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Equador |
texto: Márcio Polidoro fotos: Christian Cravo |
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No caminho de rios, vales e vulcões
Conclusão da Hidrelétrica de San Francisco, obra composta quase que totalmente de túneis, galerias e cavernas subterrâneas, marca os 20 anos de atuação da Odebrecht no Equador
Baños de Água Santa é uma cidade com pouco mais de 10 mil habitantes que se espreme em um vale da Cordilheira dos Andes, 220 km ao sul de Quito, capital do Equador. Localizada à margem direita do rio Pastaza, tenta crescer à sombra do vulcão Tungurahua, um vizinho majestoso e ameaçador, cujo ponto mais alto está 5.087 m acima do nível do mar. Um dos 47 vulcões que dominam a paisagem do país, o Tungurahua foi responsável por uma noite inesquecível para os integrantes da Odebrecht que durante 39 meses trabalharam na construção da Hidrelétrica de San Francisco, a 15 km de Baños, rio abaixo.
A Hidrelétrica de San Francisco aproveita a descarga das águas turbinadas da Hidrelétrica de Agoyán. Parte da água segue seu curso, no caudal do rio, e parte é desviada para um túnel, com 7 m de diâmetro e 11,2 km de comprimento, que atravessa o maciço rochoso. Após percorrer o túnel e depois de uma queda de 200 m, as águas chegam à casa de máquinas, também escavada na rocha, para movimentar duas turbinas com potência instalada de 230 MW. Desde 20 de junho, quando foi inaugurada pelo Presidente da República, Rafael Correa, as duas turbinas estão produzindo 1.446 GW/hora ano, o que equivale a 12% de toda a energia disponível no Equador. Uma linha de transmissão de 230 kV (quilovolts) leva a energia até a subestação de Totoras, na cidade de Ambato, a 44 km, integrando-se ao Sistema Nacional Interconectado.
San Francisco é uma obra que impressiona, composta quase que totalmente de túneis, galerias e cavernas subterrâneas. É invisível para quem passa pela rodovia que acompanha o rio Pastaza e que leva à Amazônia equatoriana, alguns quilômetros à frente. Localizada em uma região notável pela riqueza ambiental e paisagística, é um exemplo de como investimentos em geração de energia podem conviver com exigências rigorosas de preservação da fauna, da flora e do potencial ecoturístico, um fator importante na economia do Equador. Praticou-se ali engenharia de ponta. Os túneis foram abertos com o uso de uma máquina shield (Tunnel Boring Machine) e não se registrou qualquer impacto nas montanhas, na selva ou nos vales cortados por rios encachoeirados.
As obras foram iniciadas em 2004, e em 30 de maio último percebia-se um clima de contida emoção no interior da casa de máquinas quando, pela primeira vez, as duas turbinas operaram simultaneamente. Afrânio Oliveira – que fez parte do primeiro grupo que chegou ao local da obra, começou como Gerente de Equipamentos, foi Gerente de Produção e entregou a hidrelétrica pronta ao Cliente como Diretor de Contrato – era um dos mais emocionados. Formado em engenharia mecânica pela Universidade Federal da Bahia, está na Odebrecht onde entrou como estagiário, há 16 anos. “Este momento é um marco em minha carreira profissional”, ele disse. “É muito bom poder falar que, com as 1.600 pessoas que trabalharam aqui, fizemos esta obra.”
No pico dos serviços aproximadamente mil trabalhadores eram da região. Os outros 600 moravam em dois alojamentos, um próximo das obras e outro na cidade de Baños. E foi neste que, ao retornar do trabalho, por volta de 7 horas da noite de 16 de agosto do ano passado, Afrânio viu o Tungurahua dando sinais de que entraria em atividade.
Todos estavam preparados. cada integrante tinha um kit de emergência com lanterna, máscara e outros equipamentos necessários para enfrentar uma erupção do vulcão. Mas naquela noite ele assustou. Algumas horas depois do início das erupções, parte da cidade foi evacuada e os moradores do alojamento, transferidos para o canteiro de obras.
Durante a noite toda, o Tungurahua cuspiu cinzas, pedras e lava. Só parou ao amanhecer. E quando parou, todos os equipamentos e pessoas da obra que poderiam ajudar nos serviços de socorro, limpeza da cidade e desobstrução de estradas foram mobilizados. Era um momento difícil, houve seis vítimas fatais entre moradores da região e a ajuda da Odebrecht foi decisiva para que a vida retornasse ao normal. Mas não havia novidade no gesto. Quem afirma é Oswaldo Viteri, líder comunitário da paróquia de Ulba, próxima das obras.
Diálogo com as comunidades
O Equador é dividido em províncias. As províncias são formadas por cantões. Baños é um cantão da província de Tungurahua. Os cantões são formados por paróquias, que, por sua vez, se dividem em povoados.
Oswaldo começa seu depoimento referindo-se à experiência anterior, que foi a construção da Hidrelétrica de Agoyan, 15 anos atrás: “Não tivemos nenhuma relação com os construtores da época. Já a Odebrecht tomou a iniciativa de procurar as comunidades e dialogar com elas”. O balanço que ele faz dá uma idéia do relacionamento que se estabeleceu: “Fornecemos pessoas para trabalhar e participamos do projeto. Em compensação, recebemos obras comunitárias com as quais apenas sonhávamos. A escola de La Merced foi reformada e ampliada. Hoje, temos projetadas uma sala de informática, uma de ciências naturais e uma de ensino de idiomas. Ou seja: podemos preparar nossas crianças para que se conectem com o mundo”. Além disso, a Odebrecht construiu pontes, ampliou estradas vicinais e implantou uma escola agrícola para capacitação de pequenos proprietários de terra no desenvolvimento da agricultura orgânica e de novos cultivos na região.
A importância econômica da Hidrelétrica de San Francisco, que pertence à HidroPastaza S.A., pode ser medida pela afirmação que consta de artigo publicado no jornal El Comercio, de que “passou de ser uma obra importante para ser transcendental”.
Com apenas 52% de sua matriz energética suprida por geração hidráulica, o Equador importa energia do Peru e da Colômbia e enfrenta o alto custo da geração térmica. O crescimento da demanda está em torno de 6% ao ano e a entrada em operação de San Francisco significará uma economia de divisas de US$ 112 milhões anuais.
A contribuição social que a Odebrecht promoveu voluntariamente na região de Baños se insere, portanto, em uma visão mais ampla, de compromisso com o desenvolvimento do Equador, que vai além de sua atuação como prestadora de serviços. E assim tem sido, desde que chegou àquele país, 20 anos atrás.
A transformação de Santa Elena
Em 1987 a Odebrecht conquistou seu primeiro contrato no Equador para construção de uma barragem, diques e canais de concreto destinados à irrigação de 4.500 hectares de terra.
O cliente era a Cedege – Comisión de Estudios para el Desarrollo de la Cuenca del Río Guayas, e, em setembro de l988, Odebrecht Informa noticiava assim o avanço das obras: “Um sonho que o Equador acalenta há décadas: transformar a Península de Santa Elena numa região produtiva e próspera. Situada a noroeste de Guayaquil – a maior cidade do país (hoje com 3 milhões de habitantes) –, a região tem solo fértil, bom clima e um grande potencial para industrialização e desenvolvimento do turismo. Só falta água. O sonho começa a se tornar realidade”.
Em 1992 aquela etapa estava concluída e imediatamente começou uma nova fase do projeto. Um conjunto de barragens, dutos e canais permitiu ampliar a área irrigada para 42 mil hectares.
A conclusão dessa segunda etapa coincidiu com a comemoração dos primeiros 10 anos de presença da Odebrecht no Equador, sinalizando que o enfoque era na permanência.
Hoje, quem trafega pela Ruta E 15, que liga Guayaquil a Salinas, no litoral, não deixa de observar as dezenas de pontes que se sucedem, invariavelmente cruzando os leitos secos de riachos temporários, cujas águas correm poucos meses do ano. E também se surpreende vendo o cinza da vegetação seca, que lembra a caatinga do Nordeste brasileiro, em contraste com manchas do verde viçoso de cultivos altamente produtivos. São pequenas propriedades irrigadas onde camponeses colhem pimentão, tomate e melão. Ao longo dos canais de irrigação, a paisagem é de um verde denso. Há grandes áreas plantadas com culturas perenes, como manga, limão, maracujá, banana e mamão.
Mário Costa, engenheiro civil, entrou na Odebrecht há 14 anos, através do programa Jovem Parceiro. Ele é natural de Guayaquil e recorda as viagens que fazia pela região na infância: “O que mais me vem à mente é a imagem dos cactos, espécie de símbolos da seca. O projeto de irrigação da Península de Santa Elena mudou a paisagem e mudou a vida neste pedaço do Equador”.
No entanto, havia mais a ser feito na região, para beneficiar também os moradores das diversas cidades e povoados da costa. No fim da década passada, a península registrava as maiores taxas de mortalidade infantil do país. Vivem na região 750 mil pessoas, das quais 70% não tinham acesso a água tratada e dependiam de fontes não-confiáveis; 97% das casas não tinham coleta de esgoto e dados do Ministério da Saúde revelavam que 50% das doenças estavam relacionadas à degradação do meio ambiente.
Contratada pela Cedege para realizar as obras completares de infra-estrutura da Península de Santa Elena, a Odebrecht construiu um sistema de distribuição de água e de tratamento de esgotos que atende as cidades de Santa Elena, La Libertad, Salinas, Ballenita, San Pablo, Atahualpa, Tambo, Prosperidad, Playas, Posorja, El Morro, Engabao e Anconcito.
Anconcito era uma vila de pescadores mas descobriu-se petróleo na região e seu crescimento foi inevitável e desordenado. Nos bairros periféricos, casas cobertas com folhas de zinco enfileiram-se em ruas poeirentas. Todas, porém, têm água e esgoto, numa demonstração de que o saneamento básico, por representar fator fundamental à preservação da saúde, vem sendo tratado com atenção pelo governo equatoriano.
Mário Costa trabalhou na obra. Ele entrou na Odebrecht assim que concluiu o curso de engenharia e nunca mais saiu, exemplo de uma outra marca da atuação no Equador, que é a constituição de equipes locais a partir da identificação, integração e formação de jovens talentos, sempre com enfoque na permanência e no compromisso com o desenvolvimento do país. Hoje, há engenheiros equatorianos trabalhando em obras da Odebrecht no Peru, na Venezuela, no Panamá e na República Dominicana.
Atualmente, Mário Costa é Responsável pelo programa de Administração Contratual na equipe dirigente do Projeto Multipropósito Baba.
Ação social
O Projeto Baba faz parte da infra-estrutura construída para o aproveitamento integral dos recursos hídricos da bacia do rio Guayas. Os objetivos principais são a geração de energia em uma central hidrelétrica, o controle de cheias e o incremento à produção agrícola. Localizado na Província de Los Ríos, o Projeto Baba também se caracterizará pela amplitude da ação social, previamente assumida com o cliente Cedege e com as comunidades no entorno da obra. Destacam-se programas de desenvolvimento agrícola, de piscicultura, de incremento ao turismo e de reforma e ampliação das instalações escolares. Estão previstos ainda investimentos para melhorias nas pontes da região e nas estradas vicinais e o florestamento de todo o perímetro do lago que será formado pela barragem no rio Baba.
Na equipe de Baba também está Marcelo Idrovo, equatoriano, Encarregado de Manutenção. Marcelo foi para lá, depois de ter participado da construção de San Francisco. Ele, como Mário Costa, teve na Odebrecht sua primeira oportunidade de trabalho. Foi em 1988 e começou como técnico de manutenção de equipamentos pesados. Em 1999 foi promovido a Encarregado. “Aqui, tive muitas oportunidades”, ele relata. “Meus líderes ajudaram na minha formação e devo a eles estar onde estou. A Odebrecht é uma universidade.”
Mas os programas de desenvolvimento do capital humano não se restringem aos integrantes da Odebrecht. Alberto Zamora, 54 anos, tem terras em Calceta, cidade da província litorânea de Manabi, região central do Equador. Sua propriedade está na área do Sistema de irrigação Carrizal-Chone, construído pela Odebrecht para a CRM – Corporación Reguladora del Manejo Hídrico de Manabi. Nasceu na região e sempre trabalhou no campo. Perguntado sobre o que mudou com a implantação de Carrizal-Chone, é simples e objetivo: “O que mudou foi a água. O velho poço eu guardo como relíquia”. Isso representa muito para uma região onde chove em alguns meses do ano e o período de estiagem é longo e rigoroso. Entretanto, a grande mudança decorre do Programa de Desenvolvimento Agrícola, uma ação público-privada, com recursos da CRM e gestão e apoio da Odebrecht, que visa melhorar as condições de trabalho e de qualidade de vida dos agricultores de subsistência, transformando-os em pequenos empresários agrícolas. ”Após tantos anos trabalhando a terra, aprendi o manejo das plantas, o manejo do recurso hídrico e o manejo correto do gado”, explica Alberto Zamora, que integrou à sabedoria ancestral um novo conhecimento técnico.
Carrizal-Chone
O Sistema Carrizal-Chone é parte do Plano Hidráulico de Manabi e tem dois grandes propósitos: suprir a carência e otimizar o uso da água nos períodos secos, e mitigar os efeitos das inundações no período das chuvas. É composto de uma rede pressurizada de tubos, cujo tronco principal tem 11 km, com diâmetros variando entre 1.800 mm e 2.200 mm. A rede secundária se compõe de ramais com diâmetro entre 110 mm e 600 mm, que distribui a água que vem da represa de La Esperanza através de 2.150 pontos de acesso aos usuários.
A primeira etapa, concluída no ano passado, irriga 7.250 hectares distribuídos por 2.688 proprietários. São beneficiados também 5.000 hectares destinados à criação de camarões. Com a implantação da segunda etapa, também sob responsabilidade da Odebrecht – e cujas obras podem ser iniciadas ainda neste semestre –, a área cultivável beneficiada atingirá 12.250 hectares, com impacto direto e indireto em uma população de 300 mil habitantes.
Gonzalo Diaz, há oito anos na Odebrecht, é o Responsável pelo Programa de Desenvolvimento Agrícola. “Esta iniciativa tem como rumo a perpetuidade do sistema”, explica. “O eixo do trabalho é o fortalecimento e a diversificação de cadeias produtivas, baseados na organização dos produtores, foco em produtos de alto rendimento e potencial de exportação, assistência técnica, sistemas de irrigação, capacitação tecnológica, fortalecimento institucional e identificação e agregação de sócios estratégicos para o processo de comercialização internacional da produção.”
O processo de experimentação e difusão tecnológica se dá a partir da Granja Quiroga, atualmente sob responsabilidade de Pedro Azua, engenheiro agropecuário, também há 8 anos na Odebrecht. Segundo ele, “a finalidade principal da Granja é capacitar os agricultores da região e estudantes de escolas técnicas agrícolas em práticas produtivas de cultivo, criação de gado e irrigação, além dos aspectos administrativos, de identificação de mercados, comercialização de produtos etc.”. Há hoje na granja cultivares demonstrativos de ciclo curto (melão, pimentão e milho); permanentes, como cacau, flores tropicais e limão-taiti; e de ciclo semipermanente como o arroz.
Equador tem novo Diretor-Superintendente
O cacau de fino aroma é um importante produto de exportação do Equador. Em Carrizal-Chone diversas iniciativas foram tomadas visando incrementar a produtividade e desenvolver formas de comercialização mais favoráveis aos pequenos produtores. Como Diani Oromaza, 74 anos, que produz cacau orgânico em 5 hectares de terra. A irrigação de sua plantação, que agora é possível, assegura produção o ano inteiro. Mas o que o deixa mais feliz é a Associação de Produtores criada no âmbito do projeto. Em Calceta, entregando seu cacau na Associação, ele comemora: “Não vendo mais para os intermediários e ganho, com isso, quase três vezes mais”.
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