nº 122 - Janeiro/Fevereiro de 2006
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 Publicação interna da Organização Odebrecht – Odebrecht S.A, Construtora Norberto Odebrecht, Braskem e Fundação Odebrecht
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Militante da saúde
Quando chegou à Odebrecht, em 1992, o médico Sebastião
Loureiro trazia uma experiência acadêmica em medicina
preventiva e saúde pública de quase 30 anos e ajudou a
Organização a formular sua política de saúde.
   
   
João U.G. Sant’Anna ◦ texto
Almir Bindilatti ◦ foto

Hoje, 13 anos depois, está levando para a universidade os conceitos de empresariamento e gerenciamento que aprendeu na Odebrecht.

Formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBa) em 1964, Sebastião Loureiro fez residência médica em medicina preventiva na Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, mestrado em Londres em saúde pública e medicina tropical, e doutorado em epidemiologia nos Estados Unidos. Ajudou a criar e dirigiu o Departamento de Medicina da Faculdade de Medicina da UFBa, idealizou o Instituto de Saúde Coletiva – referência brasileira em pós-graduação nesta área – e participou de sua criação, e hoje está desenvolvendo o Programa de Economia da Saúde. Teve atuação destacada na discussão de políticas públicas de saúde que estão na origem do Sistema Único de Saúde (SUS) e do conceito constitucional brasileiro de que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado. Foi esta trajetória que lhe valeu o título de Professor Emérito da UFBa, recebido no dia 15 de dezembro em cerimônia na reitoria da universidade. Estresse, globalização e políticas de saúde são alguns dos temas de sua entrevista a seguir.

Odebrecht Informa – Quais os principais problemas de saúde numa grande empresa? São decorrentes da própria atividade profissional ou apenas problemas comuns a todas as pessoas e que são trazidos para o local de trabalho?

Sebastião – Isso depende da natureza da empresa, da atividade, e a Odebrecht tem uma diversidade de atividades. Algumas delas têm características próprias. Por exemplo, na área de engenharia e construção existem riscos inerentes, maiores do que para a população em geral. Há uma grande gama de pessoas que trabalha na área administrativa, e com essas ocorre o mesmo que com a população em geral. A exceção são os executivos, na Organização e na maioria das empresas. Tradicionalmente, a Odebrecht sempre foi uma empresa que dá oportunidades, dá reconhecimento, mas há uma exigência forte de desempenho, de resultados. Nessa população, há riscos mais específicos de estresse, decorrentes da cultura organizacional, mas também da forma como as pessoas se colocam diante dessa cultura. Há pessoas que estabelecem para si mesmas desafios que vão exigir um desgaste físico e mental muito grande. Isso, no entanto, não é uma característica exclusiva da Odebrecht. O índice de estresse da população brasileira é muito alto, de cerca de 20%.

“O estresse nos acompanha desde a época pré-histórica. O homem pré-histórico tinha estresse temporário, quando saía para caçar ou para lutar por espaço”

OI – O estresse é visto ora como necessário, ora como tremendamente prejudicial. O que é verdade nisso e o que é mito?

Sebastião – O estresse nos acompanha desde a época pré-histórica. O homem pré-histórico tinha estresse temporário, quando saía para caçar ou para lutar por espaço. Nosso corpo foi acostumado a ter reações fisiológicas adequadas para enfrentar situações de perigo, quando precisa tomar decisões rápidas. Hoje, isso é cada vez mais necessário – cuidado com a bolsa, cuidado com o lugar de parar o carro... A gente voltou a enfrentar situações de estresse em função da necessidade de estar preparado para o inesperado: ou correr ou lutar. No trabalho, negocia-se contratos, discute-se com clientes, vive-se situações para as quais o raciocínio deve estar bem-ativado. Para isso, é necessário que a adrenalina aumente sua circulação e a circulação de outros hormônios. Não é mais tanto um preparo físico, mas mental. É preciso estar com a mente alerta. Se isso é esporádico, e depois a pessoa sai para estar com a família, para praticar um esporte, consegue controlar bem a situação, sem maiores problemas. Mas o estresse tem um limiar, a partir do qual deixa de ser necessário e passa a ser algo que pode deixar seqüelas. O ponto preciso desse limiar varia de pessoa para pessoa. Há pessoas que são mais fortalecidas psicologicamente, outras são mais vulneráveis. Só convivendo com a pessoa se consegue saber qual é esse limite. Quando você percebe isso, como médico, tem de alertá-la, para que a pessoa conheça seu limite, porque ao ultrapassá-lo ela passa a ser improdutiva. Cabe aos líderes notarem isso.

OI – Quais os princípios que orientam a política de saúde da Odebrecht?

Sebastião – Há os princípios da Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO). Um deles é que cada indivíduo é responsável por sua própria saúde, pelo desenvolvimento dela. O maior interessado tem de ser a própria pessoa. Porque é através da saúde que ela se realiza do ponto de vista pessoal e profissional. Se não tiver essa determinação, não é possível fazer mais nada. Esse é um princípio fundamental. Cabe à Organização criar as condições para que o indivíduo mantenha e desenvolva sua saúde, mas a responsabilidade é de cada um. O Dr. Norberto é ainda mais rigoroso: a sua saúde não interessa só a você, interessa também à sua família e interessa à Organização. Outro princípio é que a política de saúde da Odebrecht está voltada para a área de promoção e prevenção. Secundariamente, quando falham esses instrumentos, é que entra o apoio da medicina curativa.

OI – Qual o impacto dos processos de reestruturação produtiva e da globalização sobre a saúde?

Sebastião – Acho que são vários os níveis de impacto. Uma das áreas que mais sentiu essa reestruturação foi a área de pessoas, na qual os custos foram mais reduzidos. Isso cria uma situação de sobrecarga para os que ficam. Os que saem perdem o emprego e se vêem diante de uma série de problemas, mas os que ficam passam a assumir novas funções, tornam-se multifuncionais. Isso aumenta muito a carga de trabalho e pode trazer problemas de saúde: crescem o estresse e o desgaste físico e mental. Grande parte das empresas também terceirizou seus programas de saúde, sobretudo nas áreas operacionais, o que diminuiu muito a eficácia dos serviços de medicina do trabalho. Esses dois fatores, com o tempo, podem ter um efeito adverso.

OI – O que significa em termos profissionais receber o título de Professor Emérito?

Sebastião – A Faculdade de Medicina da UFBa foi a primeira faculdade de medicina do Brasil, tem muito prestígio. O Instituto de Saúde Coletiva tem nível de excelência na avaliação oficial do MEC. A UFBa, na área da saúde, também é muito bem-conceituada; está no ranking das primeiras universidades federais. Sinto-me honrado. Considero que essa conquista é fruto do trabalho quase pioneiro na UFBa, buscando estabelecer uma outra visão da medicina que não fosse a doença, que fosse mais a saúde, como promovê-la, como conservá-la e como prevenir riscos e danos a ela. Tive a oportunidade de trabalhar com uma equipe muito boa, de pessoas comprometidas eticamente com os princípios de eqüidade em saúde, criativas, interessadas, capazes, a maioria delas com doutorado feito no exterior, e muito produtivas. Com isso, o Departamento de Medicina cresceu, transformou-se em referência nacional, estruturando as condições para a criação do Instituto de Saúde Coletiva. Acredito que o título de Professor Emérito é o reconhecimento do trabalho de toda essa equipe, e não apenas do meu.

“É através da saúde que a pessoa se realiza do ponto de vista pessoal e profissional. Se não tiver essa determinação, não é possível fazer mais nada“

OI – Você está empenhado, neste momento, na realização conjunta dos congressos da Associação Latino-Americana de Medicina Social e da Associação Internacional de Política de Saúde, em 2007, em Salvador. Qual o papel dessas associações?

Sebastião – A Associação Latino-Americana de Medicina Social, da qual já fui presidente e em cujo Conselho hoje atuo, é uma associação importante, que trouxe à tona a discussão sobre a compreensão do papel da sociedade no adoecimento. Antes, visava-se muito o indivíduo, a família. A medicina social procura ver como a organização da sociedade influencia os indivíduos e como isso aumenta ou diminui a probabilidade de doenças. A associação teve um papel muito importante como difusora dessa visão na América Latina por meio de núcleos locais em países como Uruguai, Argentina, Peru, Chile, México, Venezuela e Colômbia, além do Brasil.

OI – E a Associação Internacional de Política de Saúde?

Sebastião – É mais acadêmica. Reúne pesquisadores, professores de todos os países da Europa, mais Estados Unidos, Canadá, México, Brasil e Chile. Sua origem e a sede são européias. Discute as questões da política da saúde em termos da organização do sistema e de seu financiamento, e tem uma posição em defesa do sistema público e universal de saúde. O Sistema Único de Saúde no Brasil, o SUS, recebeu muita influência da política dessa associação, sobretudo a da Itália e do Reino Unido.

OI – O que o levou a presidir essas associações?

Sebastião – Uma associação que teve um papel relevante na discussão da reforma sanitária no Brasil foi a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), da qual também fui presidente. Acredito que foi deste trabalho que resultou minha eleição para a Presidência da Associação Latino-Americana e, depois, para a Associação Internacional. A Diretoria da Abrasco, da qual eu era presidente, tinha uma visão política muito clara, coerente e coesa sobre a questão da saúde no Brasil. Tínhamos uma estratégia de alianças políticas com diversos segmentos da sociedade civil e partidos políticos. Esse processo de discussão foi importante para pensar a reforma sanitária, da qual resultou o SUS e a determinação da saúde como um direito do cidadão e um dever do Estado estabelecida na Constituição.

“A experiência da aplicação da TEO na área da saúde é um aprendizado para a vida. Sempre cito para meus colegas os princípios que aprendi e continuo aprendendo em meu trabalho na Odebrecht”

OI – Você está na Odebrecht há 13 anos. Como foi sua chegada?

Sebastião – Eu era professor visitante da Universidade de Montreal, no Canadá, e estava perto do período de aposentadoria no Brasil. Recebi uma oferta para ficar no Canadá e voltei ao Brasil para pensar sobre ela. Soube por um colega que a Odebrecht estava procurando uma pessoa para atualizar sua política de saúde, tendo em vista o crescimento e a diversificação da Organização. Considerei que o novo desafio seria interessante, já que minha experiência era toda na área pública e na área de ensino, nas quais a gente faz os projetos, faz as pesquisas, mas não vê o que planeja em execução. Era a oportunidade de aplicar, numa grande população de trabalhadores, os conhecimentos que adquiri. Afinal, eram 37 mil integrantes, fora as famílias. Foi isso que me motivou.

OI – Nessa vivência na Odebrecht, o que mais enriqueceu sua experiência profissional?

Sebastião – O gerenciamento econômico e o empreendedorismo. Foi algo que aprendi aqui e que estou levando de volta para a universidade. Em minha vivência na Odebrecht, passei a perceber que grande parte do custo dos governos e das empresas está na área da saúde. E que o custo da atenção médica está muito alto. O que mais despertou meu interesse por essa nova área foi a experiência que tive aqui com a saúde suplementar, o seguro saúde dos integrantes, e o contato com as seguradoras. Também foi enriquecido o meu aprendizado sobre a Tecnologia Empresarial Odebrecht, a minha percepção da capacidade das pessoas de transformarem projetos em realidade utilizando uma metodologia e princípios de valorização das pessoas, da disciplina e da criatividade. A experiência da aplicação da TEO na área da saúde é um aprendizado para a vida. Sempre estou citando para meus colegas do Programa de Economia da Saúde os princípios que aprendi e continuo aprendendo em meu trabalho na Odebrecht.

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