Nº 133 NOVEMBRO/DEZEMBRO DE 2007 | ENGLISH | ESPAÑOL
Petróleo e Gás texto: Maria Luiza Abott     fotos: Élcio Carriço
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Um mar de superação

Produção de petróleo no campo de MacCulloch, no Mar do Norte, chega a quatro vezes mais do que a estimativa inicial

No dia 12 de agosto de 2007, o Campo de MacCulloch, na parte britânica do Mar do Norte, chegou à marca de 100 milhões de barris de petróleo produzidos e entrou para a história de sucessos da indústria petrolífera mundial. Afinal, em 1997, o contrato para produção e administração do campo entre a operadora à época, a Conoco (UK) Limited (hoje ConocoPhillips) e o consórcio Odebrecht-Maersk previa a produção de 26 milhões de barris, com uma vida útil estimada em cinco a seis anos. Uma década mais tarde, o volume de produção chegou a quase quatro vezes mais do que a estimativa inicial.

Os resultados atingidos levaram à renovação por mais cinco anos (até 2012) do contrato entre a ConocoPhillips e a North Sea Production Company (NSPC), o consórcio Odebrecht-Maersk. A expectativa é de que a produção do MacCulloch chegue a 135 milhões de barris de petróleo.

A produção do MacCulloch é feita pela NSPC com um Floating Production Storage Offlanding System (FPSO), ou navio-plataforma, que tem o nome de North Sea Producer. O FPSO foi convertido a partir do petroleiro Dagmar Maersk, um navio de 12 anos, totalmente reformado, adaptado e operado pelo consórcio Odebrecht-Maersk. Os resultados obtidos pelo FPSO e o consórcio terão influência sobre os projetos a serem desenvolvidos no setor de Óleo e Gás pela Odebrecht.

“Os 100 milhões de barris de petróleo produzidos nos 10 anos de operação do North Sea Producer representam um marco importante para nosso cliente e para a Odebrecht tanto na criação de valor quanto na consolidação da relação de parceria e confiança. Estamos bastante orgulhosos do resultado alcançado”, diz Miguel Gradin, Diretor de Óleo e Gás da Odebrecht. “Já mantemos conversação com clientes para operarmos novas unidades em países da nossa geopolítica empresarial. Os preços elevados do petróleo têm estimulado as petroleiras a investirem na exploração e desenvolvimento de novos campos”, acrescenta.

“Congratulações e agradecimento”
Foi a primeira vez que a ConocoPhillips usou o sistema FPSO no Mar do Norte. No dia em que a produção chegou aos 100 milhões de barris, a empresa enviou carta de “congratulações e agradecimento” aos representantes do consórcio Odebrecht-Maersk. A carta, assinada por David Farthing, da ConocoPhillips, Gerente da Unidade de Operações do Centro do Mar do Norte, destaca que esse foi um “grande feito”, em que a produção “superou as expectativas originais para o campo, fixadas no plano de desenvolvimento”.

Exploração de petróleo no campo de Macculloch

Paul Davis, Gerente de Investimentos da ConocoPhillips para o Ativo MacCulloch, comenta: “O fato de o campo ter produzido mais de 100 milhões de barris e ainda ter potencial significativo pode ser atribuído ao trabalho inovador feito pela equipe do ativo (FPSO)”.

No início da década de 1990, já havia a previsão de que a produção de petróleo do Mar do Norte estaria em declínio e outras formas de operar os campos menores eram procuradas. Com os preços do petróleo praticados na época, campos com previsão de produção inferior a 100 milhões de barris não conseguiam pagar uma estrutura exclusiva. A saída encontrada foi o uso de estruturas compartilhadas ou que pudessem ser aproveitadas em outros campos. Surgiam as unidades flutuantes de processamento de petróleo, os FPSOs, que começaram a ser utilizados em 1986 no Mar do Norte e também no Brasil.

Experiência no Brasil foi decisiva
A experiência da Odebrecht no Brasil foi fundamental para o projeto na Escócia, segundo a engenheira brasileira Clarice Romariz, que chegou a Aberdeen em maio deste ano para ser a Gerente do Projeto de Extensão da Vida Útil do FPSO – em cumprimento às exigências da extensão do contrato. Ela ressalta que precisou se adaptar às diferenças climáticas e culturais entre Escócia e Brasil. A região de Aberdeen tem uma beleza capaz de inspirar poetas como Robert Burns, mas também tem frio intenso, ventos fortes, mar revolto e, no inverno, a noite chega antes das 15 horas.

A alagoana Clarice é a única brasileira da equipe. Solteira, diz que os escoceses são amigáveis e hospitaleiros. Ela vai ao Brasil a cada três meses “para recarregar as energias com o calor da família e do sol”. Clarice ingressou na Odebrecht em 2000, depois de sair de Maceió para fazer faculdade em Salvador. Entre outros projetos, trabalhou na construção da Fábrica da Ford, em Camaçari (BA), da Termelétrica Norte-Fluminense, em Macaé (RJ), e na Base Macaé da Odebrecht (nos projetos de Manutenção do Ativo Sul e na Adequação Fiscal do Ativo Marlim à Agência Nacional do Petróleo, a ANP). Em 2004, participou do Programa de Desenvolvimento de Empresários (PDE).

“Ondas grandes para os padrões brasileiros aqui são normais e a temperatura é extremamente baixa. Isso faz com que os fatores climáticos sejam preponderantes nas decisões do dia-a-dia”, explica Clarice sobre o Mar do Norte. “O padrão de segurança da NSPC é muito elevado e o planejamento e a logística da operação são fundamentais”, ela acrescenta. Graças a esses cuidados, o histórico de segurança do North Sea Producer é excelente.

As obras de extensão da vida útil incluem as áreas de engenharia (reanálise estrutural do casco, do sistema de ancoragem e dos sistemas de tubulação; revisão técnica submarina e dos sistemas de controle e de combate a incêndios, entre outras); marinha (pintura, revisão das correntes das âncoras, toda a reforma estrutural para reclassificação 2007 a 2012 do navio-plataforma); topsides (substituição de tubulações, upgrade de telecomunicações e do sistema de controle, substituição do flare tip – no qual é feita a queima do gás – e ampliação e upgrade de alojamento); e investimentos para melhorar ainda mais o desempenho, através de estudos e ações relacionados aos sistemas de compressores e turbinas.

Crescimento em petróleo e gás
Os resultados obtidos com a operação do NSP abrem novas oportunidades para o começo de um ciclo de crescimento da Odebrecht no setor de óleo e gás. “A operação de plataformas de produção de petróleo faz parte da estratégia de crescimento da Odebrecht Óleo e Gás em conjunto com a operação de sondas de perfuração. A experiência adquirida no Mar do Norte, em um ambiente que exige níveis de excelência em qualidade, segurança e meio ambiente, e a capacitação de pessoas servirão de base para o nosso crescimento neste segmento da indústria”, diz Miguel Gradin.

Segundo Derek Rowe, Representante da Odebrecht no Conselho do Consórcio, o projeto é um exemplo de que os rumos da Odebrecht – sobreviver, crescer e perpetuar – estão presentes no dia-a-dia das equipes. “A sobrevivência aconteceu porque, mesmo nos momentos difíceis, o negócio sempre foi apoiado pela alta direção da Odebrecht. Isso tem valor real, é um valor básico, o de servir a seu cliente”, ele destaca.

Já em 2000, lembra Derek, o desafio era crescer. “A empresa tinha apoiado o processo de sobrevivência e era o momento de recompensarmos esse apoio, o que nos levou a encontrar os caminhos para renegociar o contrato e assegurar a remuneração do investimento.” Derek enfatiza a importância do apoio que recebeu de seu líder à época, Ruy Sampaio, e afirma que, apesar da distância física entre o Brasil e o Reino Unido, sempre teve o suporte necessário para sua atuação. “Essa é a forma como a Odebrecht apóia seus integrantes.” Ele prossegue: “Agora, o desafio é usar a experiência obtida para apoiar o Programa de Ação da área de óleo e gás da empresa, para que o aprendizado dessa operação possa ser transmitido – e isso se traduz em crescimento e perpetuidade”.

A flexibilidade faz a diferença
Por trás dessa história de sucesso estão alguns fatores fundamentais. Entre eles, a versatilidade do FPSO, que permitiu a expansão da produção, sempre que necessário, a partir da introdução de novas tecnologias durante a elaboração do design do FPSO. Graham Kennedy, Gerente de Engenharia do projeto, conta que, em palestras que faz para estudantes e técnicos sobre as obras de adaptação do NSP na segunda metade da década de 1990, sempre chama a atenção para o fato de que o navio-plataforma já continha elementos que só tempos depois foram incorporados em FPSOs desenvolvidos. “A flexibilidade do NSP permitiu que o sistema pudesse ser expandido para aumentar a produção”, diz Graham.

Segundo Clarice Romariz, entre os ingredientes para o sucesso do projeto NSP estão a evolução tecnológica do processo de produção e a sabedoria de aproveitar as oportunidades para otimizar a produção. “As obras de adaptação do navio foram muito bem-feitas, o que permitiu que ele fosse se ajustando às novas tecnologias que foram surgindo e produzisse mais petróleo”, diz Clarice.

Roberto Ramos, hoje Vice-Presidente de Desenvolvimento de Negócios da Braskem, foi um dos pioneiros do projeto do NSP. Ele explica que, por trás da versatilidade do equipamento, estava a visão de que essa estrutura não deveria ser utilizada exclusivamente no Mar do Norte. “Se, na teoria, precisávamos ser capazes de usá-lo em diferentes projetos, já que ele não poderia se pagar na primeira campanha, então ele tinha de ser razoavelmente flexível para que fosse empregado em vários campos. Ele é um dos poucos navios que detêm a particularidade, de exportar a produção via transbordo para navios-tanque ou via conexões e oleodutos diretamente ao terminal”, observa.

Na avaliação de Miguel Gradin, a consolidação das boas relações entre os parceiros da NSPC e do consórcio com a ConocoPhillips foram essenciais para assegurar a renovação do contrato e o sucesso do empreendimento. Ele destaca “a relação de confiança com o cliente, com o qual dividimos os mesmos valores e objetivos, e a busca contínua da excelência na operação”.

De acordo com Nigel Taylor, Gerente Geral da NSPC, a parceria Odebrecht-Maersk funciona muito bem, com excelente divisão de responsabilidades entre operação e engenharia. “Temos boa cooperação no escritório, também muito boa cooperação dos acionistas, Odebrecht e Maersk, e os dois lados têm grande interesse em que a parceria seja um sucesso. Recebo enorme apoio dos dois”, diz Nigel.

Derek Rowe, que está na Odebrecht há 15 anos, destaca ainda que o trabalho conjunto com o cliente, e o entendimento profundo das necessidades da ConocoPhillips, foram essenciais para o sucesso das renegociações do contrato feitas em 2000 e outra vez este ano.

Diversidade que soma
Clarice Romariz e Derek Rowe salientam que a Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO) se adapta naturalmente a qualquer cultura, permitindo o surgimento da confiança dentro de um time que inclui brasileiros, ingleses, escoceses, dinamarqueses e noruegueses. “A disciplina gera respeito, que gera confiança, que é a base de qualquer relação”, diz Clarice. Para Derek, a existência de pessoas de diferentes nacionalidades na equipe gera uma coordenação mais complexa: “Com a filosofia da Odebrecht, conseguimos equalizar as diferenças”.

A diversidade de culturas também contribui para que os resultados sejam diferenciados. Diz Clarice: “A contribuição cultural do brasileiro é a criatividade e a flexibilidade. Já a do britânico é a disciplina e o planejamento”. E há ainda as diferenças práticas: no Brasil, os FPSOs trabalham com uma quantidade maior de pessoas a bordo e estruturas de alojamento mais simples. Na Escócia, o número de trabalhadores a bordo é limitado, o que exige otimização dos recursos e uso de toda a tecnologia disponível.

Nigel acredita que o projeto tem todas as condições de se desenvolver e crescer nos próximos cinco anos, tempo de duração do novo contrato. “Pessoalmente acho que pode ir além desse prazo, porque a ConocoPhillips deverá perfurar novos poços em 2008 e 2009. Isso vai ajudar a manter os níveis de produção que fazem a NSP ser uma operação viável”, diz Nigel.

O momento atual da indústria mundial de petróleo, com preços em alta, permite que as empresas produtoras de petróleo aumentem seus investimentos no setor. Isso abre novas oportunidades para o uso de FPSOs. Segundo Roberto Ramos, esse tipo de navio-plataforma é o modo mais adequado para desenvolver as acumulações pequenas de petróleo e cada vez mais as empresas petrolíferas terão de desenvolver os campos menores, porque o ritmo de grandes descobertas vem diminuindo de forma considerável.

Além disso, a tendência da exploração de petróleo segue o caminho para águas mais profundas, nas quais as plataformas fixas não podem ser utilizadas, e a solução é uma instalação flutuante, que tanto pode ser um FPSO ou uma plataforma semi-submersível. “A diferença é que o S de FPSO significa storage (armazenagem). Ele tem como pôr sua produção nos tanques e transferir para um navio-aliviador, enquanto a plataforma semi-submersível, como não tem capacidade de estocagem, deve ser utilizada necessariamente num lugar onde exista uma rede de oleodutos que permita o escoamento da produção”, explica Roberto Ramos, que foi responsável pelo programa entre 1997 e 2002. Por isso, ele prevê que os FPSOs serão utilizados em toda a província petrolífera offshore, incluindo Brasil, Costa Oeste da África, Mediterrâneo, Mar da China, Sudeste Asiático, ainda no Mar do Norte e, eventualmente, talvez possam ser utilizados no Golfo do México.


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