e duradoura na comunidade. Nunca se descuidou do paciente trabalho de tecer parcerias com as chamadas minorities – as Community Small Business Enterprises, empresas de pequeno porte, com receita média anual de US$ 1,5 milhão a US$ 5 milhões, às quais a lei americana reserva uma fatia na execução de obras públicas. Ao gerenciar contratos, a Odebrecht tem sempre procurado ir além da exigência legal, em torno dos 10%, e esse é um dos aspectos em que já se diferencia no mercado americano.
“O tratamento que damos às empresas subcontratadas é olho no olho, e isso tem sido, no mercado americano, um diferencial da Odebrecht”, diz o administrador e arquiteto carioca Antonio Pinto, 45 anos de vida e 20 de empresa, responsável no momento pela construção de mais um concourse (prédio para embarque e desembarque de passageiros, conectado ao terminal), obra de US$ 100 milhões, no Aeroporto de Miami.
A disposição de entrelaçar-se à comunidade, pondo-se a serviço dela, tem sido uma constante desde que o ramo americano da Odebrecht foi constituído formalmente, em 20 de agosto de 1990, marco inaugural de uma história que vale a pena rememorar.
O primeiro pouso da empresa foi uma sala no térreo de um prédio nas imediações do Aeroporto de Miami. As instalações eram tão acanhadas que algumas reuniões não cabiam entre aquelas quatro paredes – era preciso realizá-las de pé, junto ao balcão externo da cafeteria do peruano Javier. Quem lembra é o DS da Odebrecht nos Estados Unidos, o engenheiro civil Gilberto Neves, mineiro que, aos 45 anos de idade, tem 22 de empresa, 15 deles passados em Miami: “A gente chegou a fazer contratações de pessoal ali naquele balcão, tomando cortadito”, recorda Gilberto, referindo-se à denominação do café com leite popularizada por centenas de milhares de imigrantes hispano-americanos que vivem no Condado de Miami-Dade.
Integrante daquele primeiro núcleo, Gilberto Neves conta que algum tempo depois a empresa pôde mudar-se para espaço um pouco maior, no piso de cima, de onde sairia, em 1992, para um prédio na 12th Street – até acomodar-se, em meados da década de 90, nas atuais instalações, em Coral Gables.
Uma carreira construída degrau por degrau
Naqueles começos, nenhum passo foi dado sem bastante esforço, como lembra outro veterano do time inicial, o engenheiro civil carioca Marcos Tepedino, 50 anos de vida e 29 de Odebrecht, que na época foi Diretor de Contrato da obra do Metromover: “Nos primeiros tempos, a gente não conseguia comprar nem um pacote de pregos”, rememora Tepedino. “Como ninguém sabia quem éramos, não tínhamos crédito na praça.” Nada a lamentar, afirma Gilberto Neves – pelo contrário: “O fato de termos entrado pela porta dos fundos, digamos assim, nos capacitou, nos ensinou a fazer business neste país”. E não havia pouco a aprender: habituada a executar com força de trabalho própria todas as etapas de uma obra, nos Estados Unidos a Odebrecht atuaria de outra forma – passaria a gerenciar empresas subcontratadas para realizar cada aspecto do projeto.
A princípio, a Odebrecht teve duas bases nos Estados Unidos – uma na Flórida, outra na Califórnia, onde executou obras de vulto como a Barragem de Seven Oaks(veja fotos do passo-a-passo da construção da Barragem de Seven Oaks em www.spl.usace.army.mil/resreg/htdocs/7oaksphoto.html ). Na virada do milênio, fundiram-se as duas empresas e as operações foram concentradas no sul da Flórida, com base em Miami. “Decidimos crescer com serenidade”, explica Gilberto Neves.
Formar uma equipe básica, conta Marcos Tepedino, não foi tarefa simples para os recém-chegados. Aos poucos, porém, talentos foram sendo identificados e incorporados à Odebrecht. Vários desses colaboradores, como a Responsável por Pessoas Daphne Di Pasquale, figuram nos quadros da empresa há longos anos – fato pouco comum num mercado no qual uma carreira em geral é feita saltando-se de um emprego a outro, não raro com o atrativo de luvas contratuais, o chamado signing bonus.
O lugar da perfeição sonora
“Nos Estados Unidos, para melhorar, você tem de mudar muito de empresa”, explica o Diretor de Obra Jesús Vázquez, engenheiro nascido em Havana há 44 anos e levado pelos pais para Miami quando tinha meses e cuja ficha profissional recente inclui a construção da American Airlines Arena e, neste momento, do Performing Arts Center. Vazquez rodou um bocado antes de entrar na Odebrecht, em 1997, e não hesita em declarar que só lamenta não ter entrado mais cedo. Diz, sorridente: “Já avisei aos chefes que este vai ser o meu último emprego...”
Se lhe perguntam as razões de seu apego à empresa, Jesús Vázquez fala em “clima de família”. “A Odebrecht é tão grande, e continua sendo uma família”, ele observa, pondo em outras palavras aquele que é um dos justos orgulhos da Organização também nos Estados Unidos: ser uma grande empresa com o espírito de uma empresa pequena.
Não espanta que Jesús Vázquez tenha encarado com tanto bom humor e entusiasmo a perspectiva de trabalhar pesado até a reta final das obras da American Airlines Arena. Faltando poucas horas para a inauguração do ginásio, em 31 de dezembro de 1999, lá estava ele ao volante de um carrinho para recolher o derradeiro lixo. Já eram 9 da noite quando, depois de constatar que nada mais havia a fazer, Vázquez foi para casa, tomou banho – e, exausto mas orgulhoso do desempenho de sua equipe, voltou a tempo de ver o início do show da cantora Gloria Estefan. “Só não fiquei até o fim”, ele conta, “porque minha mulher e minhas filhas tinham outros planos para o réveillon.”
No caso do engenheiro Brian Perantoni Jr., 30 anos de idade e sete de Odebrecht, que também vê na empresa “uma espécie de família”, a expressão tem sentido quase literal, pois seu pai nela trabalhou até morrer, ainda jovem, deixando imagem fortíssima, pessoal e profissional, que anos depois continua a inspirar os colegas (veja boxe). Hoje o segundo homem nas obras do South Terminal, Brian Jr. ganhou intimidade com a companhia antes mesmo de ter carteira assinada, pois o pai costumava levá-lo, com o irmão Scott, para trabalhar com ele durante as férias escolares, praticamente como peões.
Tomou gosto. “Não tive um outro emprego”, ele comenta, “mas já vi o suficiente para poder dizer que a Odebrecht faz por seu pessoal muito mais que outra empresa faria.” Sua impressão é confirmada por Greg Mears, americano de Miami, 46 anos de vida e 10 de casa. Trabalhava como operador de máquinas numa subempreiteira quando foi admitido na Odebrecht, em 1994. Não parece disposto a mudar de emprego. “Aqui eu cresci”, argumenta Greg, atualmente Responsável por Produção no canteiro de obras do South Terminal. “Você é respeitado, dão valor à sua opinião”, ele acrescenta, referindo-se ao regime de delegação proporcionado pela Tecnologia Empresarial Odebrecht. Com ele concorda seu colega Marc Poropat, nascido em Chicago, 43 anos de idade e nove de Odebrecht, Responsável por Produção na mesma obra, que sintetiza deste modo seu pensamento: “Enquanto algumas empresas operam por intimidação, aqui nós atuamos como um time”.
Não é menor o entusiasmo do engenheiro argentino Luis Arditi Rocha, Diretor de Programa das obras do South Terminal, talento que a Odebrecht foi garimpar na Florida International University (FIU), onde ele, aos 26 anos, estudava e trabalhava. Quem o localizou foi o engenheiro e administrador de empresas David Peebles, no qual a empresa tem uma preciosa antena para futuros negócios e oportunidades, além de para colaboradores (veja boxe). Arditi, um apaixonado pelo Brasil – aos 14 anos, em Buenos Aires, comprou um dicionário e cismou de aprender o português, língua que hoje domina quase sem sotaque –, topou sem hesitação o convite e se incorporou imediatamente à equipe que, naquele momento, corria atrás de sua primeira obra no Aeroporto de Miami, o armazém de carga da American Airlines.
As surpreendentes histórias de um farejador de oportunidades
Tempos heróicos, recorda ele: na véspera do início das obras, em companhia de Gilberto Neves e Brian Perantoni, pegou uma caminhonete e foi conhecer o lugar, até então usado como estacionamento. “Era noite e nós mesmos fechamos a área com cordas, para ninguém estacionar”, conta Arditi, que viria a atuar em todas as obras da Odebrecht no Aeroporto de Miami.
A Odebrecht nos Estados Unidos
Se ficaram para trás a precariedade e o desconforto daqueles começos, se já não é necessário recorrer ao fax da cafeteria ao lado para garantir participação numa concorrência, nem por isso tornou-se menor, na companhia, a certeza de que o presente e o futuro estão povoados de desafios. Vencido o marco dos primeiros 15 anos de presença nos Estados Unidos, quais seriam os próximos passos? “Vamos consolidar a Odebrecht Construction como empresa rentável e competente, tornando-a ’a escolha do cliente’, reconhecida pela comunidade e por nossos parceiros, atuais e futuros”, programa sem hesitação o DS Gilberto Neves.
Nem é preciso olhar para trás para ver que o caminho está aberto.
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