Nº 126 SETEMBRO/OUTUBRO DE 2006 | ENGLISH | ESPAÑOL
Angola texto ◦ João U.G. Sant’Anna     fotos ◦ Holanda Cavalcanti
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Força para Benguela

Governo angolano investe no desenvolvimento da província realizando
obras nos setores de abastecimento de água e habitação


No leito seco e poeirento do Rio Cavaco, cercado pelos jornalistas e administradores locais, o Governador de Benguela, Dumilde Rangel, vai pedindo explicações sobre o andamento e a natureza das obras de recuperação do rio e da construção dos diques aos representantes da Odebrecht e da fiscalizadora Dar Al-Handasah. Ouve com atenção as respostas e faz algumas recomendações, como a construção de lavanderias e banheiros públicos. Simpático e atencioso, não demonstra surpresa com o pedido de entrevista do repórter de Odebrecht Informa e diz que a conversa pode ser ali mesmo, em meio à poeira e ao barulho das máquinas e dos caminhões.

Dumilde Rangel explica que o desenvolvimento da Província de Benguela – que vem recebendo a maior quantidade de investimentos no país depois de Luanda, onde fica a capital – assenta-se na produção agrícola e pecuária e na pesca: “São esses os setores que darão o impulso necessário para o desenvolvimento da indústria transformadora, que, por sua vez, ensejará que uma indústria pesada, metalúrgica, para apoio às fábricas, também tenha lugar. Assim, fecharemos depois o círculo com uma consolidação dos serviços, do comércio, da hotelaria e do turismo.”

A atuação da Odebrecht em Benguela começou em 2004, com a execução da primeira fase da Etapa Emergencial do Programa de Águas de Benguela, destinado ao abastecimento de água potável às quatro principais cidades da província: Benguela (a capital), Baía Farta, mais ao sul, e Catumbela e Lobito, mais ao norte. Os resultados obtidos nessa obra credenciaram a empresa a conquistar novos contratos na província: um, com o Ministério de Obras Públicas, para regularizar o curso dos rios Catumbela, Coporolo e Cavaco; e outro, para construir a infra-estrutura da Cooperativa Cajueiro, condomínio residencial para os trabalhadores da empresa petrolífera angolana Sonangol, que terá 250 casas.

A segunda fase da Etapa Emergencial do Programa de Águas de Benguela também já foi contratada pelo Ministério de Águas e Energia. O Governador Dumilde Rangel informa: “A esta segunda fase, nós chamamos tecnicamente de etapa de distribuição e saneamento. Destina-se, fundamentalmente, às zonas habitacionais, onde até hoje não havia água, e ao completamento da rede de saneamento”.

Os bons frutos da água
Os benefícios da água tratada já podem ser sentidos na Província de Benguela. As antigas estações de tratamento foram recuperadas e as populações de Lobito, Catumbela, Benguela e Baía Farta recebem hoje mais água e de melhor qualidade. Paralelamente, vai sendo implantado o novo sistema, que compreende estruturas grandes, como estações de tratamento e de captação de água bruta, centros de distribuição e redes novas.

O projeto das águas está dividido em três etapas e, apenas na primeira, chamada de emergencial, estima-se que beneficiará 1 milhão e 600 mil pessoas com água tratada dentro dos padrões estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde. Somando-se o novo sistema e o já existente, serão produzidos e distribuídos 86.400 m3 de água por dia, o equivalente a 178 milhões de copos d’água diariamente.

“Não é um projeto sofisticado e, portanto, sua manutenção é relativamente simples”, observa Ricardo Ferraz, da Odebrecht, Responsável por Engenharia e Projetos. “Mas é muito grande e de logística complexa, pois envolve todas as disciplinas da engenharia e exige muitos equipamentos, todos importados do Brasil.”

A oferta de água encanada ajudará a reduzir as taxas de mortalidade por doenças infecto-contagiosas e oportunistas, e a gerar novas oportunidades de trabalho e renda, já que a disponibilidade de água de boa qualidade deverá atrair novos investimentos na indústria, no comércio e na área de serviços.

“A atividade econômica em Benguela está em franco desenvolvimento”, salienta Luiz Bueno, Diretor dos Contratos da Odebrecht na província. Ele conta que, no fim de junho deste ano, as obras foram visitadas por Fernando da Piedade Dias dos Santos, Primeiro Ministro de Angola, que recomendou que os estudos avancem para a próxima fase do Projeto de Águas de Benguela. Nessa fase será feita a totalidade da distribuição de água tratada nas cidades de Benguela e Lobito e executado todo o sistema de saneamento e drenagem de águas pluviais das duas cidades. “Com esses investimentos, temos certeza de que a Província de Benguela será um modelo de desenvolvimento econômico e social”, afirma Luiz Bueno.

Diques de contenção
“As obras de regularização dos rios Coporolo, Cavaco e Catumbela também têm um forte cunho social”, explica Manuel Ximenes, da Odebrecht, Responsável pelo projeto. O Coporolo e o Cavaco são rios intermitentes, mas nem por isso deixam de representar uma ameaça à vida das populações e às atividades agrícolas em suas margens. Quando chove nas cabeceiras, sempre na mesma época do ano, entre novembro e abril, as águas retornam com muita força, derrubam casas, acabam com as plantações e muitas vezes fazem vítimas entre a população.

O Catumbela, onde se faz a captação para o projeto das águas e onde as obras de regularização estão mais avançadas, é perene. Os trabalhos revelaram a existência de diques antigos, abandonados, sem manutenção há mais de 40 anos, mostrando que os problemas com as enchentes não são de hoje. O que é recente é a idéia de construir ali uma grande avenida marginal, com prédios, hotéis e restaurantes, criando um complexo turístico que valorize a beleza da região e estimule o turismo.

De imediato, no entanto, os trabalhos buscam, já nas próximas chuvas, conter as águas no curso dos rios por meio de diques, protegendo Catumbela das cheias do Catumbela; Benguela, das cheias do Cavaco; e Dombe Grande, das cheias do Coporolo. Segundo Manuel Ximenes, até novembro, quando começa a época das chuvas, os diques dos três rios ainda não estarão terminados, mas já terão a altura suficiente para evitar as inundações nas cidades e nas áreas agrícolas, com profundo impacto no desenvolvimento da região.

Integração de trabalhadores
A identificação, educação e integração de trabalhadores é um dos maiores desafios da equipe da Odebrecht em Benguela, onde a inexistência de obras de grande porte e os reflexos da guerra provocaram a migração de pessoas para Luanda. Quando chegou em Benguela para o projeto das águas, a equipe precursora da Odebrecht encontrou, como principal dificuldade, exatamente a falta de profissionais especializados. “As pessoas que vinham fazer teste não tinham qualquer tipo de formação”, conta Leonardo Ribeiro, Responsável Comercial no projeto.

Para superar essa limitação, a Odebrecht criou e mantém em seus estaleiros (palavra usada pelos angolanos para designar os canteiros de obras das companhias) um núcleo de capacitação e formação de pessoas, no qual são preparados pedreiros, carpinteiros, armadores, motoristas de caminhão, operadores de máquinas pesadas, auxiliares técnicos e técnicos especializados.

O local dos trabalhos

Com o tempo e o trabalho de educação desenvolvido, as coisas foram mudando. “Hoje trabalhamos com 840 angolanos e 65 brasileiros”, diz Leonardo. Somando-se o pessoal que atua no projeto dos rios e no Condomínio Cajueiro, o número de trabalhadores da Odebrecht na Província de Benguela já ultrapassa a marca de 1.100 pessoas, quase todas angolanas.

No âmbito gerencial, as obras também se constituem em ricos espaços de aprendizado. Luiz Gordilho, baiano de 31 anos, é o Responsável por Produção no Projeto Águas de Benguela. Chegou a Angola em setembro de 2004, depois de estagiar na Odebrecht em Salvador, na área imobiliária. Lidera uma equipe que, além dele, tem três integrantes. “Aqui, procuramos praticar a pedagogia da presença e a educação pelo trabalho”, ressalta ele, que começou na Odebrecht em setembro de 2000.

Odebrecht ajuda a recuperar infra-estrutura social

Um de seus liderados é Octávio Rodrigues, engenheiro angolano de 35 anos, que cursou engenharia na Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, onde se casou com uma brasileira com a qual tem dois filhos, também brasileiros. Octávio trabalhou em Portugal e começou na Odebrecht em março deste ano no projeto das águas. A família ficou no Brasil, mas ele está “a criar as condições necessárias” para trazê-la para Angola. “O trabalho corre muito bem e estou aprendendo muita coisa”, afirma.

Junto com Octávio, trabalha Alfredo Bastos, também angolano, hoje com 18 anos, que começou como estagiário em 2005, e está cursando a faculdade de engenharia. Ele trabalha no acompanhamento das obras, apoiando os encarregados. Acredita que so que faz vai melhorar as condições de vida da população e gerar oportunidades de trabalho. O outro integrante da equipe é Fernando dos Santos, 22 anos, técnico em edificações, que também começou como estagiário e foi efetivado este ano. Seu sonho é seguir o mesmo caminho do colega Alfredo e cursar engenharia. “Estou a trabalhar para isso.”


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